Ângela Carrato- Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Bolsonaro e bolsonaristas planejavam impor ao nascente governo Lula e à recentemente recuperada democracia brasileira uma terrível derrota. Sonhavam eleger Rogério Marinho (PL-RN) para a presidência do Senado, encastelando-se num posto a partir do qual atacariam tanto o Executivo quanto o STF.

O plano envolvia criar todo tipo de embaraço, a começar pela convocação de uma CPI para analisar “abusos cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes”. Dentro deste contexto, o senador Sérgio Moro (União Brasil-PR) apresentaria projeto criando mandato com prazo definido para os ministros do STF. Teria início assim uma batalha para intimidar o Executivo e o STF, visando abrir negociação com Bolsonaro, setores militares e empresariais que estão por trás da fracassada tentativa de golpe em 8 de janeiro.

Outra trama golpista, tendo como centro gravar clandestinamente conversa com o ministro Alexandre de Morais, chegou a ser relatada pelo senador bolsonarista Marcos Do Val (Podemos-ES). Trama que ainda precisa ser esclarecida, uma vez que o dito senador, um ex-soldado, altera seu relato a cada nova entrevista.

A negociação pretendida pelos bolsonaristas atende pelo nome de anistia para quem cometeu atos terroristas, mas também para quem os planejou e financiou.

Como no Senado estão agora algumas das piores figuras do fascismo à brasileira – Damares, Moro e Mourão – contar com um dos seus na presidência da Casa faria toda a diferença.

O plano parecia perfeito e na terça-feira, véspera da eleição, muita gente, dentro e fora de Brasília, acreditava que a articulação seria bem sucedida.

De Orlando, nos Estados Unidos, onde se encontra numa espécie de refúgio, Bolsonaro não parou de articular um segundo sequer. Além de despachar para o Brasil a esposa Michelle, com instruções para a sua turma, buscou se aproximar de políticos e empresários da extrema-direita estadunidense.

A relação de Bolsonaro com Trump é próxima a zero. O que não significa que o ex-ocupante da Casa Branca deixe de lhe dar, vez por outra, uma mãozinha quando se trata de qualquer naco de poder. Talvez esteja aí a explicação para a fake news divulgada pelo Google na véspera da eleição, dando vitória a Marinho para o cargo.

No caso, tratou-se de uma fake news dupla: a empresa estadunidense gigante de buscas na internet antecipou em um dia a eleição e proclamou uma vitória que não havia ocorrido, como pode ser vista por todos na aba de pesquisa da plataforma.

No Twitter, outra plataforma estadunidense, usuários compartilharam prints que mostravam o erro no site de buscas e alegavam, com razão, que a notícia falsa poderia contribuir para desinformar e até influir no resultado da eleição.

O Google pediu desculpas pelo ocorrido e justificou como sendo “um erro do algoritmo”. Como algoritmo nada mais é do que uma operação matemática, o erro é humano. Não é a primeira vez que essas plataformas, também conhecidas como big techs, erram. O curioso é que erram sempre contra a democracia. No caso, o erro se torna mais estranho ainda quando se sabe das ligações de seus poderosos proprietários com bilionários em todo o planeta e, sobretudo, com o deep state estadunidense.

Não é novidade para ninguém que as big techs e suas plataformas têm estado no centro de praticamente todas as manifestações contra governos progressistas e democráticos no mundo (das equivocadamente chamadas Primaveras Árabes às Jornadas de junho de 2013, no Brasil, passando pelo golpe contra Evo Morales, em 2019, na Bolívia). Elas têm sido usadas (ou abrigam?) grupos de extrema-direita cujo objetivo é, a partir de aspectos da realidade de cada país, arregimentar adeptos e organizar manifestações nas ruas e nas redes.

O resultado é conhecido: governos legitimamente eleitos são substituídos por outros sem legitimidade, mas subservientes aos interesses dos bilionários.

Sem dúvida, a derrota de Marinho sepultou a ideia de um terceiro turno acalentada por Bolsonaro e pelos bolsonaristas, mas está longe de significar que a extrema-direita se dará por vencida.

Daí a importância de tanto o STF continuar investigando e prendendo os responsáveis pelos atos golpistas, quanto o próprio Executivo desmontar e trazer a público as falcatruas e maldades cometidas pelo governo Bolsonaro.

O genocídio envolvendo a etnia Yanomami, já denunciado pelo próprio presidente Lula, é um bom exemplo do que deve ser feito. A ida de Lula às terras Yanomami, usurpadas por mais de 20 mil garimpeiros ilegais, foi fundamental para mostrar a rapinagem, os crimes e as maldades de que foram vítimas. No Brasil e no mundo, muita gente ficou comovida com a situação de crianças indígenas magérrimas, famintas e doentes e de mulheres indígenas transformadas em verdadeiros esqueletos humanos.

Detalhe: o Facebook, outra das grandes big techs estadunidenses suspendeu e bloqueou usuários que postaram fotos da situação dos Yanomamis, por considerá-las atentado ao pudor. Até quando o Brasil e os brasileiros continuarão se submetendo à censura de uma empresa privada estrangeira?

Denúncias, comoção e a compaixão são muito importantes, mas um fato da gravidade dos Yanomamis não pode se resumir a isso. O governo Lula está agindo, seja levando comida e remédios para eles, seja determinando a imediata retirada dos invasores de suas terras. Mas é preciso ir além. É preciso, por exemplo, que seja investigado onde o dinheiro do garimpo ilegal foi parar. É preciso investigar, também, quem, no Brasil e no exterior, comprou o ouro retirado ilegalmente das terras Yanomamis. É preciso investigar quais empresas e empresários deram apoio a esses garimpeiros, pois eles dependeram de aviões, barcos, portos e transporte terrestre para suas atividades.

Essas indagações precisam se transformar em ação e o Congresso Nacional pode fazer isso, criando uma CPI para apurar os crimes cometidos contra os Yanomamis. Bem feita, uma apuração desta magnitude pode levar Bolsonaro e sua turma ao banco dos réus por genocídio, crime tipificado no Brasil e internacionalmente.

É por esta razão que Lula tem sido duro ao se referir a Bolsonaro. Não há perdão possível para ele e os fascistas, que destruíram e mataram com sorriso nos lábios, cinicamente em nome da pátria e de Deus.

P.S. O presidente Lula deve se encontrar, na próxima sexta-feira (10/2), com seu colega estadunidense, Joe Biden. O convite partiu de Biden, que gostaria de tê-lo encontrado antes mesmo da posse. Muitos são os assuntos que constam da pauta da conversa que terão com destaque para a América Latina. É sabido que Biden tentará, mais uma vez, arrastar o Brasil para o conflito na Ucrânia e Lula deixará claro que já tem problemas demais. Lula, por sua vez, tentará convencer Biden da urgência de se travar a guerra certa. Vale dizer: a guerra contra a extrema-direita mundial, os novos nazistas e fascistas espalhados por vários países, atendendo por nomes diversos. Aqui são os bolsonaristas. Lá, são os trumpistas. Seria uma ótima oportunidade, também, para Lula conversar com Biden sobre os gigantescos poderes das big techs e como elas têm ameaçado a democracia inclusive nos Estados Unidos. A invasão ao Capitólio que o diga. Daqui a dois anos tem eleição presidencial nos Estados Unidos e o pior que pode acontecer, para Biden e o partido Democrata, é uma vitória de Trump ou alguém assemelhado. A conversa entre Lula e Biden promete.