Como traduzir para a Marquês de Sapucaí o universo amplo, múltiplo e profundamente simbólico que representa o artista Ney Matogrosso foi a pergunta central enfrentada pelo carnavalesco Leandro Vieira ao conceber o enredo da Imperatriz Leopoldinense para o Carnaval. A resposta encontrada, segundo ele, foi reconhecer que Ney sempre tratou o visual, o corpo e a performance como um verdadeiro manifesto.
Intitulado “Camaleônico”, o enredo da escola verde e branca de Ramos evita o caminho biográfico tradicional e aposta na construção de um panorama estético e sensorial que traduz a essência artística e transgressora do cantor. A proposta é apresentar ao público não uma cronologia da vida, mas o universo criativo que fez de Ney uma figura única na música e na cultura brasileira.
“É exclusivamente baseado na obra, entendendo a obra como o que ele cantou, mais o universo estético em que ele mergulhou”, afirmou Leandro Vieira em entrevista. Para o carnavalesco, a força de Ney está na maneira como suas imagens e performances se tornaram tão marcantes quanto suas canções.
“Todo mundo conhece alguma coisa do Ney Matogrosso. Ele conseguiu algo que poucos artistas alcançaram. Além das músicas que ficam no imaginário, conseguiu que imagens também permanecessem no imaginário popular”, observou.
A Imperatriz vai mostrar na avenida as múltiplas representações desse artista que fez do figurino e do corpo instrumentos de expressão política e estética. Para Leandro, nada do que Ney vestiu ou encarnou foi casual. “Ele entendeu o corpo como manifesto político e aquilo que veste como manifesto estético”, explicou.
Esse conceito se soma a uma trajetória de mais de cinquenta anos marcada por canções que atravessaram gerações e se tornaram clássicos da música popular brasileira. “São sucessos eternos que ancoram o enredo da Imperatriz Leopoldinense”, destacou o carnavalesco.
O que mais atrai Leandro na história de Ney é a recusa permanente a qualquer definição única. “O Ney é uma bandeira do direito de ser quem se é e de ser quem se quer ser”, afirmou. Segundo ele, o artista assumiu múltiplas identidades ao longo da carreira. “Ele se assumiu bicho selvagem, homem, mulher, andrógeno, bandido, ser sexualizado.”
“Ao assumir isso, ele se transformou em manifesto estético e transformou o próprio ambiente criativo nessa bandeira”, completou.
O desfile percorre momentos emblemáticos, como a fase do álbum “Bandido”, lançado em mil novecentos e setenta e seis. “Ele não é um bandido qualquer. É um bandido andrógeno, sexual, que faz strip-tease no palco”, disse Leandro.
Antes disso, em mil novecentos e setenta e cinco, Ney já havia criado o personagem do homem neandertal para um show e um disco. “Ele resolveu contrariar o aspecto normativo da sociedade durante a ditadura militar. Diante da possibilidade de ser enquadrado, escolheu ser bicho, criatura mitológica, fauno”, relatou.
Leandro lembrou que, no auge do endurecimento do regime, Ney lançou um disco chamado “Pecado” e se deixou fotografar seminu para o encarte de um LP que acabou censurado. “Todas essas escolhas eram transgressoras, eram manifestos políticos e públicos de liberdade”, disse. “O Ney hedonista, sexualizado, sensualizado, tudo isso está presente.”
Mesmo com tamanha ousadia, a reação do público nunca foi de rejeição. “O público gostava cada vez mais”, contou. Segundo ele, a base de fãs sempre foi diversa, reunindo crianças, jovens, adultos e pessoas LGBTQIA+.
“O Ney dos Secos e Molhados, da canção ‘Vira’, fez enorme sucesso com o público infantil. Aquela criatura mascarada, dançando, fez muito sucesso com as crianças”, recordou.
Para o carnavalesco, essa aceitação vem da autenticidade. “O Ney Matogrosso não é o estereótipo da liberdade. Ele é a liberdade em pessoa. Ele não se moldou para ser aceito”, afirmou.
Leandro assumiu ser fã do artista e disse que o enredo era um desejo antigo. “Ele une tudo que eu gosto: transgressão estética, visual exuberante, discurso político, corpo como manifesto. Para mim, Ney é o carnaval em pessoa.”
Desde o lançamento do enredo, em maio do ano passado, Ney tem acompanhado de perto o trabalho da escola. Visitou ensaios, foi ao barracão e se emocionou ao ver o projeto ganhar forma. Para Leandro, homenagear uma personalidade viva permite trocas únicas.
“É emocionante quando apresento um figurino ou uma ideia e a pessoa se reconhece e se emociona. É isso que tenho vivido com o Ney”, contou.
O próprio artista revelou que nunca imaginou ser enredo de escola de samba. “Nunca foi uma questão para mim a necessidade de estar no carnaval”, disse. Ele contou que já recusou convites anteriores, mas decidiu aceitar agora.
“Recebi esta proposta do Leandro e achei que era hora de aceitar”, explicou. Desde então, Ney tem participado ativamente do processo. “Tudo que me pedem, eu faço. Estou muito satisfeito com o que estou vendo.”
Para o carnavalesco, essa presença faz diferença. “Além do universo musical, ele entende profundamente de estética”, afirmou. “Estou voando em céu de brigadeiro dentro do processo criativo”, concluiu, confiante no impacto que o desfile terá na Sapucaí.
Foto: Wagner Rodrigues/Divulgação Imperatriz

