No momento em que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, começa a apresentar as linhas de sua proposta para o novo arcabouço fiscal a autoridades e lideranças do Congresso, nomes do PT voltaram a pressionar o titular da pasta, publicamente e nos bastidores, cobrando um texto flexível, que preveja até dose de expansionismo fiscal para estimular o crescimento econômico.

Haddad já se reuniu na manhã desta segunda-feira com os líderes do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), e do Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e à tarde se encontrará com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) em busca de apoios políticos ao texto, por recomendação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O ministro trabalha para que Lula aprove uma versão do arcabouço fiscal até o sábado, antes de o chefe de Executivo, Haddad e outros aliados viajarem à China.

Entretanto, mesmo sem o texto sequer ter sido divulgado, Haddad tem sido alvo de fogo amigo dentro do próprio partido, como já aconteceu na questão da reoneração dos combustíveis.

A cobrança, segundo um influente parlamentar petista, é para tentar impedir que Haddad encampe uma proposta muito ortodoxa e que dificulte ainda mais a retomada do crescimento econômico, crucial para o sucesso do terceiro mandato do presidente Lula. Na sexta, o governo reduziu a expectativa oficial de crescimento para 2023 de 2,1% para 1,6%.

Esse parlamentar disse reservadamente que qualquer que seja a configuração do arcabouço pelo governo haverá queixa do mercado por “má vontade” e que uma eventual proposta que contemple zerar o déficit primário no próximo ano poderia inviabilizar a atual gestão e deixá-la, ainda mais, na dependência do chamado centrão, grupo comandado por Arthur Lira na Câmara.

Uma preocupação, segundo essa fonte, é com o relator que o presidente da Câmara vai escolher para conduzir a proposta. Dois nomes vistos com receio pelos petistas, contou, são os deputados Mendonça Filho (União-PE) e Pedro Paulo (PSD-RJ).

Em entrevista à Globo News, Zeca Dirceu, líder do PT na Câmara, disse que vai sugerir Lira nomes para a relatoria.

“Mais importante sobre quem vai ser o relator, é que a gente tenha um bom arcabouço fiscal, novo, moderno, flexível e equilibrado. Não podemos engessar as finanças do país”, disse ele, que defendeu uma proposta sem “nenhum tipo de radicalismo”.

No final de semana, a presidente do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann, vocalizou no Twitter parte das preocupações discutidas nos bastidores por parlamentares petistas.

“Se é verdade que a economia crescerá menos este ano segundo indicadores divulgados pelo governo, precisamos então aumentar os investimentos públicos e não represar nenhuma aplicação no social. Em momentos assim, a política fiscal tem de ser contracíclica, expansionista”, defendeu ela.

Em seminário no Rio de Janeiro na manhã desta segunda-feira sobre contas públicas foi a vez do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, comentar o tema. Disse que Haddad pode esperar “total lealdade e parceria, ao contrário das especulações que são publicadas”, mas defendeu o debate em torno do arcabouço.

“Agora, não nos peçam para deixar de dizer o que pensamos e ajudar o governo a acertar”, ressalvou o economista, fundador do PT e tido como mais heterodoxo na economia dentro da sigla, na comparação com Haddad.

“Não tem expectativa de substituir ninguém nem muitos menos de competir”, afirmou.

Nesta manhã, Haddad minimizou a pressão que tem sido alvo e rechaçou a divisão entre “ala política e econômica”.

“Não faz sentido esse tipo de divisão, toda decisão é técnica e política, ainda mais uma decisão dessa importância, por isso é o presidente da República que dá a última palavra (sobre o arcabouço)”, disse.

Nos bastidores da Fazenda, a pressão de parte do PT tem sido tratada de forma natural, seria o papel do partido. Uma fonte lembrou que, no primeiro governo Lula, o PT pedia a demissão de ministros e que ao final tudo funcionou bem.

No mês passado, o titular da pasta obteve uma importante vitória ao conseguir garantir a retomada da cobrança de impostos federais sobre combustíveis em meio a uma disputa de visões entre a equipe econômica e alas do governo e do PT, que viam a medida como impopular e inflacionária.

Experiente parlamentar petista, o senador Humberto Costa (PE) disse que confia muito no trabalho de Haddad e defendeu que o arcabouço leve em conta um grau de flexibilidade em casos de retração econômica e que se permita usar o dinheiro em caixa quando houver crescimento. Cobrou paciência dos correligionários.

“É uma pressa desnecessária, tem que conhecer (a proposta), ouvir o ministro e se a posição for essa, vamos apoiar que é a posição final do governo”, disse. “Não se pode ter posição pré-definida; não conhece e já está atacando”, criticou.


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