Faltando poucas semanas para o carnaval, a Acadêmicos de Niterói já se tornou um dos assuntos mais comentados da temporada. Recém-promovida ao Grupo Especial, a escola levará para a Marquês de Sapucaí um enredo que exalta abertamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem receio de assumir uma posição governista em pleno ano eleitoral.
O clima político que envolve o desfile foi antecipado há doze dias, durante uma solenidade no Rio Grande do Sul. Vestindo macacão laranja, o presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, utilizou o púlpito para elogiar o governo e defender a reeleição de Lula. “Mesmo diante das ameaças externas, estamos mais fortes”, afirmou, dirigindo-se diretamente ao presidente.
Em tom de comício, Bacci estimulou a plateia e provocou adversários políticos. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso voltem a comandar este país”, disse, antes de anunciar que recitaria “um pedacinho do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”. Em seguida, cantou versos como “Nosso sobrenome é Brasil da Silva” e “No Brasil, o amor venceu o medo”, pedindo vivas ao presidente que disputará um quarto mandato.
O samba da Acadêmicos de Niterói não economiza referências políticas. A letra glorifica a trajetória de Lula, destacando sua origem sindical e sua projeção internacional, além de citar duas vezes o número 13, tradicionalmente associado ao Partido dos Trabalhadores. A ausência de sutileza tem sido apontada como marca central do enredo.
Historicamente, o carnaval carioca já acolheu enredos alinhados ao poder. Ao longo das décadas, escolas receberam recursos públicos ou privados para promover governos, regimes e líderes estrangeiros. Ainda assim, o desfile da Niterói chama atenção por ocorrer com um presidente no exercício do cargo e às vésperas de uma eleição presidencial.
O próprio Lula já demonstrou simpatia pela homenagem. Ele recebeu dirigentes da escola, foi representado pela primeira-dama em visita à Cidade do Samba e é aguardado na Sapucaí no domingo de carnaval. Na última semana, parlamentares do PT aproveitaram o ensaio técnico da agremiação para gravar vídeos destinados às redes sociais.
A politização do desfile reacendeu debates sobre o uso de recursos públicos. Neste ano, a Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 6,5 milhões das prefeituras do Rio de Janeiro e de Niterói. O governo federal repassou mais R$ 1 milhão, valor equivalente ao destinado às demais escolas, por meio do Ministério da Cultura e da Embratur.
Para evitar problemas com a Justiça Eleitoral, a direção orientou os integrantes a não fazerem gestos associados à campanha. Ainda assim, o samba não disfarça sua mensagem política, exaltando o presidente, ironizando adversários e entoando versos como “Olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula”, sem medo de assumir seu lado.
Foto: Ricardo Stuckert/PR

