Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Em crise, a Record, a segunda maior rede aberta de TV do país, iniciou, na semana passada, uma série de demissões que atingiu todos os setores, incluindo alguns de seus profissionais mais conhecidos.
As demissões ocorreram após a empresa registrar um prejuízo de R$ 500 milhões em 2022.
Oficialmente, a direção da Record justificou os cortes pelo “período de reformulação por que passa o mercado de mídia”, que demandaria uma “reorganização em suas frentes de trabalho”.
As demissões devem continuar e a justificativa está longe de expressar a verdade.
Que o mercado de mídia está passando por uma ampla mudança, não resta dúvida, especialmente a partir da entrada em cena do streaming, a forma contínua de distribuição de multimídia, que possibilita demandas personalizadas, e de plataformas de vídeos como o YouTube.
O que está na raiz das demissões na Record, no SBT e, no início do ano, na própria TV Globo, no entanto, atende por outro nome: avaliação equivocada em relação ao futuro da política brasileira.
Some-se a isso a recente frustração com o “Jaboti” que a velha mídia tentou emplacar, sem sucesso, no projeto de Lei para combater fake news nas plataformas das big techs. “Jaboti” que visava, na realidade, garantir recursos para ela própria, em detrimentos da mídia independente, a nova mídia, que vem crescendo e se fortalecendo.
No caso do “Jaboti”, a Globo estava na linha de frente pela sua aprovação. Não aprová-lo era, para ela, quase sinônimo do fim do mundo.
Como a mídia independente entrou em cena e desmascarou a farsa, o projeto perdeu a urgência e a Globo nem fala mais no assunto.
Como os telespectadores mais atentos devem se recordar, as TVs Record e SBT estavam fechadas no apoio ao governo de Jair Bolsonaro. Em programas e telejornais, ele era exaltado e não havia a menor chance das críticas da oposição chegarem aos seus públicos.
No caso da TV Record, a situação alcançou um absurdo tal, que em vários programas, em especial nos com presença de pastores, Bolsonaro era quem havia “salvo o Brasil do comunismo”, enquanto o PT e Lula não passavam de “demônio e de Satanás”.
O bispo Edir Macedo, concessionário da TV Record e dono da Igreja Universal do Reino de Deus, meteu os pés pelas mãos, ao misturar religião e os seus próprios interesses. Macedo, apoiador de primeira hora de Bolsonaro, também apostava que na briga entre “o mito” e o Grupo Globo, a Record seria a beneficiada.
Que nos primeiros anos do desgoverno Bolsonaro a Record recebeu mais verbas do que a própria Globo é fato. Mas é igualmente fato que a ruptura de Bolsonaro com a família Marinho não aconteceu.
Haja vista que as críticas e ameaças de Bolsonaro à emissora e aos seus dirigentes, a ponto de declarar que poderia não renovar a sua concessão, não passaram de bravatas.
Em 20 de dezembro, faltando apenas 11 dias para o fim de seu mandato, Bolsonaro, renovou a concessão da TV Globo por mais 15 anos.
Essa decisão, associada à vitória de Lula nas eleições, acendeu o sinal de alerta para Macedo. O mesmo pode ser dito em relação ao SBT, que sonhava em voltar a ocupar a vice-liderança no ranking das TVs abertas. A filha de Sílvio Santos, Daniela Beyruti, nova comandante da emissora desde meados do ano passado, chegou a anunciar novidades na programação para desbancar a Record. Nada disso saiu do papel.
Na Globo, desde então, tem prevalecido o morde e assopra. Lula é elogiado em alguns aspectos de sua política interna, mas duramente criticado em suas posições na economia e na política externa.
Já na TV Bandeirantes, alguns comentaristas ou mesmo âncoras de programas policialescos, críticos contumazes a Lula e ao PT, agora não poupam elogios ao novo governo. Até quando, não se sabe.
No fim da Segunda Guerra Mundial, as TVs praticamente não existiam e a mídia dominante era o jornal. Na Europa, todos os veículos que se alinharam ao nazismo e ao fascismo não suportaram os ventos democráticos, pelo descrédito ou mesmo pelo ódio que a população passou a lhes dirigir.
Os novos governos da França, Itália e Alemanha não ficaram passivos, aguardando que todo voltasse ao normal. Eles foram fundamentais para que uma mídia democrática contribuísse para passar a história a limpo.
O caso mais notório é o do jornal Le Monde, que ocupa um lugar especial na vida francesa e na própria história da imprensa.
Lançado em 1944, meses depois da entrada dos aliados em Paris e pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial, sua criação foi um ato de vontade do general Charles de Gaulle, então primeiro-ministro da França e pessoa chave na libertação de seu país.
De Gaulle sabia da importância da imprensa e queria que seu país tivesse um grande jornal, respeitado internacionalmente como The Times de Londres. Mas a única orientação que formulou visava que Le Monde fosse o instrumento para a consciência nacional. Vale dizer: total liberdade em política interna e compromisso com os interesses franceses em se tratando da política externa.
Não por acaso o Le Monde se tornou, ao longo de décadas, a própria imagem da França democrática e comprometida com o que havia de melhor na cultura e na arte.
Não faltaram, também, jornais que desafiaram o fascismo e o nazismo. Na Itália, o caso mais notório é o do Corriere della Sera. Fundado em Milão em 1876, ele sempre foi uma publicação conservadora e moderada, o que não o impediu de ser um dos mais duros críticos a Mussolini.
Como o fascismo durou duas décadas (1922 a 1943), a publicação enfrentou muitos problemas e teve que se adaptar para sobreviver. Após o fim do fascismo, por exemplo, enfrentou a concorrência de publicações como o progressista Il Giorno, financiado pela estatal de petróleo ENI.
Na Alemanha, só em 1949, quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, os aliados, que ocuparam o país, permitiram a livre circulação de jornais. O Frankfurter Allemeine Zeitung nasceu junto com o novo regime, a República Federal Alemã.
Considerado o mais influente jornal da Alemanha, o FAZ fez questão de separar a notícia da opinião. O que explica por que a orientação conservadora dos seus editoriais não influiu na informação dos fatos e eventos proporcionada pelos repórteres.
Se a mídia corporativa brasileira não se pautasse apenas pela subserviência aos interesses do imperialismo estadunidense na primeira e na atual Guerra Fria e pelos interesses dos oligarcas, seus proprietários, esses ensinamentos poderiam lhes ser preciosos.
“Até as pedras da calçada”, ironiza o influente jornalista italiano-brasileiro, Mino Carta, podiam identificar em Bolsonaro não apenas um político de extrema-direita, mas um neofascista. E mesmo o mundo estando vivendo uma onda conservadora, perfis assim não teriam, como não tiveram, vida longa na política.
Donald Trump foi derrotado na tentativa de reeleição nos Estados Unidos, em 2020, e Bolsonaro, seu seguidor, teve o mesmo destino dois anos depois.
Era para a velha mídia brasileira ter aprendido alguma coisa. Mas não. Repórteres, colunistas e articulistas seguiram tratando Bolsonaro como se fosse um presidente normal. Jamais mencionaram o fato de ele ser um político de extrema-direita, preferindo apoiar ou passar pano para os seus desmandos.
À exceção da TV Globo, que criticava Bolsonaro pelo negacionismo em relação à covid-19, mas apoiava integralmente a pauta neoliberal do seu ministro da Economia, Paulo Guedes, todas as demais eram só elogios a Bolsonaro.
Isso sem falar na cobertura que a Record, Bandeirantes, SBT e Rede TV fizeram das absurdas motociatas que Bolsonaro realizou em todo o país, torrando dinheiro público e multiplicando exemplos de preconceitos e de incivilidade.
O caso mais escandaloso, sem dúvida, é o da rádio Jovem Pan. Não por acaso a cassação de suas três principais emissoras foi pedida pelo Ministério Público Federal de São Paulo há quase um mês.
A velha mídia tentou desconhecer o assunto, cobrindo-o com um manto de silêncio. Mas caberá à Justiça decidir se aceita ou não o pedido. Se aceito, ele envolverá, em última instância, a posição de no mínimo dois quintos dos integrantes do Congresso Nacional.
Uma ótima oportunidade para se conhecer, de corpo inteiro, a extrema-direita no Legislativo.
Se alguns parlamentares podem fingir que não sabem ou se esqueceram do que a Joven Pan fez, a maioria das pessoas tem muito nítido o que ela e as demais emissoras fizeram nos verões passados.
Os adolescentes e jovens não possuem mais qualquer ligação com uma programação com hora marcada, desconhecendo a velha mídia. Informam-se e divertem-se a partir de canais como o YouTube e os diversos serviços de streaming disponíveis.
O público adulto escolarizado, cada vez mais critica os telejornais que escondem ou distorcem os fatos nacionais ou se pautam apenas pelos interesses dos Estados Unidos e da Europa (o chamado “Ocidente”).
Haja vista a desmoralização da dupla William Bonner e Renata Vasconcellos, os principais âncoras do Jornal Nacional, da Globo, depois que tentarem apagar Lula da vida pública nacional, e agora são obrigados a falar, com cara boa, sobre o sucesso dos primeiros seis meses da atual administração. Detalhe: os dois continuam mentindo descaradamente quando se trata da economia, da guerra na Ucrânia e de tudo envolvendo Rússia e o governo Putin.
Some-se a isso que a China, a segunda maior potência do mundo, só entra no noticiário da mídia corporativa brasileira, de forma caricata e em meio a críticas que parecem formuladas por Biden e seus assessores.
Oportunistas como sempre, alguns dos principais executivos da Record e do SBT têm sido vistos nos corredores do Palácio do Planalto, buscando falar com os ministros da Casa Civil, Rui Costa, e com o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Paulo Pimenta. O objetivo é um só: querem mais “apoio” do governo para enfrentarem as dificuldades financeiras.
A família Marinho também está atrás de verbas, mas são mais discretos e possuem canais aceitados com o governo.
Desde o golpe que depôs Dilma Rousseff, em 2016, até a derrota de Bolsonaro, nas eleições do ano passado, o Brasil viveu o que historiadores, sociólogos e cientistas políticos classificam como neofascismo.
Bolsonaro foi derrotado, mas o bolsonarismo ainda não. Tanto que muitos de seus seguidores continuam aí, tentando desacreditar e desafiar as instituições, mesmo depois de derrotados nos atentados terroristas de 12 de dezembro, quando Lula foi diplomado presidente, e em 8 de janeiro, uma semana depois da posse.
Nos dois episódios, alguns dos veículos da velha mídia continuaram passando pano para o neofascismo.
De lá para cá, não faltaram reportagens, comentários e editoriais (aqui incluído jornais, rádios e TVs) tentando equivaler, por exemplo, a reação do ministro do STF, Alexandre de Moraes, à de seus agressores no aeroporto na Itália.
Questionamentos no sentido de se Moraes não estaria passando dos limites legais no enquadramento dos terroristas brasileiros, não faltam. Aliás, a velha mídia evita chamar esses terroristas pelo nome que lhes cabe. Prefere falar em vândalos que quebraram ou depredaram a Praça dos Três Poderes.
Por tudo isso, o Brasil se encontra diante de uma oportunidade única para passar a limpo a sua história recente, como foi feito na França, na Itália e na própria Alemanha no pós-Segunda Guerra Mundial.
Lá, instituições, a maioria da população e a nova mídia se uniram para “sanear” seus países. Na Alemanha, toda e qualquer divulgação ou propaganda nazista tornou-se crime e foram criados programas educativos, em todos os níveis, para esclarecer a população sobre as atrocidades cometidas por Hitler e seus seguidores.
Se algo semelhante não for feito no Brasil, corre-se o risco de muita gente continuar acreditando nas fake news bolsonaristas e considerando o ex-capitão um “perseguido”, um “coitadinho”, que não pode se candidatar por oito anos.
Hitler cometeu suicídio em 30 de abril de 1945, após atirar contra a própria cabeça, no bunker da chancelaria alemã. Morte que significou na prática o fim do III Reich e o fim do conflito na Europa. Mussolini foi morto dois dias antes. As versões são contraditórias. A versão oficial afirma que seu fuzilamento foi ordenado pelo Tribunal do Povo.
Mussolini foi responsável pela morte de um milhão de pessoas. Hitler tem responsabilidade direta na morte de pelo menos 1,1 milhão de judeus só no campo de concentração em Auschwitz.
Sem o Brasil estar em guerra, Bolsonaro pode ser responsabilizado pela morte de mais de 300 mil pessoas durante a pandemia. Ele tem pela frente pelo menos mais 30 processos, entre Justiça Eleitoral, Cívil e Criminal. Isso sem falar na negligência e no abandono com que tratou os indígenas brasileiros. Fato que pode levá-lo à condenação também pelo Tribunal Penal Internacional.
Você já reparou como a velha mídia não toca nesses assuntos e nem fez nenhum balanço sobre o que foram os tenebrosos anos de Bolsonaro?
Ela não fala nisso, porque não há como se desvencilhar do nefasto papel que desempenhou.
Lula é um estadista tão ou mais importante que De Gaulle, cada um devidamente situado em seu tempo. De Gaulle percebeu que sem uma mídia comprometida com os interesses da França, não haveria como recuperar e novamente estimular o desenvolvimento de seu país.
Lula, nesses primeiros seis meses de governo, está fazendo o possível e o impossível para recolocar o Brasil no rumo do desenvolvimento e de um papel relevante no cenário internacional e na busca pela paz.
Está conseguindo, apesar de todos os obstáculos.
Mas se ele não tiver clara a importância de uma mídia comprometida com os interesses do Brasil, como tinha De Gaulle, seus esforços podem ir por água abaixo.
Uma mídia democrática não se limita a informar. Ela educa e contribui para formar o cidadão.
A TV Brasil, a nossa única TV pública, já poderia estar funcionando a pleno vapor, com programação aberta em todo o país e um telejornal de primeira linha.
A TV Brasil precisa ser o nosso Le Monde. Inaceitável que ainda enfrente problemas com recursos e pessoal. Resolver isso depende só do governo.
A TV Brasil precisa passar a pautar a mídia nacional e internacional, pela qualidade e excelência de sua programação e jornalismo, como fez o Le Monde por décadas.
Não é do feitio de Lula estrangular qualquer empresa com o corte de verbas públicas, como fez Bolsonaro com a mídia independente. Mas espera-se que os critérios de transparência adotados em seus governos anteriores, sejam aperfeiçoados neste terceiro governo.
Critérios que precisam levar em conta que a própria mídia e a forma de se informar dos brasileiros e brasileiras mudou e continuará mudando.
As tiragens dos jornais impressos, que despencaram 16,1% em 2022, permanecem em queda. A maior queda verificada foi na tiragem da Folha de S. Paulo (-15,65), seguida pelo Estado de S. Paulo (-9,6%). O jornal o Globo também perdeu leitores, mas menos do que os concorrentes (-2,9%).
Por isso, as redações desses veículos devem encolher mais ainda nos próximos meses.
O próprio público está deixando claro que prefere se informar pela mídia independente (veículos na internet e canais no YouTube) do que pelas TVs e rádios tradicionais.
Além da mídia independente, as rádios comunitárias também têm tido um importante papel na mudança de hábitos em se tratando da informação. Razão pela qual elas podem e de alguma forma já fazem o contraponto à velha mídia.
Por tudo isso, o importante nesse processo é o governo Lula ter clareza de que se depender da velha mídia, não terá um minuto de paz. Mesmo estando em franco encolhimento, ela continuará à espreita para envenenar a opinião pública e tramar novos golpes sempre que lhe for conveniente.
A velha mídia é incompatível com o novo Brasil.
