Um estudo em andamento no Brasil busca mapear o potencial de reaproveitamento de resíduos sólidos urbanos, identificando materiais que hoje são descartados, mas que podem retornar à cadeia produtiva como matéria-prima. A iniciativa é considerada uma das mais completas já realizadas no país sobre o tema e foi contratada por uma empresa privada interessada na valorização desses recursos.

De acordo com o diretor-presidente da Marquise Ambiental, Hugo Nery, o Brasil produz diariamente cerca de 215 mil toneladas de resíduos domiciliares. No entanto, apenas uma pequena parcela desse volume é reaproveitada. “Hoje, algo em torno de 5% é efetivamente reciclado ou reinserido na economia. Isso mostra um enorme potencial ainda inexplorado”, afirmou.

A primeira etapa do estudo consistiu na coleta de amostras em diferentes cidades brasileiras para análise da composição dos resíduos. Esse processo, conhecido como gravimetria, revelou que mais da metade do material descartado é composto por resíduos orgânicos, principalmente alimentos. Outros materiais também aparecem em proporções relevantes, como plástico, papel, vidro e outros itens recicláveis.

Segundo Nery, compreender a composição dos resíduos é apenas parte do desafio. O estudo também pretende identificar quais materiais já possuem mercado consolidado e quais ainda carecem de estrutura para reaproveitamento. “É fundamental entender onde está a demanda, quem são os agentes envolvidos e como ampliar a inserção desses materiais na economia”, explicou.

A pesquisa recebeu apoio financeiro por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, operado pela Financiadora de Estudos e Projetos. Ao todo, foram destinados R$ 84 milhões para dois projetos relacionados ao estudo, incluindo a construção de um Centro de Tratamento e Transformação de Resíduos na cidade de Aquiraz, a cerca de 30 quilômetros de Fortaleza.

De acordo com Paulo José Resende, gerente de Transição Energética da Finep, o financiamento permite que empresas desenvolvam soluções tecnológicas capazes de aumentar a eficiência na gestão de resíduos. Ele destaca que iniciativas desse tipo contribuem não apenas para ganhos econômicos, mas também para benefícios ambientais e sociais.

Assim, essas empresas podem ganhar competitividade e eficiência, não só nas próprias atividades, mas também em benefícios para a sociedade”, afirmou o gestor.

“É uma dotação que, este ano, está estimada em R$ 30 bilhões, exclusivamente para projetos de ciência, tecnologia e inovação, para empresas que pretendem dar um passo tecnológico adiante, trazer a tecnologia para o coração da sua atividade empresarial, industrial, e assim poder colher frutos”, reforça.

A estrutura do centro em Aquiraz deverá integrar diferentes etapas do processamento de resíduos, incluindo compostagem, triagem, separação de materiais e tratamento de chorume, com potencial para produção de água destilada. A proposta é ampliar significativamente a capacidade de reaproveitamento de resíduos urbanos.

Além desse financiamento, a Finep também disponibiliza recursos por meio do programa Mais Inovação Brasil, voltado ao desenvolvimento tecnológico em áreas estratégicas como inovação, economia circular e descarbonização. Parte desses recursos é oferecida na forma de subvenção econômica, ou seja, não precisa ser devolvida pelas empresas.

Segundo Resende, essa modalidade permite o desenvolvimento de tecnologias mais avançadas e com maior grau de incerteza, ampliando o potencial de inovação no setor produtivo.

A Finep está com nova rodada de seleção aberta até 31 de agosto, com oferta de R$ 150 milhões. De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o programa Mais Inovação Brasil prevê um total de R$ 108 bilhões em investimentos.

A expectativa é que o estudo contribua para orientar políticas públicas e investimentos privados, fortalecendo a economia circular e reduzindo o desperdício de recursos no país.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil


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