Diante do risco de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegar à próxima eleição com apoios frágeis nos principais colégios eleitorais, o Palácio do Planalto intensificou a articulação política nos estados e aumentou a pressão para que ministros assumam protagonismo nas disputas regionais. A avaliação interna é que, sem palanques competitivos, sobretudo no Sudeste, a campanha presidencial pode enfrentar dificuldades adicionais, mesmo com a máquina federal em funcionamento.
Em São Paulo, o foco principal do governo está sobre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Auxiliares de Lula defendem que ele dispute o governo estadual como forma de garantir um palanque robusto no maior colégio eleitoral do país. Apesar da resistência pública de Haddad, que já afirmou mais de uma vez não desejar concorrer, o PT mantém seu nome como plano A e acredita que o presidente avançou no processo de convencimento.
A preocupação do Planalto é que Lula fique isolado politicamente em estados estratégicos, abrindo espaço para alianças entre partidos de centro que hoje integram a base do governo e candidaturas bolsonaristas. Como nem sempre é possível garantir apoio formal dessas legendas, a estratégia tem sido dialogar com setores internos das siglas e evitar que elas fechem acordos estruturados com o campo adversário. “Não dá para correr riscos onde há milhões de eleitores”, resume um aliado do presidente.
Segundo um interlocutor de Lula, o presidente pretende escalar ministros com densidade eleitoral para atuar diretamente nos estados considerados mais sensíveis. A ideia é manter um “banco de reservas” de nomes competitivos, prontos para entrar em campo caso as negociações locais não avancem. Esse movimento envolve não apenas o PT, mas também partidos aliados que compõem a Esplanada dos Ministérios.
Em entrevista ao jornal O GLOBO, o ministro da Educação, Camilo Santana, reforçou a cobrança sobre Haddad e afirmou que o colega não pode se dar ao “luxo” de tomar uma decisão apenas individual. Para a cúpula petista, a candidatura em São Paulo é estratégica para o projeto nacional. Haddad, por sua vez, tem dito que prefere atuar na coordenação da campanha e na formulação do programa de governo, sem fechar totalmente a porta para uma disputa.
A definição mais concreta até agora no cenário paulista envolve a ministra do Planejamento, Simone Tebet. Após conversas recentes com Lula, ela aceitou disputar o Senado por São Paulo e deve deixar o ministério até o fim de março para viabilizar a mudança de domicílio eleitoral. No entorno do presidente, a avaliação é que Tebet amplia o alcance do palanque lulista, especialmente junto ao eleitorado de centro.
Tebet passou a ser tratada como peça estruturante da chapa majoritária no estado, em um cenário no qual Haddad continua sendo o principal nome ao governo. Ainda não está definido se ela permanecerá no MDB ou se migrará para outra legenda da base. O vice-presidente Geraldo Alckmin também é citado como alternativa para reforçar o palanque paulista, embora ele tenha dito a interlocutores que não pretende disputar cargos eletivos.
Outro nome que se movimenta em São Paulo é a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que avalia concorrer ao Senado. Ela conversa com partidos da base e de fora dela e sinalizou disposição para participar da construção eleitoral no estado, o que pode ampliar a disputa interna no campo lulista e exigir maior coordenação do Planalto.
No Nordeste, a estratégia também envolve ministros com forte inserção local. Camilo Santana anunciou que deixará o Ministério da Educação para ajudar na articulação de alianças e na reeleição do governador do Ceará, Elmano Freitas, que enfrenta a ameaça de Ciro Gomes. Camilo é visto como plano B ao governo estadual caso Elmano não avance nas pesquisas, e Lula já disse a assessores que não “aceita” perder o estado.
Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues terá como principal adversário o ex-prefeito ACM Neto. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, deve deixar o cargo em abril e, a princípio, disputar o Senado, mas aliados admitem que ele pode concorrer ao governo se Jerônimo enfrentar dificuldades.
No Paraná, Lula escalou a ministra Gleisi Hoffmann para disputar o Senado. O plano inicial era sua reeleição à Câmara, mas, a pedido do presidente, ela tentará a Casa Alta para fortalecer a chapa em um estado considerado hostil. Um aliado resume a estratégia: “Lula quer o melhor time possível nos estados, mesmo que isso exija reativar nomes fora da política”.
Foto: Ricardo Stuckert/PR

