O Banco Central tornou públicos documentos do processo que autorizou Daniel Vorcaro a assumir o então Banco Máxima, posteriormente transformado em Banco Master, em uma mudança de posição que reacendeu questionamentos sobre os critérios adotados pelo órgão regulador. Os votos divulgados revelam que, em fevereiro de 2019, a transferência de controle para Vorcaro havia sido negada, mas oito meses depois foi aprovada pela diretoria da autarquia.

A divulgação dos documentos ocorreu após pedidos feitos com base na Lei de Acesso à Informação. Inicialmente, o Banco Central havia fornecido apenas extratos sintéticos dos votos. Depois, encaminhou os documentos completos, com trechos sigilosos tarjados, alegando revisão técnica sobre a possibilidade de ampliar a transparência e garantir simetria de informações aos solicitantes.

O material expôs o voto do então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, Sidnei Corrêa Marques, que indeferiu o pedido de Vorcaro sob o argumento de insuficiência de comprovação sobre a origem dos recursos empregados para aquisição do controle acionário do banco. Segundo o voto, a fiscalização do Banco Central identificou que parte relevante dos recursos teria origem em operações envolvendo o próprio Banco Máxima, empresas ligadas ao interessado e fundos de investimento.

O diretor afirmou ainda que Vorcaro não apresentou elementos suficientes para esclarecer a procedência dos recursos de forma inequívoca. O documento apontou também dúvidas sobre a capacidade econômico-financeira do pretendente para sustentar o banco em cenários de necessidade de capitalização futura.

Outro ponto destacado no voto contrário envolveu ativos apresentados para comprovação patrimonial. Segundo Marques, alguns bens tinham origem em fundos lastreados em imóveis com indícios de superfaturamento. O documento apontou inconsistências em laudos imobiliários baseados em método comparativo sem referência clara a ativos equivalentes em porte ou potencial construtivo.

A negativa ocorreu ainda durante a gestão de Ilan Goldfajn. Pouco depois, com a chegada de Roberto Campos Neto ao comando do Banco Central, o processo foi revisto.

Em outubro de 2019, o então diretor João Manoel Pinho de Mello apresentou voto favorável à operação. O documento que autorizou a transferência de controle não detalhou a origem dos recursos nem explicou de forma aprofundada como as dúvidas anteriores teriam sido superadas. O voto se concentrou em novas avaliações sobre projeções de fluxo de caixa das empresas ligadas a Vorcaro e laudos relativos ao valor de mercado dos investimentos.

Segundo esse entendimento, os resultados das empresas em 2018 seriam compatíveis com as projeções apresentadas e indicariam capacidade econômico-financeira para sustentar a operação. A nova análise foi considerada suficiente para liberar o negócio.

A mudança de posição da autarquia, em intervalo inferior a um ano, tornou-se alvo de questionamentos políticos e técnicos, sobretudo porque os documentos divulgados não esclarecem de maneira completa a origem dos recursos considerados centrais na primeira negativa.

A divulgação dos votos também recolocou em debate o papel do Banco Central na supervisão do caso e as decisões tomadas durante a gestão Campos Neto. O episódio ganhou dimensão política após a liquidação do Banco Master e a prisão de Vorcaro, ampliando pressões por explicações institucionais.

O caso passou a ser explorado por aliados do presidente Lula e por parlamentares que cobram esclarecimentos sobre possíveis favorecimentos regulatórios. Em reunião no Palácio do Planalto, Lula chegou a pedir ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, um documento sobre decisões tomadas pela gestão anterior em relação ao banco.

Galípolo, porém, rejeitou a existência de evidências de responsabilidade do ex-presidente do Banco Central. Em depoimento à CPI do Crime Organizado, afirmou não haver auditoria ou sindicância que apontasse culpa de Roberto Campos Neto. Também negou atuação para impedir eventual intervenção ou liquidação do banco em 2024.

As declarações geraram desconforto entre integrantes do governo e parlamentares aliados. Campos Neto, por sua vez, não compareceu à CPI, apesar de convocações. A comissão encerrou seus trabalhos em meio a controvérsias e sem consenso sobre responsabilidades envolvendo o caso.

Além do debate político, especialistas observam que a divulgação dos votos expõe questões sensíveis sobre critérios de supervisão bancária, transparência regulatória e segurança institucional. A diferença entre os dois entendimentos do Banco Central, separados por oito meses, tornou-se o principal foco das discussões.

Embora os documentos tragam novos elementos sobre o processo decisório, permanecem lacunas sobre aspectos centrais da análise patrimonial e financeira que embasaram a aprovação. Sem esclarecimento completo sobre a origem dos recursos, o caso continua cercado por dúvidas.

A liberação dos arquivos, por outro lado, representa avanço em transparência ao tornar acessível parte dos fundamentos usados em decisões regulatórias de grande impacto. O episódio reforça pressões para ampliar publicidade em processos semelhantes envolvendo controle de instituições financeiras.

No Congresso, o caso segue sendo acompanhado por parlamentares e pode alimentar novos pedidos de informação. No governo, aliados defendem aprofundamento das apurações. No mercado, o episódio reacendeu debates sobre governança regulatória.

Com a divulgação dos documentos, o foco passa agora para o conteúdo ainda não revelado e para eventuais desdobramentos políticos, administrativos ou legislativos que possam surgir a partir das inconsistências apontadas entre a negativa de fevereiro e o aval concedido em outubro de 2019.

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil


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