O avanço da epidemia de chikungunya levou a prefeitura de Dourados, em Mato Grosso do Sul, a decretar situação de calamidade em saúde pública, ampliando o nível de resposta institucional diante do crescimento dos casos e da pressão sobre a rede de atendimento. A medida tem validade de 90 dias e reforça ações emergenciais para conter a disseminação da doença, que deixou de se concentrar apenas na Reserva Indígena de Dourados e passou a atingir bairros do perímetro urbano.
Antes da decretação de calamidade, o município já havia adotado medidas escalonadas. Em 20 de março, foi declarada situação de emergência em saúde pública. Dias depois, novo decreto reconheceu situação de emergência em defesa civil nas áreas mais afetadas. Segundo a prefeitura, o novo ato segue orientações do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública, responsável por coordenar o enfrentamento à epidemia.
O cenário considerado crítico inclui mais de 6 mil casos prováveis, taxa de positividade de 64,9% e ocupação hospitalar em torno de 110%, o que evidencia saturação da estrutura assistencial. Dados do complexo regulador do município apontam dificuldades para resposta adequada inclusive em situações graves, o que motivou a adoção do instrumento mais amplo previsto para emergências sanitárias.
Dentro da estratégia de enfrentamento, a prefeitura confirmou o início da campanha de vacinação contra chikungunya para a próxima segunda-feira, com distribuição das doses em unidades urbanas e também em áreas indígenas. A expectativa é que a imunização avance gradualmente, já que os integrantes do público-alvo precisarão passar por avaliação prévia de profissionais de saúde antes da aplicação.
Nos dias que antecedem a campanha, o município promove capacitação das equipes de enfermagem para orientar a população sobre restrições e critérios clínicos definidos para a vacina. A meta é alcançar ao menos 27% da população-alvo, estimada em cerca de 43 mil pessoas. Segundo regras do Ministério da Saúde, apenas pessoas maiores de 18 anos e menores de 60 anos podem receber a dose.
Há ainda restrições específicas para grupos com maior vulnerabilidade clínica. A vacina não poderá ser aplicada em gestantes, lactantes, imunossuprimidos, transplantados, pessoas em tratamento oncológico, pacientes com doenças autoimunes e indivíduos com múltiplas comorbidades crônicas, entre outros casos definidos em protocolo. Também há impedimentos temporários para quem teve chikungunya nos últimos 30 dias, está com febre intensa ou recebeu recentemente outras vacinas.
A prefeitura avalia que o processo de triagem pode tornar o ritmo da vacinação mais lento, mas considera a cautela necessária para garantir segurança. Também está prevista uma ação em formato drive-thru no feriado de 1º de maio, em estrutura montada no pátio da prefeitura, para ampliar o acesso da população à imunização.
A vacina começou a ser incorporada de forma estratégica após aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em abril do ano passado. A previsão é contemplar cerca de 20 municípios em 6 estados com risco potencial de transmissão. Segundo autoridades sanitárias, a seleção levou em conta critérios epidemiológicos, porte populacional e capacidade operacional dos sistemas locais para implementação rápida da nova vacina;
Além da vacinação, o município recebeu aporte emergencial de R$ 900 mil do Ministério da Saúde para ações de vigilância, assistência e controle do mosquito transmissor. Os recursos poderão ser utilizados para reforço de equipes, qualificação do atendimento e intensificação das medidas de combate ao Aedes aegypti.
Até os levantamentos mais recentes, Dourados registrava milhares de casos prováveis, centenas ainda em investigação e 8 mortes confirmadas por complicações da doença, a maioria entre moradores da reserva indígena. O dado reforça a preocupação com grupos mais vulneráveis e a necessidade de resposta articulada entre município, estado e União.
A chikungunya é uma arbovirose transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti e provoca, entre os principais sintomas, febre, edema e dores articulares intensas, que podem persistir por longos períodos. Em quadros graves, pode haver necessidade de internação e risco de morte. Embora o vírus tenha apresentado maior incidência no Nordeste em anos anteriores, o Ministério da Saúde vem apontando ampliação territorial da transmissão, com avanço em diferentes regiões do país.
Especialistas avaliam que a combinação entre vacinação, reforço assistencial e controle vetorial será decisiva para conter o surto em Dourados. A decretação de calamidade, nesse contexto, busca acelerar medidas administrativas e ampliar capacidade de resposta diante de uma epidemia que deixou de ser localizada e passou a representar desafio para todo o município.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

