Angela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
As recentes operações e revelações da Polícia Federal, junto com o documento do ministro do STF, Alexandre de Moraes, além de relatarem, com enorme precisão, a estrutura golpista articulada por Jair Bolsonaro, serviu para fechar o cerco sobre ele e alguns de seus principais colaboradores, militares e civis.
O resultado foi um Bolsonaro desesperado e visivelmente com medo de ser preso. Razão pela qual decidiu apelar para o apoio de sua turma, a fim de evitar o pior.
O resultado é o ato golpista, absurdamente denominado pelos golpistas como “em defesa da democracia”, que está sendo convocado para o domingo (25/2), na avenida Paulista.
Articulado pelo empresário-pastor Silas Malafaia, oportunista e bolsonarista de primeira hora, o ato tem como objetivo demonstrar força e mobilizar os apoiadores do ex-capitão.
O ato, no entanto, pode ter efeito contrário e acelerar a prisão do próprio Bolsonaro e da turma que atua ao seu redor.
Se a situação para ele já estava ruim, piorou bastante na última semana. Tanto que ele próprio não deverá comparecer ao tal ato. O que não o livra das consequências que a manifestação vier a ter.
Numa democracia, como é o caso do Brasil nos dias atuais, as manifestações são livres. Desde que não atentem contra o estado de direito e a própria democracia. Nesse sentido, não basta dizer que está defendendo a democracia. É preciso que isso tenha equivalência em atos e palavras.
Daí a pergunta: o que os golpistas vão dizer em nome e em defesa da democracia?
Não vão poder exigir “intervenção militar” e muito menos “prisão de ministros e fechamento do STF”. Não vão poder questionar a “legitimidade das eleições”, as urnas eletrônicas e a estabilidade democrática.
De pouco adiantará falar em “perigo vermelho”, com o ex-presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, ídolo dos golpistas, podendo ir parar na cadeia, pela primeira vez na história daquele país.
Os golpistas daqui não vão poder alegar que Bolsonaro está sendo perseguido.
Não vão conseguir minimizar a existência da ABIN paralela, que monitorava inclusive aliados de Bolsonaro.
Não vão poder dizer que familiares e colaboradores de Bolsonaro estão sendo perseguidos.
Não faltam provas, cada dia mais robustas e abundantes, sobre os malfeitos desta família.
O filho mais novo, Jair Renan, conhecido como 04, terminou a semana indiciado por lavagem de dinheiro, numa sociedade comercial no mínimo estranha. Ele é aquele jovem que, do nada, surgiu como o proprietário de uma mansão em Brasília, sem que os seus rendimentos sejam suficientes para tanto.
O próprio Bolsonaro teve mais uma de suas tramas descobertas pela PF. Nos últimos dias de dezembro de 2022, antes de viajar para os Estados Unidos a fim de não passar a faixa presidencial para Lula, ele enviou para o exterior R$ 800 mil.
O COAF bolsonarista daquela época não deu importância ao fato, mas ele acabou descoberto.
Não é ilegal enviar dinheiro para o exterior, mas chama atenção o valor e o momento em que isso aconteceu.
O que Bolsonaro pretendia: garantir recursos para uma eventual fuga ou dar apoio à rede golpista?
Ao todo, Bolsonaro tem pela frente mais de uma dúzia de processos, envolvendo desde golpismo propriamente dito até a negligência com que atuou durante a epidemia de covid-19. No meio jurídico não falta quem garanta que ele terá pena de, no mínimo, 20 a 30 anos.
Seus outros três filhos, todos com mandatos parlamentares, não estão em situação melhor. Carluxo, o vereador federal, é considerado o mentor do “Gabinete do Ódio”. Eduardo e Flávio, por sua vez, estão metidos em negócios nebulosas e muito próximos de milicianos.
Já a esposa de Bolsonaro, Michelle, chegou a anunciar que iria para os Estados Unidos, tão logo ficou sabendo que o marido tinha 24 horas para entregar o passaporte.
Ela acabou dizendo que mudou de ideia e que ficaria neste momento difícil. Uma mudança tão radical foi espontânea ou por pressão?
Por tudo isso, não se sabe se o ato do próximo dia 25 contará com a presença de algum familiar de Bolsonaro ou a defesa do ex-capitão ficará a cargo de parlamentares e de alguns apoiadores como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Questionado se iria comparecer, Tarcísio disse que sim, mas nada o impede de desistir na última hora, dependendo do rumo que tomarem os acontecimentos.
Outro governador de extrema-direita, Romeu Zema, ainda não se manifestou, mas a situação dele complicou-se bastante depois que o STF lhe deu cinco dias para explicar a decisão de não exigir comprovante de vacina contra covid-19 para os jovens se matricularem na escola pública.
Valendo-se da imbecilidade que lhe é peculiar, Zema tentou justificar com o argumento de que o jovem precisa da escola para decidir sobre vacinar ou não. Mais negacionista, impossível, num país em que 700 mil pessoas morreram de covid e pelo menos um terço dessas mortes poderia ter sido evitada graças à vacina.
Outro governador bolsonarista que continua calado é o do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, cada dia mais às voltas com os desmandos da turma do ex-capitão que atua no seu entorno.
Outro aspecto que pode acelerar a prisão de Bolsonaro e de familiares são as fake news que voltaram a circular com força. Fake news que já foram desmascarados, mas que os bolsonaristas insistem em colocar outra vez na roda.
Como os principais golpistas – civis e militares – estão sendo monitorados, este tipo de ação pode conduzi-los à prisão preventiva.
Para ampliar ainda mais o desespero dos golpistas, aquela conversa de um casal que dizia que quebrou tudo em Brasília no 8 de janeiro, porque o pastor mandou, não cola. Para cada um deles, o ministro Alexandre de Moraes pediu 17 anos de prisão.
Dizer que fez porque o outro pediu ou mandou é tão absurdo quanto o “apenas cumpri ordens” dos militares durante a ditadura (1964-1985).
Será que ainda existe “gado” tão fanatizado pelos pastores a ponto de fazer o que for mandado, sem pensar nas consequências?
Se tiver, pode ser alvo de prisão preventiva, por distúrbio da ordem.
A decisão é deles, porque na democracia é assim que funciona.
Da nossa parte, cabe encomendar pipoca e não aceitar provocações.
2024 está apenas começando.

1 Comentário
Os comentários estão fechados.