Imagine uma lavoura cultivada no mesmo espaço onde crescem árvores de grande porte, como uma plantação de milho desenvolvendo-se à sombra de uma castanheira-do-pará. Essa combinação, que une produção agrícola à preservação ambiental, é hoje reconhecida por especialistas do clima, pesquisadores, ambientalistas e defensores da agroecologia como um dos modelos mais promissores para reduzir os efeitos das mudanças climáticas, fortalecer a resiliência dos ecossistemas e ampliar a sustentabilidade produtiva. Trata-se do sistema de agrofloresta, um método de uso da terra que integra culturas agrícolas, espécies arbóreas e vegetação nativa em um único ambiente planejado, equilibrado e capaz de reproduzir a lógica da própria natureza.

A agrofloresta, também chamada por muitos estudiosos de “floresta em pé”, baseia-se na reconstrução de ambientes produtivos sem recorrer à lógica do monocultivo e à dependência de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Em vez disso, busca-se criar sistemas biodiversos, onde cada planta desempenha uma função ecológica específica, colaborando para a saúde do solo, para a reposição de nutrientes e para a manutenção da umidade. Esse arranjo permite que lavouras convivam com árvores que fornecem sombra, matéria orgânica e raízes profundas capazes de captar água em camadas subterrâneas, protegendo culturas agrícolas em períodos mais severos de estiagem.

Um dos pontos centrais desse sistema é sua contribuição para a redução da emissão de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera. Com o avanço acelerado do desmatamento e da queima de combustíveis fósseis, o planeta tem experimentado aumentos significativos na concentração de gases de efeito estufa, responsáveis por intensificar o aquecimento global e provocar eventos extremos como enchentes, ondas de calor e longas secas. A matemática por trás da agrofloresta é simples: quanto mais árvores vivas e sistemas florestais preservados ou restaurados, maior é a capacidade de absorção de carbono, diminuindo a quantidade de gás nocivo lançada na atmosfera.

Em entrevista ao podcast “S.O.S! Terra Chamando!”, o engenheiro agrônomo Moisés Savian, secretário do Ministério do Desenvolvimento Agrário, explicou que a agrofloresta atua simultaneamente na mitigação e na adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Segundo ele, “quando eu estou diminuindo a emissão de carbono, eu estou mitigando”. Savian exemplifica: um pasto degradado ou “ralinho” pode ser transformado em agrofloresta e, assim, ajudar a retirar o carbono em excesso da atmosfera. Além disso, culturas vulneráveis à seca, como o milho, podem se beneficiar da convivência com árvores de raízes profundas, que aumentam a disponibilidade de água no solo. “O milho se beneficiará da captação de água de uma castanheira, por exemplo”, afirma o agrônomo.

Savian enfatiza ainda que a agrofloresta não se resume à proteção climática; ela também integra produção de alimentos e geração de renda, tornando-se ferramenta crucial para o enfrentamento da fome e para a criação de sistemas agrícolas mais justos.

Durante as discussões recentes da COP 30, realizada em Belém, o conceito de “floresta produtiva” ganhou destaque internacional. Para o cientista do clima Carlos Nobre, os povos indígenas são referências históricas na convivência sustentável com a floresta. Ele explica que “os indígenas chegaram na Amazônia 12, 14 mil anos atrás, e sempre utilizaram o conhecimento muito bem para tudo”, desde alimentação até o uso medicinal e o transporte. Ele lembra que esses povos conhecem mais de 2,3 mil produtos da biodiversidade e dominam sistemas de cultivo profundamente harmonizados com o ambiente.

Embora milenar, a prática tem se expandido modernamente por meio de voluntários, agricultores, redes de cooperação e programas educacionais. Um exemplo ocorre em Botuporã, pequena cidade da Bahia. Lá, um consórcio iniciado em 2021 com comunidades francesas da região de Alsácia do Norte estimula agricultores, jovens e voluntários a aprofundar conhecimentos sobre sustentabilidade e técnicas agroecológicas. Esse intercâmbio possibilitou, por exemplo, que o estudante de Direito Yago Fagundes realizasse uma imersão em agroecologia na França. Ele relata que “na França, vivenciei essa prática de perto, participei da construção de cercas vivas e projetos de plantio em escolas”.

Yago também destaca que a agroecologia aumenta a capacidade do solo de reter água e se torna aliada no enfrentamento às mudanças climáticas. Para ele, “a agroecologia usa a teia do voluntariado para criar solidariedade internacional”, contribuindo para fortalecer comunidades e proteger o planeta.

A via contrária também acontece: voluntárias francesas passaram meses em Botuporã aprendendo técnicas brasileiras de agricultura orgânica. Hervé Tritschberger, prefeito da cidade francesa de Eschbach, afirma que Brasil e França vivem realidades diferentes, mas compartilham um objetivo comum: desenvolver sistemas de produção sustentáveis. Para ele, o intercâmbio permite questionar práticas agrícolas baseadas em agrotóxicos e incentivar novos circuitos produtivos que atendam à vontade de consumidores que buscam alimentos limpos e saudáveis.

Os resultados dessa troca foram reunidos em um livro lançado no Festival Nosso Futuro, em Salvador, consolidando aprendizados de ambos os países.

A força da agroecologia também aparece nas experiências individuais. O jornalista e divulgador científico Wylliam Torres, morador do Rio de Janeiro, relata que aprendeu sobre plantio familiar no quintal de casa com sua avó e bisavó. Ele explica que “a primeira referência em agroecologia foi o quintal da minha avó”, associando o cultivo de alimentos ao resgate cultural, à sabedoria ancestral e ao senso de comunidade. Para Torres, ser ambientalmente responsável é “lutar pela vida na Terra e preservá-la”.

Ele reconhece, no entanto, que não existe solução isolada para enfrentar a crise climática. Segundo Wylliam, “cada atitude que visa contrapor a lógica exploratória do agronegócio é um ato revolucionário”, defendendo que ações individuais e coletivas devem se complementar para formar um movimento mais amplo.

O avanço das discussões na COP 30 reforçou a importância do modelo agroflorestal. Savian afirma que “a COP foi muito positiva para o Brasil”, porque permitiu apresentar ao mundo uma agenda de florestas produtivas que combina preservação, geração de renda e aumento da cobertura florestal. Para ele, a agricultura resiliente e de baixo carbono será essencial para enfrentar secas e enchentes cada vez mais frequentes.

Savian aponta que o Brasil possui vastas extensões de áreas degradadas e pastagens subutilizadas, que podem ser restauradas por meio de agroflorestas e sistemas produtivos biodiversos. Ele explica: “nós temos muita pastagem que não está produzindo alimentos e não está servindo para a questão ecológica”. A restauração produtiva — transformar áreas degradadas em agroflorestas — aparece como caminho promissor para recuperar ecossistemas sem abrir novas fronteiras de desmatamento.

O secretário destaca ainda a necessidade de apoio financeiro, tanto internacional quanto interno. Países desenvolvidos devem colaborar com recursos para projetos climáticos, e o Brasil precisa ampliar linhas de crédito agrícola que permitam capacitar pequenos agricultores na implementação de sistemas agroflorestais.

Mas Savian chama atenção para um desafio decisivo: conquistar os consumidores. Ele explica que uma das barreiras é o custo. Muitas famílias brasileiras vivem com orçamento limitado e têm dificuldade para comprar alimentos de maior valor agregado. Ele relata que uma rede internacional de supermercados tem criado seções chamadas “produtos da floresta”, mas enfrenta desafios logísticos, como prazos longos de pagamento. Para Savian, a iniciativa de pagamento antecipado adotada por essa rede é um passo importante para valorizar agricultores e fortalecer a cadeia sustentável.

Segundo ele, a participação ativa do mercado consumidor pode ser o elemento que falta para transformar práticas sustentáveis em realidade econômica concreta. Para isso, é necessário unir governo, produtores, consumidores e empresas.

Savian conclui que a “Floresta em Pé” pode fazer parte essencial da solução climática global. Ele compara o processo a um tratamento contínuo: “não é um remédio que resolve de um dia para o outro, mas uma dose homeopática tomada de forma contínua”. Para o secretário, combinar restauração florestal, combate ao desmatamento, agricultura de baixo carbono e reorganização do uso da terra é a forma mais eficaz de enfrentar a emergência climática que já impacta o planeta.

Foto: Yago Fagundes/Divulgação


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