O criminalista Paulo Cunha Bueno, advogado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), apresentou uma nova linha de defesa ao afirmar que o principal beneficiado por um golpe de Estado não seria Bolsonaro, mas sim uma junta militar. Durante entrevista à GloboNews nesta sexta-feira (29), Bueno declarou que Bolsonaro seria traído pelos militares envolvidos no plano golpista.
“Quem seria o grande beneficiado? De acordo com o plano do general Mario Fernandes, seria uma junta militar criada após a execução do Plano Punhal Verde e Amarelo. Essa junta não incluía o presidente Bolsonaro. Não tem o nome dele lá. Quem assumiria o governo, caso esse plano terrível fosse adiante, não seria Bolsonaro, mas aquele grupo”, disse o advogado.
O documento apreendido com Mario Fernandes, ex-secretário-executivo da Presidência no governo Bolsonaro, detalhava o assassinato do então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por meio de envenenamento ou substâncias químicas que causassem colapso orgânico, explorando supostas vulnerabilidades de saúde do petista. Fernandes, três militares das Forças Especiais do Exército e um agente da Polícia Federal foram presos na semana passada sob acusação de envolvimento na trama golpista.
O relatório da Polícia Federal, que levou ao indiciamento de Bolsonaro e outras 36 pessoas, aponta que o ex-presidente tinha conhecimento do plano de assassinar Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro Alexandre de Moraes, do STF. No entanto, Bueno negou essa acusação, afirmando que “a trama nunca chegou ao conhecimento” de seu cliente.
Bueno também argumentou que Bolsonaro não teria denunciado o plano porque, segundo ele, as abordagens para golpe eram infundadas e não contavam com a anuência do ex-presidente. O advogado acrescentou que propostas como essa são “frequentes para quem ocupa cargos de liderança”.
O advogado descartou a possibilidade de prisão de Bolsonaro. “Não faria sentido que houvesse algum tipo de prisão. Espero que meu cliente seja julgado por uma corte imparcial, não por desafetos pessoais”, declarou Bueno.
Em reação ao indiciamento, Bolsonaro utilizou as redes sociais para criticar o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela relatoria do inquérito. O ex-presidente acusou Moraes de conduzir o processo de forma arbitrária, ajustando depoimentos e realizando o que chamou de “pesca probatória”.
“O ministro Alexandre de Moraes conduz todo o inquérito, ajusta depoimentos, prende sem denúncia, faz pesca probatória e tem uma assessoria criativa. Faz tudo o que a lei não permite”, escreveu Bolsonaro.
Em entrevista coletiva na última segunda-feira (25), Bolsonaro afirmou que nunca discutiu a possibilidade de um golpe de Estado e que todas as medidas consideradas em seu governo foram “dentro das quatro linhas da Constituição”. Ele também minimizou a viabilidade do plano, declarando que “ninguém dá golpe com um general da reserva e meia dúzia de oficiais”.
Bolsonaro reforçou que a palavra golpe “nunca esteve em seu dicionário” e que os problemas do Brasil podem ser resolvidos dentro dos limites constitucionais. “Não faço e jamais faria algo fora das quatro linhas. Dá para resolver tudo respeitando a Constituição”, concluiu.
As investigações seguem em andamento, e o relatório da Polícia Federal, que imputa crimes ao ex-presidente e outros envolvidos, será analisado pela Procuradoria-Geral da República para determinar os próximos passos do processo.
Foto: Marcos Corrêa/PR

