Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Amplia-se a possibilidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vencer no primeiro turno.
A tendência, que já vinha sendo captada por alguns institutos, foi confirmada pelo resultado do DataFolha de quinta-feira (22/9).
Nos últimos dias aconteceram também importantes adesões de representantes dos mais diversos setores à candidatura de Lula, inclusive as de brizolistas e pedetistas históricos, correligionários de Ciro Gomes.
Se a candidatura de Ciro Gomes (PDT) pode desidratar, há riscos de Jair Bolsonaro (PL), que disputa a reeleição, também perder apoios nesta reta final.
Entre os coordenadores de sua campanha, praticamente ninguém mais acredita que ele consiga reverter este quadro. As tais “balas de prata” que julgavam infalíveis deram errado.
O eleitoreiro aumento do Auxílio Brasil não funcionou. As pesquisas têm indicado que Bolsonaro perde para Lula entre os segmentos pobres que recebem este auxílio.
As viagens a Londres, para o enterro da rainha Elizabeth II e a Nova York, para o discurso na abertura da sessão anual da assembleia geral da ONU, se transformaram em vexames de proporções planetárias.
A capitalização positiva que Bolsonaro esperava obter se transformou em pesadelo. Ele e seus apoiadores acabaram se convertendo em símbolo do que há de mais rude, mentiroso e grosseiro. Depois disso, até a bíblia econômica conservadora, a revista inglesa The Economist, em editorial, anunciou apoio a Lula.
No momento, o comitê bolsonarista está dividido entre dois grupos: os que aceitam a realidade, diante do “não há mais o quê fazer”, e os que são favoráveis à retomada do ataque às urnas eletrônicas.
O ministro chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, integra o primeiro grupo. Tanto que na última semana, ele que é coordenador geral da campanha, pediu férias até 2 de outubro e foi cuidar da eleição da ex-esposa no Piauí, seu estado natal.
Bolsonaro, que há muito vem alegando a mentirosa falta de confiança nas urnas eletrônicas para tentar repetir aqui o que fez Donald Trump nos Estados Unidos, voltou a criticar estas urnas e o processo de apuração, deixando claro o que tem em mente.
Não por acaso, a coligação de Lula coloca entre as prioridades nesta reta final, intensificar a campanha pelo voto útil e mobilizar o maior número de pessoas para fiscalizar as eleições.
A lógica é simples: quanto maior for a diferença entre a votação de Lula e Bolsonaro, mais difícil ficará alegação de fraude. Quanto mais pessoas acompanharem as eleições, maior será a dificuldade para os bolsonaristas tumultuarem. Daí a importância dos cidadãos-fiscais observarem situações que envolvem desde o adequado horário de funcionamento do transporte coletivo no dia da eleição, até possíveis intimidações de eleitores nas pequenas e médias cidades, na área rural e em territórios conflagrados nas grandes metrópoles.
No que se refere a Ciro Gomes, são consideradas quase nulas as chances de ele atender aos apelos de setores de seu próprio partido. Possivelmente vá para Paris ou faça algo pior: se associar às denuncias bolsonaristas quanto à lisura do pleito.
Ciro se julga alvo de uma grande armação.
Não há dúvida de que ele tem direito de manter sua candidatura até o fim. Mas este direito inclui ter que ouvir, desde agora, que pode levar Bolsonaro para o segundo turno e se tornar responsável pela violência que vier a ocorrer. Ou alguém acredita que, se a disputa for para o segundo turno, os bolsonaristas irão à luta para conquistar votos à base da “paz e do amor”?
Internacionalmente é consenso que Bolsonaro representa um enorme perigo para a humanidade. No Brasil, só agora parte das chamadas instituições e da própria mídia corporativa começa a se dar conta disso.
Como se não bastasse o desrespeito sistemático a decisões do TSE, o filho 01, Flávio Bolsonaro, conseguiu, na Justiça, que reportagens do portal UOL sobre a compra de imóveis com dinheiro vivo por sua família fossem retiradas. Vale dizer: censuradas.
É importante salientar que essa mídia, agora censurada e sistematicamente atacada por Bolsonaro, é a mesma que esteve na linha de frente do golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, é a mesma que foi fundamental para a prisão, sem provas, do ex-presidente Lula, e é responsável direta pela chegada do ex-capitão ao poder.
É importante salientar, igualmente, que até agora essa mídia não fez o que deveria ter feito há muito: autocrítica sobre seu lamentável papel e pedido de desculpas público a Dilma, Lula e, sobretudo, ao povo brasileiro.
Afinal, o inferno em que a maioria da nossa população vive há quase seis anos e contra o qual luta diariamente, não precisaria ter acontecido.
Ao contrário de estarmos nesta contagem regressiva, preocupados com golpes e violência, poderíamos estar nos preparando para reeleger Lula para mais quatro anos de desenvolvimento, inclusão social, soberania e respeito perante o mundo.
