Sexta-feira de Carnaval, 24 de fevereiro de 2006. Enquanto as ladeiras sinuosas de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, eram tomadas por marchinhas, fantasias improvisadas e blocos tradicionais, um grupo de homens atravessava discretamente a região carregando quadros de valor inestimável. Entre as obras levadas estavam pinturas e gravuras assinadas por Claude Monet, Salvador Dalí, Pablo Picasso e Henri Matisse, artistas que figuram entre os mais importantes da história da arte ocidental.
Naquele dia, acontecia o desfile do tradicional Bloco das Carmelitas, que arrasta milhares de foliões pelas ruas estreitas do bairro histórico. A multidão compacta, o som alto e o clima de descontração criaram o cenário perfeito para a ação criminosa. Em meio à festa, quase ninguém percebeu que um dos maiores roubos de obras de arte do país estava em andamento.
Os criminosos invadiram o Museu da Chácara do Céu, pularam muros, renderam funcionários e visitantes e deixaram o local carregando cinco peças do acervo. Segundo levantamento posterior, o valor das obras ultrapassava US$ 10 milhões na época, o equivalente hoje a cerca de R$ 52 milhões. Apesar da dimensão do crime, os assaltantes desapareceram sem deixar pistas concretas, e nenhuma das obras foi recuperada.
O produtor cultural Daniel Furiati estava no bloco naquele dia e lembra do clima de confusão que tomou conta da região. Ele recorda que policiais tentavam atravessar a multidão, mas eram impedidos pelo fluxo intenso de foliões. Para quem participava da festa, tudo parecia mais um episódio corriqueiro do carnaval carioca, com pequenos furtos ou confusões pontuais.
Os criminosos aproveitaram exatamente essa percepção. Enquanto a atenção estava voltada para o desfile, pularam os muros do museu e fugiram pelas ruas do bairro sem levantar suspeitas imediatas. Somente depois, quando o roubo foi confirmado, a dimensão do ocorrido começou a ser compreendida.
Passadas duas décadas, o crime prescreve oficialmente nesta semana. Isso significa que, do ponto de vista penal, os responsáveis não poderão mais ser punidos. Ao longo desses vinte anos, investigações foram abertas, suspeitos foram apontados, mas nenhuma conclusão definitiva foi alcançada.
Três nomes figuraram como principais suspeitos ao longo do inquérito. O primeiro foi Paulo Gessé, proprietário de uma kombi branca que teria sido utilizada para transportar pelo menos uma das obras roubadas. A polícia acreditava que ele teria atuado como cúmplice de outros quatro envolvidos no crime.
A delegada responsável pelo caso determinou o monitoramento do telefone de Gessé, mas falhas técnicas impediram que as ligações fossem registradas adequadamente nos sistemas da corporação. Diante disso, ela passou a anotar manualmente as conversas, procedimento que fragilizou ainda mais a investigação.
Gessé teve sua residência vasculhada, foi preso por alguns dias, mas acabou solto após decisão judicial. A Justiça entendeu que não havia provas suficientes para transformá-lo em réu. Com isso, a principal linha de investigação perdeu força rapidamente.
Denúncias anônimas levaram a polícia a considerar outros dois suspeitos. Um deles foi Michel Cohen, negociador francês de obras de arte acusado nos Estados Unidos de fraudes que somariam cerca de US$ 50 milhões. Antes mesmo do roubo, em 2003, Cohen havia sido preso no Rio por ordem da Interpol, mas conseguiu fugir meses depois.
A suspeita levantada pelas autoridades era de que Cohen pudesse estar envolvido no roubo ocorrido em 2006. Ele permaneceu desaparecido por 17 e só reapareceu publicamente em 2019, ao participar de um documentário exibido pela BBC. Mesmo assim, continuou foragido das autoridades internacionais.
Outro nome citado foi o do artesão francês Patrice Rouge, que vivia no Brasil à época. Dois endereços ligados a ele no Rio de Janeiro foram alvo de diligências policiais, mas estavam vazios. Rouge nunca prestou depoimento à Polícia Federal nem se manifestou publicamente durante os anos seguintes ao crime.
Somente 2 décadas depois, com a proximidade da prescrição, ele decidiu falar. Em entrevista, negou qualquer participação no roubo e afirmou que a acusação se baseou apenas em uma denúncia anônima. Segundo Rouge, ele estava na França quando soube do crime e ficou profundamente abalado ao descobrir que seu nome havia sido associado ao caso.
Rouge contou que chegou ao Brasil em 1974, durante uma viagem pelo mundo com amigos. Acabou se estabelecendo no país após conhecer pessoas ligadas ao mercado de antiguidades e passou a trabalhar com restauração de peças antigas. Durante um período, foi proprietário de uma casa em Santa Teresa, próxima ao museu, o que aumentou as suspeitas durante as investigações.
Ele afirma, no entanto, que nunca entrou no Museu da Chácara do Céu. Segundo seu relato, retornou definitivamente à França em 2005, antes do roubo, mas continuou viajando ao Brasil para visitar a filha e o neto, que vivem no Rio de Janeiro. Rouge está prestes a completar setenta e sete anos.
Para ele, o fato de ter retornado diversas vezes ao país prova que não tinha nada a esconder. Rouge afirma que nunca teve problemas com a Justiça, nem no Brasil nem na França, e que, se estivesse envolvido em um crime dessa magnitude, teria evitado qualquer contato com autoridades.
Em 2011 a jornalista Cristina Tardáguila decidiu investigar o caso em profundidade. O resultado foi o livro A Arte do Descaso, publicado em dois mil e quinze. A principal conclusão da obra é que houve um desinteresse institucional generalizado em solucionar o crime.
segundo a jornalista, faltou empenho da direção do museu à época, das autoridades federais, da polícia e até da imprensa, que deixou de acompanhar o caso após o impacto inicial. Para ela, o roubo revelou uma falência na proteção do patrimônio cultural brasileiro.
Durante a pesquisa, Cristina identificou uma sequência de erros e negligências. A primeira patrulha da Polícia Militar demorou cerca de trinta minutos para chegar ao museu, tempo considerado elevado. Quando a Polícia Federal assumiu a ocorrência, dezenas de pessoas já haviam circulado pelo local, comprometendo possíveis provas.
Além disso, o comunicado enviado a portos e aeroportos do Rio de Janeiro e de São Paulo não continha fotografias das obras roubadas nem descrições detalhadas. Duas das cinco peças sequer foram mencionadas no aviso oficial.
No momento do roubo, 9 pessoas foram feitas reféns, entre funcionários e visitantes. 3 delas nunca chegaram a ser ouvidas durante as investigações. Cristina também critica o fato de a Polícia Federal concentrar, à época, crimes ambientais e crimes contra o patrimônio histórico na mesma delegacia.
Outro problema apontado foi a ausência de um banco nacional de dados sobre obras roubadas. O cadastro específico só seria criado anos depois, em 2013. Em dois mil e quatorze, ao visitar o Ministério Público Federal, a jornalista descobriu que o inquérito policial havia simplesmente desaparecido.
O documento só foi reencontrado no fim de 2015, em meio a pilhas de papel que chegavam diariamente à Polícia Federal. Desde então, o processo permaneceu arquivado provisoriamente, sem avanços. Não há registro claro da data do arquivamento.
Hoje, o Museu da Chácara do Céu apresenta um sistema de segurança reforçado. Desde 2007, a instituição fecha durante os dias de carnaval. O número de seguranças aumentou, há monitoramento permanente por câmeras e protocolos rígidos de controle de visitantes.
As cinco obras roubadas continuam desaparecidas. Especialistas afirmam que a perda não é apenas financeira, mas cultural. Eram peças únicas, acessíveis ao público, fundamentais para educação, pesquisa e memória coletiva.
Para estudiosos, o caso evidencia a necessidade de políticas públicas mais eficazes de proteção ao patrimônio cultural. O roubo de arte, frequentemente tratado como crime menor, também alimenta redes criminosas internacionais, funcionando como moeda de troca para outros ilícitos.
Mesmo com a prescrição, o museu afirma não perder a esperança de recuperar as obras. Para a instituição, elas continuam pertencendo à história do país e ao legado de seu fundador. A ausência é sentida, mas a expectativa permanece de que, algum dia, as peças retornem ao local de onde jamais deveriam ter saído.
Foto: CBMD/Divulgação

