Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Os palestinos enfrentam simultaneamente dois genocídios.

O primeiro teve início em 1948, quando a ONU criou o estado de Israel e deixou para depois o estado palestino. Um depois que, até agora, transcorridos 75 anos, não aconteceu.

Tão terrível quanto privar um povo de espaço para viver é tentar transformá-lo em “inimigo”, “sanguinário”, “terrorista” e “perigo para a humanidade”, como tem sido feito pela mídia corporativa internacional e brasileira desde então, com o clímax alcançado na última semana, após os ataques do Hamas a Israel.

A situação no Oriente Médio não guarda a complexidade que pode parecer.

O certo teria sido a criação de dois estados – Israel e Palestina. Os vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, no entanto, se empenharam em resolver só o problema dos judeus que viviam em diáspora pelo mundo e milhões deles acabavam de ser barbaramente perseguidos e mortos pelos nazistas. Não deram a mínima para os palestinos, os históricos e não apenas miticamente legítimos habitantes da região.

A ONU autorizou a criação de Israel e milhares de judeus em todo o mundo começaram a se mudar para lá.

A situação a que foram relegados os palestinos deixa evidente o racismo por trás das ações dos vitoriosos na Segunda Guerra Mundial, a começar pelo próprio nome com que a região era designada: Oriente Médio.

Geograficamente, não existe Oriente Médio. Trata-se de invenção de países imperialistas como a Inglaterra, para justificar suas colônias na região. O território que se estende desde o Leste do mar Mediterrâneo até o Golfo Pérsico é uma sub-região da Afro-Eurásia, sobretudo da Ásia, e retirá-lo desta condição foi uma bem sucedida operação semântica para legitimar o imperialismo.

Dito de outra forma, o “Ocidente” não estaria interferindo no Oriente (África e Ásia), mas atuando numa região intermediária. Some-se a isso que por serem árabes e, não ocidentais brancos, com o agravante, aos olhos imperialistas, de praticarem a religião islâmica, os palestinos poderiam ser alvo de todas as atrocidades.

Até a de retirar deles a própria condição humana. Como disse há cinco dias o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, “estamos combatendo contra animais”.

Tudo isso vem sendo ignorado pela mídia ao tratar o grupo Hamas, que em tradução livre significa Movimento de Resistência Islâmica, como terrorista pelo atentado do sábado (7/10), como se os conflitos tivessem começado ali.

Toda violência merece repúdio, mas, por outro lado, não se pode negar a um povo o direito de lutar pela sua libertação. Essa é a razão pela qual a ONU não considera o Hamas um grupo terrorista, ao contrário do que tem sido repetido à exaustão pela mídia brasileira e internacional. Mídia que tem coberto apenas um lado deste conflito, negando aos palestinos o direito básico de serem ouvidos e exporem suas razões.

A voz que se ouve na mídia Ocidental quando o assunto diz respeito a Israel e palestinos é a de Israel, que tem como aliados, desde sempre, Inglaterra e Estados Unidos. Foi assim na chamada 1ª Guerra Árabe-Israelense (1948), na crise do canal de Suez (1956), na Guerra dos Seis Dias (1967), na 1ª Intifada (rebelião popular palestina), em 1987, e na 2ª Intifada (2000), além das seguidas ofensivas entre Israel e Hamas em 2008, 2009, 2012, 2014, 2018, 2019 e 2021.

Em todos estes conflitos, Israel contou com o apoio político e bélico dos Estados Unidos. Apoio político ao negar, através da condição de um dos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU com direito a veto, conter a fúria de Israel ou avanços efetivos para a criação do estado palestino. E se hoje Israel é um dos países que mais investem em armamentos e possui um dos mais eficientes serviços de inteligência do mundo, isso se deve ao apoio da Casa Branca.

Diante da disparidade de condições reinantes entre Israel e palestinos, não há nem mesmo como falar em guerra. Como um 2,1 milhões de palestinos, confinados por Israel na faixa de Gaza, meros 365 quilômetros quadrados (equivalente a um quarto do território da cidade de São Paulo) conseguiriam enfrentar um dos exércitos mais bem armados do planeta?

Israel priva-os de tudo. Entradas e saídas de pessoas na Faixa de Gaza são controladas, o mesmo podendo ser dito de alimentos, medicamentos e combustíveis, muito antes do atentado do Hamas.

Se as tensões entre Israel e os palestinos não são de agora, existem fatos recentes que parecem estar na raiz do aumento explosivo da violência na região.

O primeiro deles é a crescente impopularidade do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Além de enfrentar processos de corrupção por ações anteriores à frente do governo israelense, Netanyahu, um político de extremíssima direita, conseguiu que fosse aprovado pelo Parlamento medida que reduz o poder do Supremo Tribunal Federal de seu país.

A medida vinha provocando críticas dos mais diversos setores e intensas manifestações contra ele. Possivelmente visando fortalecer-se e conter as críticas, Netanyahu estaria, segundo palestinos, preparando uma espécie de ofensiva final contra a Faixa de Gaza.

É a velha tática de criar o perigo externo para conseguir coesão interna. O Hamas teria ficado sabendo e se antecipou.

Se essa versão é verdadeira, não há como afirmar. Mas não deixa de ser curioso observar que mesmo contando com o Mossad, o melhor serviço de inteligência do mundo, superior até aos equivalentes nos Estados Unidos, Israel não tenha conseguido prever o ataque do Hamas. Vale lembrar que na última semana veio à tona, por setores da própria mídia israelense, que o governo do Egito avisou ao israelense, com três dias de antecedência, sobre esses ataques.

Por que Israel não agiu?

Aspectos como esses não aparecem na mídia Ocidental e, menos ainda, na brasileira. Aqui, os fatos foram substituídos por achismos, desinformação e preconceitos da pior espécie.

Emissoras de televisão como a Globo, Globo News e CNN Brasil se transformaram em propagadoras de fake news. Um dos exemplos mais escandalosos foi a divulgação da mentirosa decapitação de 40 bebes israelenses pelo Hamas. A mentira foi divulgada inicialmente por um canal de TV de Israel, ligado a Netanyahu. Em instantes, passou a ser reproduzida pelas agências de notícias internacionais, sem qualquer verificação.

Aliado incondicional de Israel, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, chegou a mencionar este suposto episódio em pronunciamento, ao dizer que teria visto imagens de bebês mortos e carbonizados.

Como a própria imprensa de Israel se incumbiu de desmascarar a farsa, Biden voltou atrás, mas o estrago estava feito.

A mentira alastrou-se pelo mundo e no Brasil chegou até comunidades mais distantes. Mentiras aqui turbinadas pela maioria das igrejas neopentecostais, cujos pastores fazem de Israel, sem qualquer justificativa concreta, uma espécie de referência única de terra e povo abençoados.

Os templos neopentecostais/bolsonaristas ignoram as chacinas que Israel fez contra os palestinos ao longo de décadas.

Não por acaso, a maioria dos brasileiros que se encontrava em Israel era composta por adeptos e fieis destas igrejas. É isso que explica a presença da bandeira de Israel nas manifestações bolsonaristas e antidemocráticas ocorridas no Brasil nos últimos quatro anos, a ponto dos resgatados se recusarem a agradecer ao presidente Lula pelo envio de aviões da FAB com tal objetivo.

O Brasil foi o primeiro e até agora o único país a retirar com segurança e rapidez seus nacionais de Israel. A Inglaterra, que se arvora em pátria da liberdade, está cobrando uma fortuna pela passagem de quem quiser voltar para casa.

Também na mídia imprensa – em especial em jornais como O Globo e Folha de S. Paulo-, a versão que interessa a Israel tem sido a única divulgada.

Para tornar a situação mais grave, até supostos blogs progressistas entraram na linha de frente da condenação aos palestinos e na tentativa de censurar jornalistas e publicações que buscam esclarecer a opinião pública sobre o que realmente acontece e está em jogo.

É o caso do jornalista Breno Altman, diretor do portal e da pós-TV Opera Mundi. Judeu, Altman é um profundo conhecedor da situação palestina e tem se dedicado, há anos, a mostrar os horrores que Israel vem infringindo ao povo palestino. Em represália às suas análises, foi informado que o YouTube desmonetizou o seu canal na web.

A atitude das big techs em relação aos canais que se colocam em posição contrária ao genocídio do povo palestino mereceu nota de repúdio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Por meio da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos, a entidade declarou seu apoio a Altman, que “foi vítima de tentativa de censura por parte da plataforma You Tube, e, lamentavelmente, até mesmo por outro jornalista, por suas posições em defesa do povo palestino”.

A declaração da ABI remete ao posicionamento do jornalista Samuel Pancher, do site Metrópoles, que defendeu que Altman fosse censurado também nas redes sociais.

O próprio governo brasileiro vem sendo vítima de ataques por parte de sionistas locais e internacionais ao exigirem que condene o Hamas como terrorista. Ataques que levaram o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reiterar que, sobre esse assunto, acompanha a classificação da ONU, na qual o grupo de resistência palestino nunca figurou como terrorista.

Na última quinta-feira, integrantes da oposição na Câmara dos Deputados (bolsonaristas e ligados às igrejas neopentecostais) protocolaram pedido para que o governo adotasse o termo ao se referir à organização. A solicitação foi assinada por mais de 60 deputados, o que indica como o lobby pró-Israel está articulado no país.

A pressão interna e externa sobre o governo brasileiro visa, também, inibir as suas ações no plano internacional, uma vez que o Brasil está, ao longo deste mês, no comando do Conselho de Segurança da ONU. A presidência é rotativa. Além dos cinco membros permanentes, existem os 10 itinerantes.

A reunião do órgão seria na próxima semana, mas a pedido do Brasil, o encontro foi antecipado. Uma primeira reunião aconteceu na última segunda-feira e outra, na sexta-feira.

Em ambas, os Estados Unidos nada fizeram para não impedir que Israel cumpra o que prometeu: um ataque jamais visto contra a Faixa de Gaza sem poupar civis, mulheres ou crianças. O apoio a Israel começou com o Tio Sam esvaziando a reunião, ao enviar representantes de terceira categoria para um encontro de tamanha importância. Representantes de terceiro escalão não deliberam.

Mesmo convalescendo de uma cirurgia, o presidente Lula passou os últimos dias mobilizando os meios diplomáticos para estas reuniões e defendendo que seja feito o debate sobre questões humanitárias na Faixa de Gaza e a criação de um corredor ligando a região ao Egito, para facilitar a saída de pessoas e a entrada de alimentos, água e remédios para os palestinos.

A proposta de Lula agradou ao secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, que deu apoio à antecipação da reunião. Mas, como sempre, desagradou aos Estados Unidos e ao lobby sionista, de olho numa solução final contra os palestinos.

A canalhice da mídia corporativa brasileira é tamanha, que não foram poucos os jornalistas a minimizar os esforços do presidente Lula, com uns chegando a rotulá-los de “desnecessários”.

Vale observar que Israel e Estados Unidos podem estar utilizando o ataque do Hamas para desviar o foco do fracasso do “Ocidente” na Guerra na Ucrânia.

Você observou como a Ucrânia e Zelensky sumiram da mídia?

Esse desaparecimento pode ter a ver com a impossibilidade de os Estados Unidos e a OTAN derrotarem a Rússia. Nada melhor do que outro conflito para a Ucrânia sair do foco, a ponto do próprio Zelensky cobrar dos aliados e da mídia estar sendo abandonado.

Por tudo isso, a responsabilidade da mídia brasileira e da mídia ocidental neste processo é enorme.

Ao posicionar-se ao lado de Israel e disseminar todo tipo de preconceito e mentiras contra os palestinos, ela também se transforma em arma letal. Uma arma que chancela a eliminação física de 2, 1 milhões de pessoas e joga ao lado das potências imperialistas nas ameaças à segurança e à paz mundial.

Sêneca, o filósofo grego, dizia que “na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Ao esconder os fatos, manipulá-los e distorcê-los, a mídia brasileira, também se torna responsável pelo que tem acontecido e o que vier acontecer com o povo palestino.

O genocídio também é midiático.