Um estudo de longo prazo conduzido na região de Querência, no Mato Grosso, trouxe novos elementos ao debate científico sobre o futuro da floresta amazônica. Após mais de duas décadas de monitoramento, pesquisadores concluíram que a hipótese de savanização da Amazônia não se confirmou nas áreas analisadas, mesmo sob forte pressão de desmatamento, queimadas e secas.
A pesquisa, iniciada em 2004, acompanhou uma área de 150 hectares dividida em três partes iguais. Duas delas foram submetidas a regimes de queimadas controladas, uma com incêndios anuais até 2010 e outra com intervalos de três anos, enquanto a terceira permaneceu intacta como referência. O objetivo era observar como a floresta responderia a diferentes níveis de perturbação.
Os primeiros resultados indicaram uma queda significativa na biodiversidade. Nas áreas queimadas anualmente, houve redução de 20,3% na riqueza de espécies, enquanto nas áreas queimadas a cada três anos a perda chegou a 46,2%. Além disso, eventos climáticos extremos, como uma tempestade de vento em 2012, agravaram o impacto ao provocar a morte de cerca de 5% das árvores.
Apesar desse cenário inicial, os pesquisadores observaram que, ao longo do tempo, a floresta demonstrou elevada capacidade de regeneração. Segundo Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale, a vegetação nativa voltou a ocupar os espaços degradados, reduzindo a presença de gramíneas e recuperando características típicas de ambientes florestais.
A recomposição ocorreu principalmente após o fechamento do dossel, que limita a entrada de luz e dificulta o crescimento de vegetação típica de savanas. Atualmente, a presença de gramíneas nas áreas estudadas caiu para cerca de 10%, indicando a retomada da estrutura florestal.
Mesmo assim, os cientistas alertam que a recuperação não significa um retorno completo às condições originais. A diversidade de espécies ainda permanece reduzida, com perdas que variam entre 31,3% e 50,8%, dependendo da intensidade das perturbações sofridas. Além disso, as novas formações florestais são consideradas mais vulneráveis.
Segundo o estudo, as espécies que predominam na regeneração apresentam características como madeira menos densa e casca mais fina, o que as torna mais suscetíveis a novos eventos extremos, como incêndios e secas prolongadas. Esse fator reforça a necessidade de reduzir a frequência de distúrbios causados pela ação humana.
Outro ponto essencial para a recuperação é a presença de áreas preservadas próximas, que funcionam como fonte de sementes e garantem a dispersão por meio de animais e do vento. Sem essa conexão, o processo de regeneração tende a ser mais lento e limitado.
Os pesquisadores também destacam que as mudanças climáticas representam um desafio adicional. Secas mais intensas e frequentes podem comprometer a capacidade de recuperação da floresta, mesmo em áreas que demonstram resiliência.
Apesar das limitações, o estudo aponta um cenário mais otimista do que o previsto por teorias formuladas desde a década de 1990, que indicavam uma possível substituição da floresta por vegetação típica de savana.
Com base nos resultados, especialistas defendem a ampliação de políticas de restauração ambiental. A região antes conhecida como Arco do Desmatamento passa a ser vista como uma área com potencial para recuperação, sendo chamada por alguns pesquisadores de Arco da Restauração, destacando a capacidade da floresta amazônica de se regenerar quando há condições adequadas de conservação.
Foto: Amanda Perobelli

