Quem visita o Rio de Janeiro geralmente inclui no roteiro pontos turísticos consagrados como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e as praias da zona sul. No entanto, um território marcado pela memória, pela resistência e pela cultura afro-brasileira vem ganhando cada vez mais espaço entre os visitantes: a Pequena África, localizada na região portuária da capital fluminense.

Às margens da Baía de Guanabara, a área abriga o Cais do Valongo, considerado o maior porto de desembarque de africanos escravizados das Américas. O local recebeu reconhecimento internacional em 2017, quando foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Apesar da relevância histórica e cultural, especialistas defendem que a Pequena África ainda não ocupa a posição que deveria no cenário turístico nacional e internacional. O tema foi debatido durante a Feira Preta Festival, realizada na região do Píer Mauá e encerrada no último domingo, reunindo empreendedores, artistas, pesquisadores e representantes do setor turístico.

Para estudiosos e profissionais ligados ao afroturismo, o território reúne características únicas capazes de atrair visitantes interessados em experiências culturais profundas, conectadas à história da diáspora africana e à formação da identidade brasileira.

Além do Cais do Valongo, a região abriga importantes espaços de preservação da memória afro-brasileira. Entre eles estão o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a Pedra do Sal, ponto tradicional ligado ao surgimento do samba e às manifestações culturais negras do Rio de Janeiro.

Outro símbolo importante da região é o Grupo Afoxé Filhos de Gandhi, um dos mais tradicionais blocos afro da cidade. Todos os anos, a entidade promove homenagens a Iemanjá e participa do carnaval carioca, mantendo vivas tradições culturais herdadas da população afrodescendente.

Segundo especialistas, a Pequena África já recebe grande fluxo de visitantes atraídos pela gastronomia, pelos bares, pelas rodas de samba e pelos museus instalados na região portuária. No entanto, muitos turistas ainda deixam de conhecer locais fundamentais para compreender a história do território.

A avaliação é que existe uma desconexão entre os atrativos culturais mais conhecidos e os espaços de memória histórica. Como resultado, muitos visitantes frequentam a região sem compreender plenamente sua importância para a formação da cidade e para o desenvolvimento de manifestações culturais brasileiras.

A escolha da Pequena África como sede da Feira Preta neste ano foi vista como uma forma de ampliar a visibilidade do território. O evento reuniu aproximadamente 130 empreendedores e atraiu cerca de 10 mil visitantes ao longo de três dias de programação.

Profissionais do setor turístico defendem que a região seja incorporada de maneira mais efetiva aos roteiros das grandes operadoras e agências de viagens. Também são apontadas como necessárias campanhas de divulgação em aeroportos, hotéis e centros de atendimento ao turista.

Outra reivindicação frequente é o fortalecimento da infraestrutura urbana. Moradores e especialistas destacam a necessidade de investimentos em sinalização, limpeza pública, conservação do patrimônio histórico e ampliação da segurança.

A avaliação é que a valorização turística deve caminhar junto com melhorias na qualidade de vida da população local. Para os defensores da iniciativa, um território acolhedor para os moradores também se torna mais atrativo para os visitantes.

Nos últimos anos, o afroturismo ganhou força no Brasil e passou a atrair interesse crescente de turistas nacionais e estrangeiros. O movimento busca valorizar destinos ligados à cultura negra, à ancestralidade africana e às contribuições históricas das populações afrodescendentes.

Nesse contexto, a Pequena África é vista como um dos principais patrimônios culturais do país. Organizações da sociedade civil, empreendedores e instituições ligadas ao setor trabalham para ampliar sua projeção internacional e consolidá-la como um destino de referência.

Entre as iniciativas em andamento está o edital Rede Memória Viva, desenvolvido para apoiar projetos locais, fortalecer experiências turísticas relacionadas à herança africana e identificar novos roteiros afro com potencial de desenvolvimento comunitário em diferentes regiões do Brasil.

Para especialistas, a crescente visibilidade da Pequena África demonstra que existe demanda por experiências turísticas que vão além dos cartões-postais tradicionais. A expectativa é que, com investimentos, divulgação e políticas públicas adequadas, a região alcance o reconhecimento compatível com sua importância histórica, cultural e social para o Brasil e para o mundo.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil


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