Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Bolsonaro sonhava com multidões e aplausos, mas foi decepção o que experimentou, nos quase dois dias em que permaneceu em Belo Horizonte.

Inelegível por oito anos, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro tem buscado o apoio de antigos aliados para continuar na vida pública.

Ele sabe que sua situação deve se complicar ainda mais diante da delação premiada do seu ex-ajudante de ordens, tenente-coronel Mauro Cid, e do relatório final da CPMI sobre os atos golpistas de 8 de janeiro. Não está descartada nem mesmo a sua prisão.

Ao contrário de outras vindas à capital mineira, sua agenda não foi divulgada e aliados como o governador Romeu Zema, só na última hora, aceitaram se encontrar com ele, mesmo assim de forma discreta, num café da manhã.

O encontro com Zema não poderia ter sido mais melancólico. Bolsonaro admitiu que “é comum ter desentendimentos”, referindo-se às críticas de seus filhos a Zema.

Zema não disse nada.

As vias pelas quais Bolsonaro teria que transitar foram cobertas por faixas denunciando a presença de “Um traidor”, “Satanás” e “Ladrão de joias” na cidade.

Pelo cálculo político que faz, Bolsonaro acredita que o apoio dos governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Rio de Janeiro, Cláudio Castro e o de Zema, todos de extrema-direita, é suficiente para atravessar o que, entre quatro paredes, denomina de “maré ruim” e, para o público externo, “de perseguição política”.

O problema é que exceto Cláudio Castro, os outros dois têm projetos próprios e cada vez mais Bolsonaro os atrapalha.

O posicionamento de Tarcísio na greve dos funcionários do Metrô, dos Trens e dos serviços de energia elétrica e de água, que parou a capital de São Paulo, na última segunda-feira, foi um aceno pessoal à classe dominante. Algo como: eu sou o único capaz de atender aos seus interesses de comprar o patrimônio público a preço de banana.

É importante lembrar que parcela do empresariado acha que Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, prometeram muito e entregaram pouco do patrimônio público tão cobiçado por eles.

O motivo do protesto dos grevistas é a privatização desses serviços, que Tarcísio pretende enfiar goela abaixo dos funcionários e da própria população.

Em cidades da Europa e dos Estados Unidos onde serviços similares foram privatizados, o retorno deles para as mãos do Estado está acontecendo. Isso porque além de terem piorado, as tarifas praticadas sofreram elevações astronômicas.

Quem perde com as privatizações é a população. Quem ganha é o empresariado que vive criticando o Estado, mas adora comprar pronto e em pleno funcionamento tudo o que foi construído com dinheiro público. Para esses setores, Tarcísio pode os atender até melhor do que Bolsonaro. Daí o cuidado em manter o vínculo com Bolsonaro, mas, ao mesmo tempo, tentar se cacifar para voos mais altos.

Os grevistas em São Paulo querem também a inclusão de uma cláusula envolvendo a necessidade de consulta popular para a venda de empresas públicas, semelhante a que existe na Constituição mineira.

A truculência da classe dominante paulista para com os grevistas deixa claro que a mensagem de Tarcísio foi muito bem recebida por ela. Caso contrário, como explicar a multa de mais de R$ 1 milhão por dia aplicada pela Justiça aos sindicatos? Greve é um direito e está prevista na Constituição.

Como explicar manchetes que quase parabenizavam o governador de São Paulo por sua atuação, como a do jornal O Globo, da última terça-feira: “Tarcísio reafirma privatização após greve nos trens e no metrô parar São Paulo”. Vale observar que esta manchete passa por cima de toda a lógica. Se o objetivo da greve ao paralisar São Paulo era alertar para a posição equivocada do governador, a mídia deveria destacar isso e não a insistência dele em manter as privatizações!

Zema não fica atrás de Tarcísio na disputa por quem vende mais barato e mais rápido o patrimônio popular. Diante de uma dívida pública que gira em torno de R$ 160 bilhões, a situação das finanças mineiras é catastrófica e o governador não quer admitir que mentiu nas últimas eleições. Por isso, ele vê na liquidação do patrimônio público a saída para seu governo não parar.

Quem se lembra que Zema chegou a dizer que as finanças mineiras estavam equacionadas e que o Estado poderia ter até superávit em 2023?

Pois é.

Como a mídia corporativa mineira é sempre favorável ao governador de plantão, nada foi dito e continua não sendo dito. Também em Minas a mídia expressa apenas os interesses da classe dominante, de olho em comprar a Cemig e a Copasa a preço de banana. Além de não serem empresas deficitárias, ambas prestam relevante serviço social com tarifas diferenciadas.

Será que alguém acredita que tais tarifas possam continuam após as privatizações?

Como a Constituição mineira determina que se faça consulta popular para a venda de empresas públicas, Zema tem pressionado a Assembleia Legislativa para que suprima este dispositivo.
Até agora os parlamentes têm resistido, especialmente depois do fiasco que foi a privatização do Metrô de Belo Horizonte, que piorou significativamente os serviços que presta à população.

Centenas de demissões se seguiram e os riscos de acidentes para os usuários aumentaram de forma exponencial. De um total de 1458 metroviários, restam agora, depois da privatização, apenas 870, causando sobrecarga de trabalho.

Além do péssimo serviço, a população ainda enfrentou a alta de 17,78% na tarifa, que saltou de R$ 4,50 para R$ 5,30.

Esse não seria um ótimo assunto para a edição de sábado (07/10) do jornal Estado de Minas?

Acredite se quiser, mas o “ex-grande jornal dos mineiros” deu como manchete “Ataque de cães: morte na Grande BH expõe risco”, sobre criança vítima de cão bravo.

Mais do que Tarcísio, Zema precisa se distanciar de Bolsonaro se quiser o apoio do Legislativo mineiro. Por outro lado, ele precisa de Bolsonaro para manter sua base original de apoio. É isso que explica, por exemplo, ações consideradas desastrosas como o apoio à filiação ao seu partido, o tal Novo, do ex-procurador e deputado federal cassado pelo TSE, Deltan Dallagnol, depois que vieram à tona as ilegalidades que cometeu na campanha eleitoral.

O único que continua totalmente alinhado a Bolsonaro no momento é o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Como se já não pesassem sobre a Polícia carioca a desconfiança pela destruição de provas e atrasos nas investigações sobre o assassinato, há cinco anos, da vereadora Marielle Franco, do PSOL, e de seu motorista Anderson Gomes, a execução nesta semana de três médicos e os ferimentos em um quarto, aumentaram ainda mais as dores de cabeça para Castro.

Ele deve a chegada ao poder a Bolsonaro, que patrocinou o impeachment do então governador Wilson Witzel, de quem era vice. Castro deve também sua eleição em 2022 a Bolsonaro, a quem define como o mais ilustre morador do Rio de Janeiro. Bolsonaro tem residência em um condomínio na Barra da Tijuca, mesmo bairro onde aconteceu a chacina dos médicos.

A família Bolsonaro é apontada como tendo negócios e envolvimentos com as milícias, que dominam o trafico de drogas e parte das demais atividades ilegais na ex-cidade maravilhosa. Ninguém pode se esquecer que foi Bolsonaro, a título de armar o “cidadão de bem”, quem proporcionou equipamentos para as mais diversas atividades ilegais no país.

As milícias cariocas possuem, hoje, armamentos mais sofisticados do que as próprias polícias.
Foi com esse tipo de armamento que, em 30 segundos, pessoas encapuzadas e vestidas de preto dispararam 33 tiros contra quatro médicos num quiosque na Barra da Tijuca, em frente ao hotel onde estavam hospedados e que, no dia seguinte, sediaria um congresso sobre ortopedia.

Três foram assassinados na hora e o quarto encontra-se hospitalizado, depois de ter recebido 14 balas no corpo. Um dos mortos era o irmão da deputada Sâmia Bomfim, do PSOL, esposa do deputado Glauber Braga, também do PSOL, ambos duros críticos de Bolsonaro.

A chacina obviamente chocou a opinião pública nacional e internacional, sempre atenta ao que acontece na cidade brasileira mais visitada por estrangeiros. No entanto, a mídia corporativa, que deveria estar interessada nas investigações sobre o que aconteceu, especialmente diante do ainda não esclarecido assassinato de Marielle, mostrou-se a primeira a acreditar na estranha versão da polícia carioca.

Na edição do dia seguinte à chacina, o assunto praticamente sumiu dos principais jornais. No Estado de S. Paulo, recebeu discreta chamada. Sob o versal “Violência”, a publicação afirma que “Suspeitos de executar 3 médicos são encontrados mortos no Rio”. Na Folha de S. Paulo, o assunto também quase desapareceu, escondido na parte inferior da primeira página: “Polícia apura se corpos são de suspeitos de matar médicos”. Já o Globo, cuja sede é no Rio, trouxe como manchete: “Execução de suspeitos de crime na Barra evidencia falhas em série da segurança pública no Rio”.

O que as três manchetes têm em comum? Aceitam a versão da Polícia e não mencionam a possibilidade de crime político. Isso mesmo depois que o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ter admitido que o crime pode ter relação com a atividade parlamentar de Sâmia e de seu marido, o deputado Glauber.

Seria esse o comportamento da mídia se o governador do Rio de Janeiro não fosse uma pessoa chave para Bolsonaro e o bolsonarismo?

Quem se lembra das campanhas contra o então governador Leonel Brizola, nos anos 1980, comandadas pela família Marinho, dona do Grupo Globo? Campanhas que tinham como mote o crime organizado tomando conta da cidade, numa época em que isso não era verdade, mas o Grupo Globo fazia crer que fosse.

Agora que o crime organizado toma conta do Rio de Janeiro, o jornal O Globo apenas registra que o governador Cláudio Castro admitiu haver “verdadeira máfia” e que o “tribunal do tráfico” se antecipou a uma operação policial em busca dos assassinos.

Os supostos assassinos foram mortos e o caso está encerrado?

Qualquer investigação policial minimamente séria deveria apurar, a fundo, a relação entre milícias, extrema-direita e bolsonarismo no Rio de Janeiro.

Não caberia à mídia, por exemplo, apontar a “coincidência” de vítimas pertencerem ou terem ligações com integrantes de partido político de esquerda?

Engana-se, portanto, quem acredita que a extrema direita bolsonarista e mesmo a que começa a descartar Bolsonaro, se considere vencida. Elas estão vivas e a mídia passa pano para ambas.
Daí o alerta de que o desespero costuma levar à violência.

Daí também uma das leituras possíveis para esta chacina ser a intimidação explícita para as forças progressistas, enquanto Bolsonaro tenta, desesperadamente, reagrupar o seu time.