Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Todas as pesquisas de intenção de voto apontam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o vitorioso nas eleições de domingo.

A vitória deve se dar por uma margem entre 3 e 7% dos votos.

Se a campanha de Lula, longe de qualquer salto alto, continua trabalhando nas ruas e nas redes, os apoiadores de Bolsonaro sonham com a possibilidade de questionar o resultado e, a la Trump, tentarem tumultuar.

Alguns indícios nesta direção parecem bem visíveis. O primeiro deles é que Bolsonaro, nesta reta final, evitou eventos populares temendo comparações com as multidões que Lula arrastou e continua arrastando pelo país.

Mesmo com o fim da propaganda eleitoral no rádio e na TV, caminhadas, abraços e panfletagens continuam permitidas. E é exatamente isso o que a campanha de Lula fará em todas as capitais neste sábado. Em São Paulo, a caminhada vai contar com a presença do próprio Lula.

Outro indício é o factoide endossado pelo próprio ministro das Comunicações, Fábio Faria, de que a campanha de Bolsonaro em emissoras de rádio no Norte e no Nordeste teria sido prejudicada pela não exibição de inserções.

Afora o vexame que Faria protagonizou ao deixar claro que desconhecia que a competência para orientar essas emissoras cabe ao seu ministério e não ao TSE, as tais dezenas de rádio acabaram se reduzindo a duas, uma no triângulo mineiro e outra no Nordeste, a primeira propriedade de uma empresária bolsonarista e a outra, de uma igreja neopentecostal.

Devidamente desmontado pelo presidente do TSE, Alexandre de Morais, este factoide pode desempenhar o papel de “apito de cachorro”. Vale dizer: senha para os bolsonaristas questionarem o resultado das eleições, pois o próprio Bolsonaro ensaiou pedir o adiamento delas.

Se nos Estados Unidos, a trágica invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, pegou de surpresa as instituições, o mesmo não acontecerá no Brasil.

O TSE e o próprio STF estão preparados para rebater, de imediato, qualquer tentativa golpista por parte de Bolsonaro e sua turma no que diz respeito às apurações.

Some-se a isso que a maioria dos governos internacionais, conhecendo quem é Bolsonaro, deverá reconhecer imediatamente a vitória de Lula. Na bolsa de apostas, por exemplo, a dúvida é quem reconhecerá mais rápido esse resultado: os Estados Unidos, de Joe Biden, ou a Argentina, de Alberto Fernández. Detalhe: no dia 8 de novembro, os estadunidenses irão às urnas para as eleições de meio de mandato e a última coisa que interessa a Biden é qualquer ação que dê asas ao aliado de Trump nos trópicos.

Bolsonaro sonha contar com parte das Forças Armadas e das Polícias Militares nestes questionamentos. Mesmo tendo lotado seu governo de militares – mais de 7 mil ocupando funções civis -, nada indica que eles estejam dispostos a questionar um resultado para o qual não haverá respaldo minimamente válido. Em especial, sabem que não seria fácil para o Brasil mergulhar num processo que o afaste mais ainda da comunidade internacional.

Lula liderou todas as pesquisas de opinião desde o início da campanha eleitoral. Mais ainda: ele só não se elegeu presidente em 2018, ao invés de Bolsonaro, porque foi retirado criminosamente da disputa pela condenação sem provas do hoje sabidamente juiz parcial, Sérgio Moro.

Já as polícias militares estariam divididas, pois nem todos os governadores apoiam Bolsonaro e mesmo os que o apoiam dificilmente embarcariam numa aventura deste calibre, que pode custar caro a eles próprios.

Restam os empresários que apoiam Bolsonaro. Estes, liderados pelo “Veio” da Havan, estão sempre dispostos a tudo. Tanto que doaram mais de R$ 85 milhões para a campanha do atual presidente, ao passo que as doações para a campanha de Lula não chegaram aos R$ 2 milhões.

Mas também eles enfrentariam problemas, porque a parcela mais expressiva do PIB nacional está com Lula.

Em outras palavras, se há alguns meses soou exagerado Lula buscar um vice de centro, no caso Geraldo Alckmin, e mais recentemente, ter se empenhado para transformar a própria candidatura numa frente democrática, sua ação se mostrou não só necessária, mas quase profética.

Ele intuía que vencer o neofascismo à brasileira não poderia ser tarefa de um só candidato ou de um só partido. Tanto que hoje, junto com o PT, estão outras 15 agremiações, número três vezes maior do que os partidos que apoiam o ex-capitão.

Ao votar no próximo domingo, cada cidadão ou cidadã deveria ter tudo isso em mente, para poder aquilatar o que realmente está em jogo e a importância da sua escolha.

O certo é que o voto da maioria vai derrotar Bolsonaro.

Dificilmente ele não esperneará, mas o esperneio é livre.

Sua derrota, mais do que o retorno da democracia ao Brasil, representará uma espécie de primeiro passo de um processo mais longo: sepultar este neofascismo e a estupidez, em todos os sentidos, que ele desencadeou na vida nacional e na cabeça de muita gente.