O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira que a relação entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro deve ser tratada como um caso de polícia. A declaração ocorreu durante visita do presidente à fábrica de fertilizantes nitrogenados Fafen, em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, na Bahia. Lula foi questionado por jornalistas sobre as revelações envolvendo o parlamentar e o empresário investigado por fraudes financeiras ligadas ao antigo Banco Master.

Ao responder à pergunta, o presidente evitou aprofundar comentários políticos sobre o episódio e afirmou que a apuração cabe aos órgãos responsáveis pela investigação criminal. “Eu não vou comentar, é um caso de polícia, não meu. Eu não sou policial, não sou procurador-geral. O caso dele é de polícia”, declarou Lula durante a entrevista concedida após a cerimônia oficial na unidade industrial.

As declarações ocorreram após a divulgação de reportagem do portal Intercept Brasil apontando que Flávio Bolsonaro teria articulado repasses milionários de Daniel Vorcaro destinados à produção de um filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a publicação, o valor negociado chegaria a R$ 134 milhões e seria utilizado para financiar uma produção internacional baseada na carreira política do ex-chefe do Executivo federal.

Daniel Vorcaro está preso preventivamente em Brasília sob suspeita de liderar um esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. A instituição teve liquidação decretada pelo Banco Central no fim do ano passado depois que auditorias identificaram incapacidade da empresa para honrar aplicações e depósitos de clientes. A Polícia Federal investiga possíveis crimes financeiros, lavagem de dinheiro e atuação de organização criminosa ligada às operações do banco.

A reportagem divulgou áudios atribuídos ao senador nos quais ele menciona a necessidade de recursos para quitar parcelas atrasadas relacionadas à produção cinematográfica. Além disso, mensagens de WhatsApp, comprovantes bancários e outros documentos indicariam que parte dos pagamentos teria ocorrido entre fevereiro e maio de 2025, período em que o Banco Master já enfrentava dificuldades financeiras e intensa pressão das autoridades reguladoras.

Segundo o material divulgado, as últimas conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro aconteceram no início de novembro do ano passado. Poucos dias depois, o Banco Central decretou a liquidação da instituição financeira e a Polícia Federal realizou a prisão do banqueiro em desdobramentos da operação sobre fraudes financeiras. Vorcaro permanece detido na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, enquanto negocia um possível acordo de delação premiada com investigadores.

A matéria também afirma que os recursos teriam sido enviados ao exterior por meio de empresa ligada ao banqueiro. O destino seria um fundo sediado nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, que atua na defesa do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. Parlamentares da base governista protocolaram pedidos para que Polícia Federal e Receita Federal investiguem eventuais ilegalidades nas transferências internacionais relacionadas ao financiamento do filme.

Após a repercussão da reportagem, Flávio Bolsonaro divulgou nota admitindo que solicitou apoio financeiro para o projeto cinematográfico e confirmou que manteve contato com Daniel Vorcaro. Entretanto, afirmou que a relação era privada e negou qualquer irregularidade. O senador declarou que não ofereceu vantagens indevidas, não participou de negociações com o governo e não recebeu dinheiro pessoalmente. Flávio também voltou a defender a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master e acusou integrantes do governo Lula de manter relações próximas com o banqueiro investigado.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, o senador repetiu os argumentos apresentados na nota oficial e afirmou que existia contrato formal prevendo os repasses destinados à conclusão do longa-metragem. Segundo Flávio Bolsonaro, o projeto teria caráter exclusivamente privado, sem utilização de recursos públicos ou incentivos culturais federais. O parlamentar também declarou que conheceu Daniel Vorcaro apenas após o término do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e alegou que, naquele momento, ainda não havia acusações públicas envolvendo o empresário. Integrantes da oposição reagiram cobrando esclarecimentos adicionais sobre a origem dos recursos prometidos para a produção cinematográfica e sobre a legalidade das transferências internacionais mencionadas na reportagem. Até o momento, os órgãos responsáveis pelas investigações não divulgaram detalhes oficiais sobre possíveis medidas relacionadas ao senador ou ao financiamento do filme citado nas denúncias.

O caso ampliou a pressão política em Brasília e intensificou debates sobre fiscalização financeira, transparência eleitoral e relações entre empresários investigados e parlamentares federais.

Foto: Ricardo Stuckert / PR


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