Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Quando Bolsonaro, no primeiro debate entre os candidatos à presidência da República, afirmou que a economia brasileira está “bombando”, não faltaram caras de espanto. Com razão. Não é preciso ser especialista para saber que isso é impossível, quando 33 milhões de brasileiros passam fome, outro tanto não consegue fazer as três refeições diárias, além de metade da população se encontrar desempregada ou subempregada.

No máximo, o que Bolsonaro poderia ter dito é: os bancos e o sistema financeiro nunca ganharam tanto dinheiro quanto no meu governo. Poderia acrescentar, também, e é verdade, nunca os ricos e os bilionários tiveram tantas vantagens como nesses últimos três anos e oito meses.

Bolsonaro jamais teve e continua não tendo qualquer compromisso com a verdade.

Como o alvo dos candidatos neste debate era o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, todos fingiram que não ouviram o absurdo. E Lula, com razão, preferiu não dar trela ao ocupante do Palácio do Planalto, pois o que ele queria era espaço para falar mais sobre o “sucesso” do seu governo.

Bolsonaro é um mentiroso e divulgador contumaz de fake news. Já o Grupo Globo faz questão de enfatizar o seu compromisso com os fatos, além de integrar o consórcio de veículos de mídia que tem por objetivo checar se é fato ou fake.

No entanto, foi o Jornal Nacional, principal telejornal brasileiro e veículo de maior audiência do grupo, que anunciou na escalada da edição da última quarta-feira (1/9), que a economia brasileira voltava a crescer. Foi anunciado, com pompa e circunstância, que o PIB do segundo semestre de 2022 cresceu 1,2%, comparado ao trimestre anterior.

Esse número foi festejado na longa reportagem que o JN exibiu, dando razão e dando sequência à mentira que Bolsonaro havia dito. É importante destacar este aspecto, porque foi exatamente o JN, através dos âncoras, William Bonner e Renata Vasconcelos, que sempre depreciou o crescimento de 2,4% no governo Dilma, denominando-o de “pibinho”.

Como os números não mentem, Bonner e Renata precisam decidir: 2,4% é “pibinho” e 1,2% é crescimento? Mais ainda: não ocorreu a nenhum dos dois que tal crescimento é artificial e com prazo marcado para terminar? Em dezembro chegam ao fim os diversos auxílios e vouchers que o atual governo está distribuindo.

No setor mentira, vai aí outra do Bolsonaro. Ele tem dito que, se eleito, vai continuar com os atuais valores dos auxílios, mas no orçamento para 2023, não há previsão.

Que o cidadão comum caia nestas mentiras é até compreensível. Que a mídia corporativa brasileira faça coro com elas é inaceitável.

Para quem tem familiaridade com as técnicas jornalísticas e com a história do Grupo Globo, a tal reportagem apresenta todos os indícios de ser “recomendada”. Vale dizer: aquela em que o dono da empresa determina como deve ser, independente dos fatos.

Motivos não faltam para a família Marinho ter “recomendado” esta reportagem. Nos últimos meses, Bolsonaro não só parou de criticar a Globo, como tem despejado muito dinheiro na emissora. Preocupado com a reeleição, cada dia mais difícil, ele não mede esforços para tentar melhorar sua imagem e a de seu governo. Como a Globo foi fundamental para a sua vitória em 2018, é vista, outra vez, como jogando papel preponderante.

A carta na manga de Bolsonaro em relação à família Marinho atende pelo nome de renovação da concessão da TV Globo, que vence em 5 de outubro. O processo compete ao ministério das Comunicações, mas, no caso, está mais do que óbvio que a palavra final caberá ao próprio Bolsonaro. Some-se a isso que o titular das Comunicações, Fábio Faria, genro de Sílvio Santos, não é exatamente um amigo dos Marinho.

Se Lula vencer no primeiro turno, como há chance, Bolsonaro pode revidar e não renovar esta concessão. Pela legislação atual, posição contrária à renovação precisará ser apreciada pelo Congresso Nacional, onde dificilmente seria mantida. Mas já imaginou o pavor dos Marinho diante da possibilidade de a TV Globo ser tirada do ar por alguns dias ou até meses? Como Bolsonaro tem mandato até 2 de janeiro, poderá agir para protelar a decisão.

O grave neste processo é que a família Marinho, para defender seu negócio, pode contribuir para os planos de Bolsonaro ir ao segundo turno. Planos para os quais, por razões não exatamente as mesmas, ele têm contado com o apoio de candidatos como Ciro Gomes e Simone Tebet.

Mesmo aparentemente batendo em Bolsonaro e Lula, Ciro sabe que os votos que terá passarão longe de levá-lo ao segundo turno, mas são indispensáveis para que Bolsonaro tente evitar que Lula vença em 2 de outubro. O mesmo pode ser dito em relação à Simone Tebet, que mesmo se apresentando como candidata “independente”, integra a bancada ruralista e a dos parlamentares que se beneficiaram com o “orçamento secreto”, denominação light inventada pela mídia para o que antes era conhecido como corrupção.

É importante lembrar que em 2004, o PT e sua base de apoio no Parlamento foram criminalizados, através do chamado “mensalão”, sob o argumento que o governo estava comprando apoios. O tal de “orçamento secreto” é o quê?

Que a mídia corporativa brasileira adota dois pesos e duas medidas em se tratando de Bolsonaro e de Lula, não há dúvida. Lula foi criminalizado e condenado, sem provas, por um tríplex que nunca foi seu. Já assuntos como “rachadinhas” (outra denominação light para corrupção), loja de chocolates e agora os 101 imóveis da família Bolsonaro comprados, em sua maioria, com dinheiro vivo, não são sequer notícia no JN e menos ainda em telejornais alinhadíssimos ao governo como os das TVs Record, SBT e Bandeirantes.

Quem esperava uma campanha eleitoral com menos mentiras já deve estar decepcionado e vai se decepcionar ainda mais.

Esses 30 dias que antecedem o 2 de outubro prometem transformar a mídia brasileira, sobretudo os telejornais, em continuação do horário eleitoral de Bolsonaro.

Como faz falta ao Brasil uma mídia democratizada!