O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta quarta-feira (27) que os impactos da recente ampliação do crédito consignado para trabalhadores celetistas ainda não foram incorporados nas projeções econômicas da instituição. A declaração foi feita durante coletiva de imprensa para apresentação do Relatório de Política Monetária referente ao primeiro trimestre deste ano.
“Não consideramos ainda, nas nossas projeções, o impacto do consignado privado. Desde o lançamento, temos observado estimativas variadas. Ainda há incerteza sobre o quanto isso representa um novo fluxo de crédito ou apenas substituição de dívidas antigas por novas, e como isso vai se desdobrar ao longo do tempo”, explicou Galípolo.
A nova modalidade de consignado foi instituída por medida provisória em 12 de março, com a criação do Programa Crédito do Trabalhador na Carteira Digital de Trabalho. A medida contempla trabalhadores com carteira assinada na iniciativa privada, incluindo empregados domésticos, trabalhadores rurais e contratados por microempreendedores individuais (MEI). Segundo o governo, até 47 milhões de pessoas podem ser beneficiadas com acesso a crédito mais barato.
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, até as 17h do dia 25 de março, foram feitas mais de 64,7 milhões de simulações e mais de 8,7 milhões de pedidos de crédito. Ao todo, 48.170 pessoas contrataram R$ 340,3 milhões nessa nova linha de empréstimo. O valor médio por trabalhador foi de R$ 7.065,14, com prazo médio de 21 meses e parcelas de R$ 333,88.
Para Galípolo, o programa atua mais como uma solução estrutural do que conjuntural. “Trata-se de uma agenda mais antiga, voltada à substituição de crédito de alto custo por alternativas de menor custo”, disse.
Durante a coletiva, o BC também divulgou projeções atualizadas para o cenário macroeconômico do país. A expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2025 foi revisada de 2,1% para 1,9%. Ao mesmo tempo, a previsão de inflação para o mesmo ano subiu de 4,5% para 5,1%, permanecendo acima do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.
O relatório destaca que a inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, passou de 4,87% em novembro para 5,06% em fevereiro. Segundo a autoridade monetária, a economia aquecida continua a pressionar os preços e torna mais difícil o retorno da inflação à meta. O BC projeta que essa convergência só deve ocorrer no segundo semestre de 2027.
“O Banco Central reconhece que, no curto prazo, teremos de conviver com uma inflação acima da meta”, admitiu Galípolo.
Na semana anterior, o Comitê de Política Monetária (Copom) havia decidido elevar a taxa Selic em 1 ponto percentual, levando-a a 14,25% ao ano. Em comunicado, o Copom alertou para incertezas no cenário externo, principalmente em função da política comercial internacional, e questionamentos sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.
Em relação ao Brasil, o Copom observou que, apesar de alguns sinais de desaceleração, a economia continua aquecida. Para a reunião de maio, o Comitê sinalizou que, embora ainda haja necessidade de ajustes, a elevação da Selic deverá ocorrer “em menor magnitude”.
Galípolo reforçou a complexidade do cenário: “Vamos caminhar com uma taxa de juros elevada e uma inflação persistente acima da meta. Essa será a realidade no curto e médio prazo.”
Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

