O aparelhamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF), instituição que nesse dia de votação se prestou ao papel de tentar atrapalhar a locomoção de eleitores do Nordeste, onde Luiz Inácio Lula da Silva tem mais votos, foi apenas a última jogada suja de Jair Bolsonaro contra o oponente. Há muito tempo, o presidente coleciona golpes baixos para tentar se reeleger.
Para começar, Bolsonaro e seu filho Carlos manipulam uma das mais poderosas máquinas de fake news do planeta. Essa engrenagem marginal o ajudou a chegar ao Planalto em 2018. Também na campanha desse ano fez estragos, apesar das providências tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes.
Outra marca lamentável do esforço bolsonarista para se manter no posto é a mistura de política com religião. Nunca como agora bispos e pastores evangélicos impuseram a seus fiéis temor tão grande a um candidato, como fizeram com Lula. Os coronéis da fé não se vexaram de tentar transformar o petista em Satanás, inventando interpretações distópicas da Bíblia.
Nessa relação de baixarias, um destaque especial deve ser dado ao orçamento secreto, que deu bilhões dos cofres públicos para que políticos do Centrão se transformassem em cabos eleitorais de Bolsonaro, destinando recursos para obras indicadas por eles. Também menção de honra para a PEC inconstitucional que permitiu ao presidente a conceder à população benefícios que sempre foram proibidos em temporada eleitoral.
Com tantos golpes abaixo da cintura, é impressionante que o petista tenha conseguido chegar à vitória.
Por isso, Lula merece comemorar muito e ser comemorado.
A partir de amanhã, no entanto, a ressaca deve ser curada rapidamente.
O presidente eleito terá um Brasil dividido para governar, como mostraram os números que saíram das urnas, com a grande diferença de que não tem o espírito bélico de seu adversário. Construir um clima de diálogo é muito mais difícil que disseminar o ódio, como fez Bolsonaro.
Não são poucas as instituições impregnadas com esse espírito maligno e não vai ser simples fazê-las voltar à normalidade.
Que Lula tenha serenidade e competência para conduzir esse processo e que as forças democráticas o ajudem.
Não pelo bem de um partido ou outro, mas pelo bem do Brasil.

