O ex-presidente Jair Bolsonaro retornou à sua residência em Brasília por volta das 10h20 desta sexta-feira, após receber alta hospitalar e iniciar o cumprimento de prisão domiciliar, conforme determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Ele deixou o hospital usando colete e tornozeleira eletrônica, instalada ainda durante o período de internação, encerrando duas semanas de tratamento contra uma broncopneumonia no hospital DF Star.
A transferência do ex-presidente ocorreu sob forte esquema de segurança. Viaturas da Polícia Militar do Distrito Federal foram mobilizadas para abrir caminho e bloquear cruzamentos ao longo do trajeto, enquanto um comboio fechado garantiu o deslocamento entre o hospital e a residência. A custódia direta ficará sob responsabilidade da Polícia Penal do Distrito Federal, que acompanhará o cumprimento das medidas impostas pela Justiça.
Bolsonaro deixou o hospital pouco antes das 10h, acompanhado da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, embora tenham seguido em veículos separados até a residência. A operação também incluiu controle rigoroso do trânsito em pontos estratégicos, com interdições momentâneas e restrições de aproximação de terceiros, com o objetivo de evitar aglomerações e impedir que o deslocamento assumisse caráter político.
De acordo com o médico Brasil Ramos Caiado, integrante da equipe responsável pelo atendimento do ex-presidente, a evolução clínica foi considerada positiva. Segundo ele, os últimos dias transcorreram sem intercorrências, permitindo a alta hospitalar e a continuidade do tratamento em casa. O profissional destacou que houve transição da medicação intravenosa para a via oral, o que possibilita o acompanhamento fora do ambiente hospitalar.
O médico também afirmou que Bolsonaro apresentou melhora superior ao esperado em relação a sintomas específicos, como dificuldades associadas à alimentação. Segundo Caiado, essas informações serão repassadas à equipe de nutrição para ajustes no plano alimentar durante o período de recuperação domiciliar.
Apesar da melhora, o ex-presidente ainda deverá passar por um procedimento cirúrgico nas próximas semanas. A previsão é de que, ao final de abril, seja realizada uma artroscopia no ombro direito para corrigir uma lesão. De acordo com a equipe médica, o protocolo recomenda um intervalo de cerca de quatro semanas após a recuperação da pneumonia antes da realização da cirurgia.
Na chegada ao condomínio, o ambiente foi marcado por baixa mobilização. Diferentemente de outras ocasiões, não houve concentração significativa de apoiadores. Durante o momento, um veículo que passava pelo local registrou manifestação favorável ao retorno do ex-presidente, mas a reação não foi uniforme, com alguns moradores demonstrando incômodo com a movimentação.
Boletim médico divulgado anteriormente já indicava evolução clínica favorável, sem sinais de infecção ativa, e resposta adequada ao tratamento com antibióticos. Esse quadro foi determinante para a concessão da alta hospitalar, associada à decisão judicial que autorizou o cumprimento da pena em regime domiciliar por, inicialmente, noventa dias.
Na decisão, o ministro Alexandre de Moraes estabeleceu uma série de restrições com o objetivo de garantir um ambiente controlado para a recuperação do ex-presidente. Entre as principais medidas está o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica durante todo o período, sendo que o descumprimento das regras pode resultar na revogação do benefício e no retorno ao regime anterior.
Bolsonaro também está proibido de utilizar qualquer meio de comunicação, incluindo telefone celular, redes sociais ou a produção de conteúdos audiovisuais, ainda que por intermédio de terceiros. A restrição busca limitar a comunicação externa durante o período de recuperação e cumprimento da medida judicial.
As visitas foram amplamente restringidas. Apenas filhos, advogados, médicos e fisioterapeuta estão autorizados a ter acesso ao ex-presidente. Mesmo nesses casos, há exigência de controle rigoroso, incluindo a retenção de aparelhos celulares pelos agentes responsáveis pela segurança durante as visitas autorizadas.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a filha Laura e a enteada Letícia possuem acesso livre à residência por já residirem no local. No entanto, eventuais visitas a elas também dependerão de autorização judicial, conforme previsto na decisão.
O controle de acesso ao imóvel será rigoroso. A Polícia Militar do Distrito Federal ficará encarregada de vistoriar todos os veículos que entrarem e saírem da residência, incluindo inspeções em porta-malas e identificação dos ocupantes. Além disso, a corporação deverá monitorar a área externa para garantir o cumprimento das restrições.
A fiscalização da medida ficará sob responsabilidade da Polícia Militar, com coordenação do décimo nono batalhão, que deverá encaminhar relatórios semanais ao Supremo Tribunal Federal. Em caso de descumprimento de qualquer regra, a comunicação deverá ser imediata.
Outro ponto relevante da decisão é a proibição de manifestações públicas nas proximidades da residência. Está vedada a realização de atos, acampamentos ou qualquer tipo de aglomeração em um raio de um quilômetro do imóvel, medida que busca evitar tumultos e preservar as condições de recuperação.
A prisão domiciliar será reavaliada após o período inicial de noventa dias. O Supremo deverá analisar as condições de saúde do ex-presidente e poderá determinar a realização de nova perícia médica para avaliar a necessidade de manutenção ou revisão das medidas.
Nos bastidores, aliados políticos avaliam que o isolamento imposto pela decisão tende a alterar a dinâmica interna do entorno do ex-presidente. Com acesso restrito e ausência de visitas políticas frequentes, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro deve ganhar maior protagonismo no cotidiano, concentrando a interlocução direta com Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro mantém agenda fora do país, participando de compromissos políticos e eventos internacionais. Embora tenha autorização para visitar o pai, a rotina de viagens pode limitar sua presença física, fazendo com que sua atuação ocorra principalmente à distância.
O novo cenário reforça um momento de reorganização política e pessoal para o ex-presidente, que passa a cumprir medidas restritivas enquanto se recupera de problemas de saúde, em meio a um contexto de decisões judiciais e rearranjos no seu grupo político mais próximo.
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

