O Acre segue enfrentando um dos maiores desafios do país na vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), apesar dos avanços registrados nos últimos anos. O estado apresenta as menores coberturas vacinais do Brasil para esse imunizante, resultado de um processo marcado pela disseminação de informações falsas e pelo impacto de um episódio ocorrido em 2017 que abalou a confiança da população.
Enquanto a cobertura vacinal nacional alcançou, em 2024, 86% entre as meninas e 74,5% entre os meninos, os índices acreanos ficaram em 59% e 50%, respectivamente. A diferença revela a dificuldade enfrentada pelas autoridades de saúde para recuperar a adesão à vacina após um episódio que ganhou repercussão nacional.
Naquele ano, 74 adolescentes apresentaram sintomas diversos após receberem a vacina contra o HPV. Entre as manifestações relatadas estavam dores de cabeça, desmaios e convulsões. O caso gerou preocupação entre familiares e rapidamente se espalhou pelas redes sociais e veículos de comunicação.
A coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações do Acre, Renata Quiles, acompanhou toda a investigação e lembra que, antes do episódio, o estado registrava apenas notificações isoladas de possíveis eventos adversos relacionados à vacinação.
Segundo ela, em poucos meses o número de notificações saltou de 14 para 127 casos, impulsionado pelo medo coletivo e pela ampla repercussão do assunto. Diante da situação, autoridades de saúde iniciaram uma extensa investigação para identificar as causas dos sintomas apresentados pelos adolescentes.
Além da análise dos lotes utilizados na campanha, jovens com quadros considerados mais graves foram encaminhados para avaliação especializada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Eles passaram por diversos exames clínicos e neurológicos durante semanas.
Os resultados mostraram que dois irmãos avaliados possuíam epilepsia genética, sem qualquer relação com a vacinação. Os demais adolescentes receberam diagnóstico de crise psicogênica não epilética, condição caracterizada por manifestações físicas involuntárias provocadas por estresse emocional intenso.
Especialistas explicam que esse tipo de reação já foi observado em diferentes países e associado a diversos programas de imunização. Trata-se de uma resposta psicológica real, mas sem ligação biológica com os componentes presentes nas vacinas.
Mesmo com a conclusão da investigação descartando qualquer problema relacionado ao imunizante, a desinformação ganhou força. Movimentos antivacina passaram a utilizar o episódio para questionar a segurança da vacina contra o HPV, alimentando receios entre pais e responsáveis.
A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Mayra Moura, destaca que o episódio ocorreu justamente quando a vacinação apresentava resultados positivos em todo o país. Segundo ela, a combinação entre notícias falsas e receios relacionados à sexualidade dos adolescentes prejudicou significativamente a adesão à campanha.
Como consequência, a vacinação nas escolas perdeu força em diversas regiões. Para os especialistas, essa estratégia é considerada essencial para alcançar adolescentes, que normalmente frequentam menos os serviços de saúde do que crianças menores.
No Acre, o impacto foi particularmente severo. Em 2018 e 2019, menos de 10% dos adolescentes procuraram os postos de vacinação para receber o imunizante. A recuperação das coberturas exigiu anos de trabalho contínuo das equipes de saúde.
Apesar das dificuldades, os profissionais envolvidos na imunização afirmam que o episódio também reforçou a confiança na segurança da vacina, justamente porque ela foi submetida a uma investigação rigorosa e detalhada.
A vacina contra o HPV oferecida pelo Sistema Único de Saúde é produzida pela farmacêutica MSD em parceria com o Instituto Butantan. Estudos internacionais demonstram que sua eficácia ultrapassa 90% na prevenção de infecções pelos tipos mais perigosos do vírus.
Pesquisas realizadas em diversos países também apontam redução significativa na incidência de cânceres associados ao HPV após a introdução da vacinação em larga escala. O principal deles é o câncer do colo do útero, responsável por milhares de mortes todos os anos.
Atualmente, o Brasil conta com um sistema de farmacovigilância que monitora todos os eventos supostamente relacionados à vacinação. Casos graves são investigados por equipes municipais, estaduais e federais para determinar se existe ou não relação causal com os imunizantes.
Na maioria das situações analisadas, conclui-se que os sintomas possuem apenas relação temporal com a vacinação, sem comprovação de que tenham sido causados pela vacina. Ainda assim, todos os registros são acompanhados de forma criteriosa pelas autoridades sanitárias.
Uma das principais estratégias adotadas no Acre para recuperar a confiança da população tem sido a capacitação dos profissionais de saúde. Muitos trabalhadores também foram impactados pela desinformação e precisaram receber treinamento específico para orientar corretamente as famílias.
A enfermeira Evelin Plácido, especialista em imunização, destaca que a comunicação é um dos principais instrumentos para enfrentar notícias falsas. Segundo ela, não basta dominar aspectos técnicos da vacinação; é fundamental saber dialogar com a população de forma clara e acessível.
Experiências inovadoras também têm contribuído para melhorar os resultados. No município de Porto Walter, localizado na fronteira com o Peru, uma iniciativa chamada Cinema da Imunização ajudou a aumentar a adesão dos adolescentes.
Os jovens vacinados recebiam ingressos para sessões de cinema com direito a pipoca e refrigerante. Equipes de vacinação também ficaram posicionadas na entrada do local para atender aqueles que ainda não haviam recebido a dose.
A estratégia resultou na imunização de mais de 200 adolescentes e ajudou o município a alcançar coberturas superiores à média estadual. A experiência passou a ser vista como exemplo de criatividade no enfrentamento da hesitação vacinal.
Especialistas alertam que combater a desinformação exige ações permanentes e combinadas. Redes sociais continuam sendo um dos principais canais de circulação de conteúdos falsos sobre vacinas, dificultando o trabalho das equipes de saúde.
A urgência da vacinação é reforçada pelos números relacionados ao HPV. Estimativas indicam que os cânceres associados ao vírus provocam cerca de 7,5 mil mortes por ano no Brasil. Apenas o câncer do colo do útero deverá registrar aproximadamente 19 mil novos casos anuais entre 2026 e 2028.
Disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos especiais, a vacina protege contra quatro tipos do HPV, incluindo os subtipos 16 e 18, responsáveis pela maioria dos casos de câncer relacionados ao vírus.
O Ministério da Saúde também ampliou as ações de resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que perderam a oportunidade de se imunizar na idade recomendada. Mais de 217 mil jovens já receberam a vacina por meio dessa estratégia.
Embora o Acre ainda enfrente desafios significativos, o crescimento gradual das coberturas vacinais mostra que a confiança pode ser reconstruída. Para os profissionais de saúde, a combinação entre informação de qualidade, capacitação e ações inovadoras representa o caminho para proteger uma nova geração contra doenças que podem ser evitadas pela vacinação.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

