A Polícia Federal aprofundou nesta quinta-feira as investigações sobre os grupos clandestinos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro e concluiu que Henrique Moura Vorcaro, pai do antigo controlador do Banco Master, exercia posição central na coordenação da organização denominada A Turma. Segundo a corporação, o grupo atuava como uma estrutura paralela voltada para monitoramento, intimidação e obtenção ilegal de informações sigilosas sobre pessoas consideradas adversárias da família Vorcaro.
Henrique Vorcaro foi preso durante a sexta fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes financeiras bilionárias, corrupção e associação criminosa envolvendo operadores financeiros, policiais e integrantes de um esquema de inteligência clandestina criado em torno do Banco Master. A nova etapa da operação teve como foco principal os grupos chamados A Turma e Os Meninos, apontados pela Polícia Federal como organizações utilizadas para proteger interesses pessoais e empresariais de Daniel Vorcaro.
De acordo com relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, Henrique Vorcaro não apenas utilizava os serviços prestados pelos integrantes da organização, mas também financiava e mantinha contato frequente com os operadores responsáveis pelas ações ilegais. A decisão judicial que autorizou as prisões foi assinada pelo ministro André Mendonça.
Na decisão, o magistrado afirmou que as provas reunidas indicam vínculo funcional intenso entre Henrique Vorcaro e os integrantes do grupo investigado. A Polícia Federal sustenta que a atuação da organização continuou mesmo após o avanço ostensivo das investigações e das primeiras fases da Compliance Zero.
As descobertas surgiram inicialmente a partir da análise de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro. Posteriormente, novas evidências foram encontradas no aparelho do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado pelos investigadores como responsável operacional pelas ações de intimidação e monitoramento executadas pela organização criminosa.
Segundo a PF, Marilson articulava ameaças, acompanhamentos clandestinos e levantamentos sigilosos sobre pessoas consideradas desafetas da família Vorcaro. As investigações também identificaram pagamentos direcionados a integrantes da própria Polícia Federal para obtenção de informações protegidas sobre procedimentos em andamento.
Entre os investigados aparece o policial federal Anderson da Silva Lima, lotado na superintendência da PF no Rio de Janeiro. Conforme os investigadores, Anderson realizava consultas internas e buscava dados relacionados a investigações sigilosas de interesse do núcleo ligado a Daniel Vorcaro. A PF afirma ainda que ele utilizava contatos dentro da corporação para ampliar o acesso às informações reservadas.
Anderson foi preso preventivamente nesta quinta-feira. Já Marilson Roseno da Silva teve a transferência para o Sistema Penitenciário Federal autorizada pelo ministro André Mendonça. A justificativa apresentada pela Polícia Federal é de que ele exercia posição de liderança dentro da estrutura criminosa e poderia continuar interferindo nas investigações caso permanecesse em unidade prisional comum.
Outro nome citado como peça importante do esquema é Felipe Mourão, conhecido pelo apelido de Sicário. Ele havia sido preso em uma fase anterior da Operação Compliance Zero, mas morreu após cometer suicídio na cela onde estava detido na superintendência da Polícia Federal em Belo Horizonte.
As investigações também levaram à prisão de Manoel Mendes Rodrigues, apontado como líder de uma ramificação da organização criminosa no Rio de Janeiro. Conforme os relatos colhidos pela PF, Manoel participou diretamente de ameaças de morte contra o comandante de um iate e um chefe de cozinha em Angra dos Reis. As vítimas afirmaram que ele se apresentava como amigo de Daniel Vorcaro e dizia possuir ligação com o jogo do bicho.
Outro investigado considerado estratégico pela Polícia Federal é David Henrique Alves, suspeito de coordenar a contratação de hackers para ataques cibernéticos, invasões digitais, derrubada de perfis em redes sociais e monitoramentos clandestinos. Ele já havia sido preso anteriormente durante a operação ao ser encontrado em aparente tentativa de fuga utilizando um carro pertencente a Felipe Mourão.
Dentro do veículo, os investigadores localizaram computadores e objetos pessoais que, segundo a PF, poderiam ser destruídos para eliminar provas relacionadas aos crimes investigados. Também foram presos Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos, Victor Lima Sedlmaier e Sebastião Monteiro Júnior.
A defesa de Henrique Vorcaro classificou a prisão como grave e desnecessária. Os advogados Eugênio Pacelli e Frederico Horta afirmaram que a decisão judicial foi tomada antes mesmo de o investigado prestar depoimento formal e sustentaram que ainda não houve oportunidade adequada para apresentação de documentos e esclarecimentos sobre os fatos apurados pela Polícia Federal.
Segundo investigadores envolvidos na operação, novas diligências devem ocorrer nas próximas semanas para aprofundar a identificação de conexões políticas, empresariais e financeiras da organização. A Polícia Federal também apura se integrantes do grupo utilizaram empresas de fachada, contratos fictícios e recursos clandestinos para ampliar o esquema de monitoramento ilegal em estados.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

