Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Está previsto para 11 de dezembro, véspera da cerimônia de diplomação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seu vice, Geraldo Alckmin, a divulgação do relatório final elaborado pela Equipe de Transição. O apurado até agora é alarmante. O Brasil que o governo Lula encontrará é uma terra arrasada.

Praticamente nenhuma área escapou da destruição promovida por Bolsonaro e sua turma, com os danos mais graves se localizando nas políticas públicas. Em termos de saúde, o orçamento para 2023 enviado por Bolsonaro ao Congresso Nacional não prevê recursos para a aquisição de qualquer vacina, num momento em que o número de infectados e mortos por covid volta a crescer. Ação deste tipo equivale a um sonoro “não estou nem aí” para a saúde da população.

Outro sonoro “nem aí” foi identificado na educação fundamental. Não há recursos para a compra de material didático em 2023. Ou seja: se dependesse de Bolsonaro, os alunos matriculados em escolas públicas ficariam sem livros, da mesma forma que não há recursos para a merenda escolar, para a farmácia popular e nem para a Polícia Federal bancar o combustível de suas viaturas.

Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo “Posto Ipiranga” Guedes, mentem quando alegam falta de recursos. Os recursos existiam, a questão é como e onde foram aplicados. O Orçamento Secreto para comprar apoio de parlamentares, os super salários pagos a generais-ministros, como Eduardo Pazuello – no auge da pandemia ele chegou a receber perto de R$ 1 milhão por mês -, e os R$ 5 bilhões torrados com a compra de tanques para o Exército estão aí para provar.

Esses casos não estão entre os cobertos pelo sigilo de 100 anos, que Lula prometeu revogar, mas dão ideia dos desmandos e da bandalheira promovida e patrocinada por Bolsonaro nesses quase quatro anos. Razão pela qual se alguém ainda tinha dúvidas das razões por trás do golpismo do capitão reformado e de parcela dos militares, elas não existem mais.

Aquela operação da Polícia Rodoviária Federal no Nordeste, no dia do segundo turno das eleições, foi uma primeira evidência do desespero de Bolsonaro e dos setores que o apoiam diante da derrota. Desespero materializado, em seguida, pelo fechamento de rodovias e manifestações golpistas nas portas dos quartéis, contestando o resultado das urnas e pedindo a intervenção dos militares. Também nesses casos, se alguém tinha dúvidas que tais atos contavam com a anuência de Bolsonaro e dos militares, elas não existem mais.

Se lidar com os militares, que não querem largar o osso, é um dos principais desafios colocados para o futuro governo Lula, ele está longe de ser o único. Constituem-se igualmente desafios a relação com o Congresso Nacional, dominado por forças de direita e de extrema-direita, com o chamado “mercado”, nome de fantasia para os rentistas da Faria Lima, e com os “barões” da mídia corporativa, aquelas seis famílias que controlam a comunicação no país. Não por acaso, esses “barões” estão fazendo de tudo para esconder os desmandos de Bolsonaro e complicarem o futuro do próximo governo.

Vamos aos fatos. Em qualquer país minimamente civilizado, era para a mídia corporativa estar dando destaque ao trabalho da Equipe de Transição. No entanto, há silêncio absoluto sobre o assunto, com a mídia passando pano para o ex-capitão. Mais grave ainda: ao invés de mostrar a destruição promovida por ele, a mídia trabalha descaradamente contra a aprovação da PEC do Bolsa Família, proposta pela equipe de Transição e endossada por Lula, única maneira de enfrentar a fome, a miséria e o apagão social nos próximos anos.

Termos como “gastança”, “fura-teto” e “irresponsabilidade” estão presentes em quase todas as notícias envolvendo esta PEC, deixando claro de que lado a mídia se encontra. Se depender dela, aliás, milhões de brasileiros podem continuar passando fome, da mesma forma que milhões podem continuar desempregados, subempregados, sem teto e morrendo. Inaceitável é mexer no queijo dos milionários e bilionários, turma da qual faz parte.

Você, caro leitor ou leitora, por exemplo, não encontrará uma única notícia ou reportagem mostrando o absurdo de vivermos num país onde apenas os pobres e parte da classe média pagam impostos. Você sabe que jatinhos, iates, jet skis e dividendos não são tributados? Sabe que a frota de jatos particulares no Brasil só perde para a dos Estados Unidos?

Dificilmente você ficará sabendo que o entreguista presidente da Petrobras já anunciou que pretende continuar privatizando ativos da empresa, transformando-os em dividendos para seus oligarcas acionistas nacionais e internacionais, em frontal oposição à proposta vitoriosa nas urnas. O certo seria colocar o cargo à disposição tão logo o novo governo assuma. Mas não. Ele pretende permanecer até abril, quando encerra o seu mandato, afrontando o novo governo. Se esta não é uma prova de que quer ficar para zerar o caixa e inviabilizar a empresa, será o quê?

As quatro longas semanas que faltam para o fim deste desgoverno prometem ser pródigas, com Bolsonaro, ministros, dirigentes de órgãos e empresas estatais, dissipando o que resta da administração pública e à postos para destruir provas do que fizeram. Afinal, o golpe com o qual sonharam para se manter no poder subiu no telhado.

Por tudo isso, não há como perdoar Bolsonaro e sua turma. Eles precisam pagar pelo que fizeram contra o Brasil e o povo brasileiro.

O lugar para pessoas como Bolsonaro e seu ídolo e mentor, Donald Trump, não é na oposição.
É na cadeia.