Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Há muito tempo os setores progressistas e a esquerda brasileira não tinham tantos e tão bons motivos para se alegrarem.
A série de entrevistas com os principais candidatos à presidência da República, realizada pela TV Globo, cujo objetivo não declarado era levantar a bola para Ciro Gomes e Simone Tebet e complicar a vida para o ex-presidente Lula, deu errado.
Um grupo de empresários golpistas que começava a tramar contra a provável vitória de Lula foi descoberto. A Polícia Federal fez busca e apreensão em seus escritórios, além de bloquear suas contas bancárias e redes sociais.
A tentativa de Bolsonaro de se apropriar do 7 de setembro, data da independência nacional, para fazer proselitismo e estimular seus apoiadores mais cegos – também conhecidos como “gado” -, a atos contra a democracia, subiu no telhado.
A campanha eleitoral, que já estava nas ruas e nas redes sociais, chegou ao rádio e à televisão, com a coligação de partidos que apoia Lula contando com o maior tempo diário.
Na paisagem das principais cidades e capitais brasileiras começam a prevalecer tendas pela democracia, comitês populares, comitês Lula, bandeiras, camisetas e toalhas nas janelas com fotos do ex-presidente.
A TV Globo bem que tentou vender a imagem de que iria jogar duro com todos os candidatos, a começar por Bolsonaro. Tanto que “vazou” a informação de que se ele insistisse em ser entrevistado no Palácio do Planalto, a entrevista não ocorreria.
Aparentemente, Bolsonaro teria afinado e aceitado as regras da emissora. Na prática, aconteceu o contrário. Quem afinou foi a Globo. Ao aceitar imposições de Bolsonaro, a entrevista acabou comprometendo qualquer seriedade que pudesse ter.
A família Marinho aceitou que Bolsonaro não fosse alvo de pergunta envolvendo suspeita de corrupção em relação a seus filhos, esposa, ex-esposa e amigos. Foi por isso que o respeitável público do Jornal Nacional não viu, na entrevista que Willian Bonner e Renata Vasconcellos fizeram com ele, qualquer questão sobre “rachadinhas”, loja de chocolates, cheque de R$ 89 mil depositado por Queirós na conta da Michelle. Não ouviu, igualmente, nenhuma pergunta envolvendo a compra, por um dos seus filhos, de mansão em Brasília, no valor de R$ 6 milhões.
Por via das dúvidas, na colinha que escreveu na palma da mão para a entrevista, Bolsonaro incluiu o nome do doleiro Dario Messer, conhecido por levar sacos com dólares para a família Marinho, na sede da TV Globo, no aprazível bairro do Jardim Botânico. Possivelmente essa tenha sido a razão pela qual não ocorreu a Bonner e nem a Renata questionar Bolsonaro sobre liberdade de expressão, logo ele que, além de ameaçar jornais e jornalistas, disse várias vezes que poderia não renovar a concessão da própria Globo, que vence em 5 de outubro.
Na prática, Bolsonaro derrotou a Globo, saindo do debate sem ter sido efetivamente confrontado em nenhuma das dezenas de mentiras que repetiu e, acima de tudo, com um atestado de idoneidade. Em breve as redes sociais bolsonaristas estarão povoadas por referências à emissora “inimiga” que não conseguiu apontar nenhuma corrupção em seu governo.
Já na entrevista com Ciro Gomes, Bonner e Renata permitiram que ele tivesse todo o tempo para falar sobre seus projetos mirabolantes, desde que criticasse mais Lula do que Bolsonaro e fizesse um patético apelo para que os eleitores joguem a disputa para o segundo turno, o maior sonho que a família Marinho acalenta no momento.
Mas se Bonner e Renata foram tchutchucas com Bolsonaro, a tentativa de serem tigrões com Lula deu errado. Apesar de terem aberto a entrevista com perguntas sobre corrupção, tentando encostar o ex-presidente na parede, Lula deu um baile neles. Os dois entrevistadores ficaram de boca aberta com a fala de Lula, especialmente quando contou que quando presidente, durante viagem à Índia, mesmo tendo ficado sabendo que a casa de seu irmão (o que morreu quando ele estava preso) iria ser alvo de busca pela Polícia Federal não fez nada para impedir. Após alguns minutos, Bonner foi obrigado a admitir que “o senhor não deve nada à Justiça”.
È importante lembrar que a TV Globo, mais especificamente o Jornal Nacional, teve papel fundamental para endeusar a Operação Lava Jato, transformar os agora desmoralizadíssimos ex-juiz Sérgio Moro e ex-procurador Deltan Dallagnol, em “heróis no combate à corrupção”, além, de ter sido igualmente essencial para a vitória do golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff e a condenação sem provas e prisão do ex-presidente Lula. A Globo foi também fundamental para a vitória de Bolsonaro em 2018 e para a sua permanência no poder. Vale lembrar que assuntos como os mais de 130 pedidos de impeachment contra Bolsonaro nunca foram notícia nos veículos da família Marinho.
Se existiu um consenso sobre essa série de entrevistas é o de que Lula deu um show, uma verdadeira aula de conhecimento, competência e compromisso com o Brasil. Mesmo sem querer, a família Marinho aproximou ainda mais Lula da vitória no primeiro turno.
Claro que os golpistas, incluindo uma parcela do empresariado e da própria mídia corporativa estão longe de se dar por vencidos. A ação do ministro Alexandre de Morais e da Polícia Federal desbaratando o esquema dos empresários foi igualmente da maior importância. Mas é preciso observar como parcela desta mídia tomou as dores desses empresários, indicando que os interesses dessa turma continua prevalecendo sobre os da maioria da população brasileira.
Se um golpe nos moldes da invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, patrocinado por Trump para contestar o resultado das eleições, parece descartado por aqui, não se deve baixar a guarda.
Direita e extrema-direita tudo farão para levar as eleições para o segundo turno. Esperam, com isso, tentar fragilizar o possível governo Lula, uma vez percebendo que está muito difícil impedir sua vitória. Lula, por sua vez, precisará de muita força nesta reta final de campanha, para tentar ganhar no primeiro turno e não precisar se sujeitar a alianças indigestas.
As próximas semanas prometem muita emoção.
