Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Ao sair do supermercado, fui abordada por duas pessoas, uma moça e um rapaz. A moça, com um monte de folhetos nas mãos, perguntou se poderia orar por mim. O rapaz, sem nada no bolso, pediu, pelo amor de Deus, que comprasse um quilo de arroz ou uma lata de óleo para ele, desempregado e com dois filhos pequenos passando fome.
Moças e rapazes como esses existem aos milhares hoje no Brasil, nas portas dos supermercados, nos sinais de trânsito, nas vias mais movimentadas das cidades grandes e das pequenas também. Eles não sabem que integram a imensa categoria dos pauperizados, física e intelectualmente, pelo golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2016, que derrubou uma presidenta legitimamente eleita, honesta e competente.
Foi o golpe de 2016 que colocou no poder Michel Temer e abriu espaço para a eleição roubada de Bolsonaro dois anos depois. Roubada, não pelas urnas eletrônicas, que são superseguras, mas roubada pela Justiça ter impedido o candidato que liderava as pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva, de disputar, e pela presença das fake news, que ludibriaram os incautos.
É nesse ponto que as histórias da moça e do rapaz se entrelaçam. Seguramente, ela pertence a alguma igreja neopentecostal e acredita piamente no que o pastor diz. Foram pastores destas igrejas (não todas) que difundiram as retrogradas e mirabolantes ideias como a do Kit Gay que, junto com a facada, garantiram a vitória de Bolsonaro em 2018. Desta vez, dificilmente uma nova facada irá colar, razão pela qual muitas igrejas estão investindo na tentativa de transformar um presidente que agiu como o diabo para a maioria da população, em santo de última hora.
Para a moça, a palavra do pastor pode bastar, mas para o rapaz que vê seus filhos passando fome, não funciona. O rapaz em questão chegou a ter uma vida bastante razoável nos governos Lula e Dilma. Era operador de máquinas pesadas. Trabalhou em grandes obras no interior de Minas Gerais, perdeu o emprego, porque a empresa quebrou e há quatro anos vivia de bicos, até adoecer.
Se o Brasil tivesse seguido o curso normal, era para essa moça ter concluído um curso universitário e estar trabalhando, cuidando de sua vida e não garantindo a boa vida de algum pastor numa cidade onde hoje existem mais igrejas do que escolas.
Se o Brasil tivesse seguido o curso normal, era para esse rapaz estar trabalhando em uma grande construtora como das muitas que existiam em Minas Gerais e no Brasil e não ter que se humilhar (segundo suas palavras) para garantir comida para os filhos.
Quando a mídia corporativa brasileira divulga – e foi ótimo que tivesse divulgado – os atos ocorridos em todo o país na última quinta-feira (11/08), em Defesa da Democracia e das Urnas Eletrônicas, ela apenas “se esquece” de fazer a ligação entre a importância deles, o combate à crise econômica e à falta de perspectivas que se abateu sobre moças, rapazes e a maioria esmagadora da população brasileira, caso Bolsonaro seja reeleito.
Dito de outra forma, a mídia corporativa brasileira continua mostrando o problema, mas sem apontar as causas. É por isso que ainda tem gente acreditando que não haveria como evitar a morte de quase 700 mil pessoas pela pandemia da covid-19 e, menos ainda, evitar a terrível crise econômica em que o país está mergulhado.
Falta a esta mídia honestidade para admitir que apoiou o golpe, que apoiou Bolsonaro e que continua firme com ele. Basta lembrar que a TV Globo, por exemplo, critica Bolsonaro nas pautas de costumes, mas está com ele no que diz respeito às reformas ditas trabalhista e da previdência que, na prática, retiraram direitos dos trabalhadores brasileiros e jogaram metade da população no desemprego e no subemprego.
Quem se lembra que a tal reforma Trabalhista era apresentada pela mídia como a chance de não se ter mais patrão e todos se transformarem em empreendedores? Quem se lembra que a dita reforma da Previdência foi vendida pela mídia como a única solução para a Previdência não quebrar?
Mentira pura. Como mentira pura, também, é que a crise econômica está amainando e que, em breve, a economia voltará a crescer a todo vapor. Com Bolsonaro isso não foi e não será possível, porque o projeto neoliberal que ele defende e coloca em prática, precisa de um enorme exército de reserva de homens e mulheres, para garantir exploração máxima do trabalho e lucro máximo para o capital.
Não há como falar em crescimento e em desenvolvimento, destruindo-se as empresas estatais e reprimarizando a economia como está acontecendo. Não é por acaso que o único setor que está fechado com Bolsonaro é o agronegócio, que ganha rios de dinheiro enquanto metade da população passa fome ou enfrenta insegurança alimentar.
Engana-se, igualmente, quem se alegrou com o recebimento de algum auxílio deste governo. Esses auxílios vão aliviar momentaneamente o sufoco para muitos, mas como duram só até dezembro, servem, na prática, para Bolsonaro tentar se reeleger à custa da desinformação e da memória curta de quem ele tanto desgraçou.
Por tudo isso, as pessoas comprometidas com a democracia e com a efetiva mudança na política e na economia no Brasil não podem se deixar enganar. Assinar manifestos, sair às ruas em defesa das urnas eletrônicas é fundamental. Mas essencial, a partir de agora, é conversar com o maior número possível de pessoas, mostrando o que a mídia não mostra, o que pastores e igrejas escondem e o que muitos se esqueceram.
O Brasil já foi um país feliz e não faz muito tempo. O Brasil precisa voltar a ser feliz. O que a mídia e templos escondem, cada um pode e deve mostrar para o maior número possível de pessoas.
Mãos à obra!
