Cinco confederações sindicais convocaram as manifestações, que reunirão a esquerda na esperança de criar uma mobilização de eleitores para impedir a vitória da extrema direita nas eleições legislativas antecipadas na França, em 30 de junho e 7 de julho. Uma maioria da ultradireita na Assembleia Nacional significaria que, pela primeira vez no país, esta corrente política exerceria o poder em âmbito nacional.
“Vencer a extrema direita nas urnas e combater o seu projeto racista deve ser combinado com mudanças profundas, rupturas sociais e ecológicas e da efetividade dos direitos”, diz o apelo à manifestação.
A primeira pesquisa de intenções de voto, realizada pelo instituto Elabe, indica que o RN obterá 31%, ficando à frente da aliança de esquerda, com 28%. Na sua primeira comunicação conjunta sob o nome de “Frente Popular”, o Partido Socialista, a França Insubmissa, o Partido Comunista e os Ecologistas pediram, na noite de segunda-feira (10), para “se juntarem às manifestações”.
Protestos durante a semana
A secretária-geral do sindicato CFDT, Marylise Léon, declarou que pretende mobilizar “todas as suas energias para fazer tudo para que o Reunião Nacional não chegue ao poder”. “Não podemos ter uma sociedade hoje, em 2024, na qual devemos estar separados, cada um no seu canto, nos dividindo e construindo direitos de forma discriminatória”, acrescentou a líder sindical.
Ao longo da semana, ocorreram manifestações em diversas cidades francesas. “Me preocupa que não existam mais ‘nós’. Quando olhamos para o que aconteceu em 2002 [quando Jean Marie Le Pen foi para o segundo turno na eleição presidencial francesa], as ruas estavam lotadas e o ímpeto foi mais espontâneo. Eu gostaria que reencontrássemos este mesmo ímpeto”, espera Math Gillio, um estudante de ciências políticas de 21 anos, que participou, na noite de quarta-feira, de um protesto em Lille.
“A França está se transformando em fascista, mas quero ir às ruas para mostrar que isso não pode ser generalizado a todo o país”, diz Laetitia, funcionária pública de uma escola em Seine-Saint-Denis.
“O desafio é buscar o voto de quem não vota”, declara Cédric Ghestemg, 37 anos, cartunista e ativista da França Insubmissa que planeja participar dos protestos neste fim de semana em Montpellier, para “sentir que estamos unidos”.
Em Paris, a marcha partirá às 14h de sábado da Praça da República. São esperados de 50 a 100 mil participantes na capital, segundo estimativas da polícia.
Voto de sindicalistas na extrema direita
Mas nem todos os sindicatos franceses convocaram os seus integrantes a participar. Força Operária e CFTC, por exemplo, preferiram não se manifestar.
Segundo uma pesquisa publicada no sábado pelo instituto Harris/Interactive, na véspera das eleições europeias, o voto no RN também aumentando entre as pessoas “próximas de um sindicato”, passando de 16%, em 2019, para 23%, em 2024.
“Somos impactados pelas ideias da extrema direita e por sua banalização”, reconhece Céline Verzeletti, do CGT. “O atual governo tem uma grande responsabilidade, especialmente Emmanuel Macron.”
“Os familiares ou simpatizantes não são necessariamente membros e muito menos ativistas” sindicais, observa Stéphane Sirot, historiador. “A despolitização do campo sindical desempenhou, sem dúvida, um papel [na ascensão do voto na extrema direita]”, assim como “as desilusões das experiências da esquerda no poder”.
O historiador salienta que “o discurso aparentemente social da extrema direita, bastante inteligente, certamente contribuiu para confundir as coisas para alguns”, segundo o especialista em sindicalismo.
Esquerda acerta ponteiros para aliança
Quanto às negociações políticas em curso na Frente Popular de esquerda, a manhã foi de tensões. As reuniões entre os diferentes grupos progressistas parecem avançar, mas ainda não há um nome consensual para o cargo de primeiro-ministro, em caso de vitória nas eleições legislativas antecipadas.
“Vamos conseguir. Há avanços reais”, disse um socialista à AFP. “Tudo está caminhando bem”, comentou o coordenador nacional da França Insubmissa, Manuel Bompard.
Um pouco antes, Jean-Luc Mélenchon, que não participa das discussões, havia elogiado o “bom trabalho” das equipes de negociação no X. “Tudo está se encaixando”, saudou a principal figura da esquerda radical, que não descartou, na noite de quarta-feira, concorrer ao cargo de primeiro-ministro.
Pela manhã, porém, o tom era bem diferente, com as negociações parecendo tropeçar na distribuição das zonas eleitorais entre os partidos e em alguns pontos do programa comum de governo.
“Havia o receio de que não teríamos sucesso”, admitiu o comunista Fabien Roussel, à emissora TF1. “Mas neste momento, estou muito mais otimista, e devemos conseguir manter o compromisso que assumimos aqui no início da semana”, salientou.
Ao meio-dia, uma liderança socialista disse que a reunião sobre o programa estava “suspensa” até que a discussão sobre a distribuição das zonas eleitorais “seja desbloqueada”. As duas negociações decorrem separadamente, mas o progresso de uma tem consequências para a outra, obrigando os diferentes participantes nos debates a realizarem um delicado equilíbrio.
Quanto ao nome para a eventual chefia de governo, o secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, especificou que a sigla busca um perfil “unificador” – que não é o ponto forte de Jean-Luc Mélenchon. Mesmo assim, disse que “não desqualifica” o ex-candidato presidencial ao cargo de primeiro-ministro, que chegou em terceiro lugar nas últimas eleições para a presidência, em 2022.

