A maior parte dos municípios brasileiros ainda não está preparada para enfrentar os impactos do calor extremo. Um estudo divulgado nesta quarta-feira (3) pela presidência brasileira da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta que 66% das cidades do país não possuem planos estruturados para lidar com esse desafio ou estão apenas iniciando a elaboração dessas estratégias.

O levantamento integra a iniciativa Mutirão Contra o Calor Extremo, conhecida internacionalmente como Beat the Heat, vinculada à Coalizão pelo Resfriamento. Atualmente, a plataforma reúne 258 cidades em diferentes países, das quais 105 estão localizadas no Brasil.

A pesquisa foi realizada em 53 municípios brasileiros e revela uma contradição. Embora 93% dos gestores públicos considerem o calor extremo um problema relevante e 68% o apontem entre os três principais desafios locais, esse reconhecimento ainda não resultou em ações efetivas de adaptação. Os pesquisadores identificaram dificuldades relacionadas à produção de dados, à governança e ao financiamento das medidas necessárias.

De acordo com o estudo, 75% das cidades não utilizam informações de forma estruturada para orientar decisões sobre o tema. Além disso, 85% dependem de recursos externos para implementar ações de adaptação climática. Apenas 42% contam com sistemas de informações geográficas capazes de mapear áreas vulneráveis e riscos associados ao calor excessivo.

As iniciativas mais frequentes estão relacionadas às chamadas soluções baseadas na natureza. Aproximadamente 77% dos municípios pesquisados adotam medidas como arborização urbana, ampliação de áreas verdes, criação de espaços sombreados, implantação de parques e recuperação de áreas úmidas. Essas ações ajudam a reduzir a temperatura em ambientes urbanos e contribuem para melhorar a qualidade de vida da população.

Por outro lado, soluções de resfriamento passivo ainda são pouco utilizadas. Estratégias como ventilação cruzada em edificações, uso de materiais refletivos, pavimentos permeáveis e isolamento térmico aparecem em menos de um quarto das cidades analisadas.

Outra fragilidade apontada pelos pesquisadores está nas políticas de compras públicas. Mais de 80% dos municípios ainda não estabeleceram critérios sustentáveis voltados ao resfriamento urbano, demonstrando que o tema permanece distante das decisões estruturais de gestão.

Os especialistas explicam que o calor extremo vai além de um dia com temperaturas elevadas. O fenômeno ocorre quando o calor acumulado durante o dia não consegue ser dissipado à noite por períodos consecutivos, criando um efeito de acúmulo que afeta a saúde, o bem-estar e a infraestrutura urbana.

Segundo o Pnuma, cerca de 500 mil pessoas morrem anualmente no mundo em decorrência dos impactos associados ao calor extremo. No Brasil, entre 2000 e 2020, as ondas de calor estiveram relacionadas a aproximadamente 50 mil mortes em regiões metropolitanas, superando o número de vítimas provocadas por enchentes e deslizamentos no mesmo período.

A CEO da COP30, Ana Toni, destacou que enfrentar esse cenário exige cooperação entre governos, instituições e sociedade. Ela alertou que o calor extremo já representa uma ameaça crescente à saúde pública e ao funcionamento das cidades.

A preocupação aumenta diante das projeções de formação de um Super El Niño na segunda metade de 2026. Segundo especialistas, o fenômeno poderá intensificar secas e incêndios no Norte e Nordeste, ampliar a frequência das ondas de calor no Centro do país e provocar eventos de chuva extrema na Região Sul, reforçando a necessidade de acelerar medidas de adaptação climática.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil


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