Por Mauro Ferreira

Título: Casa Ramil ao vivo

Artistas: Gutcha Ramil, Ian Ramil, João Ramil, Kledir Ramil, Kleiton Ramil, Thiago Ramil e Vitor Ramil

Edição: Biscoito Fino

O álbum Casa Ramil ao vivo abriga mais de 50 anos de música se for levado em conta que, em 1971, os irmãos Kleiton Ramil e Kledir Ramil já aglutinavam amigos em cantoria que, a partir de 1975, geraria oficialmente o grupo Almôndegas, pioneiro na criação de pop gaúcho que combinava referências dos sons tradicionais do sul do Brasil com rock e outros ritmos do universo pop.

Dissolvido o grupo em 1979, Kleiton & Kledir formaram dupla que amplificaram o pop gaúcho para o Brasil na primeira metade dos anos 1980 enquanto o irmão Vitor Ramil pavimentava paralelamente carreira solo calcada em incursão refinada pelas milongas e por cancioneiro mais cool com estilo batizado pelo próprio Vitor de A estética do frio.

Registro do show coletivo do clã de Pelotas (RS), em encontro cênico idealizado pela produtora Branca Ramil – irmã de Kleiton, Kledir e Vitor – e captado em março de 2018 na apresentação feita pela família no Theatro São Pedro, em Porto Alegre (RS), o álbum Casa Ramil ao vivo irmana o trio de cantores com a segunda geração musical dos Ramil.

Com o trio famoso, entram em cena Gutcha Ramil (voz, percussão, rabeca e harmonium), Ian Ramil (voz, violão de aço, sax, percussão, monotrom e harmonium), João Ramil (voz, percussão e baixo) e Thiago Ramil (voz, baixo, violão de aço, guitarra, controladora midi e efeitos eletrônicos), cantores e compositores que transitam por universos musicais mais contemporâneos, antenados com a estética musical do século XXI, com boa dose de experimentação no caso específico de Ian, saudado por álbuns como Derivacivilização (2015) e o recente Tetein (2023).

O mérito do show é jamais submeter a segunda geração ao cancioneiro dos antecessores mais conhecidos. Em bom português, o álbum Casa Ramil ao vivo foge da armadilha de ser coletânea de sucessos de Kleiton & Kledir ou de Vitor Ramil (voz, violão de aço, viola, sax, percussão, harmonium e controladora midi).

Nas 12 músicas alocadas nas 15 faixas do disco (o repertório é entrecortado por benzedura da avó Branca Pons Ramil e por falas de Kleber Pons Ramil e Dalva Alves Ramil, representantes mais antigos da família), há amostras das obras de todos, mas sem individualismos.

Tanto que o sucesso seminal de Vitor, Estrela, estrela (1981), se ilumina com o canto coletivo da família. Em outro momento de interação entre gerações, João Ramil faz a voz solo de Vira virou (Kleiton Ramil, 1980).

Entre as boas-vindas dadas com a música inédita que abre e batiza o show / disco, Casa Ramil (Vitor Ramil), e a melancolia da milonga Deixando o pago (Vitor Ramil sobre poema de João da Cunha Vargas, 1997), que arremata o disco com cada membro da família entoando um verso, o clã se une para fazer a festa gaúcha em Noite de São João (Kledir Ramil e Pery Souza, 1981) e para refazer o perfil de Kleiton & Kledir em Autorretrato (Kleiton Ramil e Kledir Ramil, 2009).

Nesse espírito de congraçamento que rege o disco, talvez passe despercebido o requinte de que o registro vocal mais grave da abordagem da canção Amora (Thiago Ramil, 2015) cai justamente no verso “Sou profundo no mundo, pulso a gravidade”.

Irmanado em cena e também fora dela (são sete integrantes da família no palco e outros quatro em ação nos bastidores do show), o clã Ramil ameniza diferenças estilísticas em nome de união que alicerça Casa Ramil.


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