Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Quando se vive uma situação ruim, a gente faz de tudo para que acabe logo. Na política também deve ser assim.

A julgar pelos resultados das recentes pesquisas, a chance da eleição presidencial ser resolvida no primeiro turno é enorme. Para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ampliar o apoio em 2% já seria mais do que suficiente. Enquanto ele tem 45% das intenções de voto, seus adversários somados ficam com 46%.

Tecnicamente, Bolsonaro não deveria nem estar disputando. Não existe na história brasileira e nem na mundial, caso de candidato com mais de 50% de rejeição ter conseguido se reeleger.

Ele, ao que tudo indica, bateu no próprio teto de votos. A preocupação de sua equipe agora é evitar que perca apoios, como a última pesquisa DataFolha já sinaliza.

Isso posto significa que Bolsonaro deve passar a agir em duas frentes: intensificar as fakenews contra Lula, visando evitar que o adversário cresça e estimular ainda mais as candidaturas da chamada “terceira via”.

Neste estímulo, Bolsonaro conta com importantes aliados: a mídia corporativa brasileira, a autointitulada “grande mídia”, aquela que bate no peito e diz que faz “jornalismo profissional” e os próprios candidatos, Ciro Gomes e Simone Tebet.

Será surpresa se Ciro não for novamente para Paris. Já as chances de Simone tentar exigir mundos e fundos de Lula para apoiá-lo num eventual segundo turno são enormes.

Fora dos candidatos propriamente ditos, empresários como o bispo da Igreja Universal, Edir Macedo, ou Sílvio Santos, do SBT, nunca esconderam a preferência por Bolsonaro. Desde as eleições de 2018, eles se apressaram no apoio ao ex-capitão e foram regiamente recompensados. Bolsonaro despejou rios de dinheiro nestas duas emissoras e o genro de Sílvio Santos virou ministro das Comunicações.

Se dependesse deles, a fatura seria liquidada por Bolsonaro no primeiro turno. Como isso é impossível, os dois também embarcaram nas tais candidaturas da “terceira via”.Em outras palavras, a tal “terceira via” nada mais é do que uma linha auxiliar do bolsonarismo.

Será que os eleitores de Ciro e Tebet sabem disso? Acredito que não.

De toda a mídia corporativa brasileira, no entanto, é a família Marinho, do Grupo Globo, quem mais apostou e continua apostando em Ciro e Tebet para levar a eleição para o segundo turno.

Alguém pouco versado nos meandros da política pode questionar: qual a lógica, uma vez que todas as simulações de segundo turno mostram Lula vencendo Bolsonaro por ampla margem de votos, deduzindo que a turma da “terceira via” ao fim e ao cabo não influirá em nada.

É aí que reside o grande engano.

Se esta fosse uma eleição normal, um eventual segundo turno teria o papel de possibilitar que os candidatos se tornassem mais conhecidos e suas propostas alvo de discussões mais aprofundadas.
Mas essa não é uma eleição normal. E os candidatos são por demais conhecidos.

A disputa está claramente colocada entre a barbárie instaurada desde o golpe, travestido em impeachment contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, que Bolsonaro representa,e o retorno àdemocracia preconizado pelo ex-presidente Lula.

O saldo do golpe tem sido terrível para os brasileiros e as brasileiras: quase 700 mil mortes por covid-19, a maioria perfeitamente evitável; 33 milhões de pessoas passando fome; mais da metade da população desempregada ou subempregada; inflação de dois dígitos; explosão do crime organizado, das milícias e da violência, sem falar em absurdos como o tal “orçamento secreto”, a tentativa de comprar votos dos mais pobres via auxílios e vauchers e a corrupção desenfreada e não apurada envolvendo, por exemplo, a ação dos pastores no MEC e a compra de 101 imóveis pelo clã Bolsonaro, grande parte com dinheiro vivo.

A família Marinho é a principal impulsionadora da “terceira via”. Ela não gosta de Lula. Esteve na linha de frente, junto com a Operação Lava Jato, na campanha para criminalizá-lo e prendê-lo sem provas. Ela também tem restrições a Bolsonaro, mas o vê como um “mal menor”. Basta o ex-capitão entornar rios de dinheiro no Grupo Globo e os problemas deixam de existir. Já com Lula, a situação é mais complexa, pois a divergência entre eles é de fundo.

Lula luta por um país democrático, inclusivo e soberano. Os Marinho se preocupam apenas com os seus interesses, como de resto a classe dominante brasileira.

Numa situação assim, a prudência recomenda que se deva acabar com o problema rapidamente. É possível? Claro que sim e o único recurso de que a população brasileira dispõe, nesta altura do campeonato, atende pelo nome de voto útil.

Votar útil para tirar o inútil de lá sem mais demora.

Qual a lógica do cidadão comum prorrogar uma situação que só irá prejudicá-lo ainda mais?

Jogar a eleição para o segundo turno é dar força para que Bolsonaro intensifique suas mentiras, prossiga na destruição do Brasil e na chantagem contra a população. Jogar a eleição para o segundo turno é fazer coro com todos os oportunistas que querem se aproveitar dela para exigir de Lula conchavos e concessões. Jogar a eleição para o segundo turno é dar fôlego a ações ainda mais violentas do bolsonarismo.

Vale observar que a população está com medo, como mostra levantamento inédito elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao apurar que 67,5% dos entrevistados afirmam temer serem agredidos fisicamente em razão de sua escolha política ou partidária.

Derrotar Bolsonaro, por uma considerável margem de vantagem, já no primeiro turno, é também a segurança que se pode ter que sua tentativa golpista de melar o resultado das urnas não prosperará.
Derrotado, restará a Bolsonaro aguardar o acerto de contas com a Justiça.

Entendeu porque o voto útil desta vez é uma questão de sobrevivência para a maioria dos brasileiros ou ainda preciso desenhar?