O “convite”, feito pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao ministro Alexandre de Moraes para ser seu vice em 2026 gerou forte reação entre apoiadores e aliados políticos. A declaração, feita em tom de brincadeira durante o depoimento de Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF), foi considerada inadequada por parte da base bolsonarista, que expressou seu descontentamento nas redes sociais.

Ao final da sessão, transmitida nesta terça-feira, Bolsonaro disse: “Gostaria de convidá-lo para ser meu vice em 2026″. O ministro Moraes, relator da ação penal sobre a trama golpista, respondeu prontamente: “Declino“. O episódio provocou risos na sala, mas foi recebido com críticas por diversos aliados que acompanhavam o depoimento à distância.

Entre os mais veementes esteve o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que chamou a atitude de “otária” e afirmou ter se decepcionado por ter acreditado no ex-presidente. No X (antigo Twitter), Weintraub escreveu: “Bolsonarismo virou uma lepra rastejante, covarde, mentirosa e calhorda”, acrescentando que jamais pediu desculpas por suas declarações e reiterou seu distanciamento da estratégia atual do grupo.

Também crítico, o jornalista Paulo Figueiredo, atualmente nos Estados Unidos e denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por envolvimento na trama golpista, considerou o desempenho de Bolsonaro ruim e pouco preparado. Durante uma live transmitida logo após o depoimento, Figueiredo afirmou que o ex-presidente errou ao pedir desculpas a Moraes e que a comparação com Jesus Cristo seria mais apropriada para ilustrar a situação.

“Pensem na imagem de Cristo sendo julgado pelo Sinédrio e por Pôncio Pilatos. Bolsonaro deveria estar ali como alguém injustamente levado para o calvário. Imaginem se Cristo tivesse convidado Pilatos para ser vice-rei. É algo que não se faz. Ver Bolsonaro pedindo desculpas quase como um pedido de misericórdia foi um erro tremendo”, declarou.

Diante das críticas, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) saiu em defesa do pai. Em uma postagem no X, ele argumentou que o comentário foi claramente uma ironia: “Qualquer pessoa com dois neurônios entendeu que era ironia. A última pessoa no planeta que seria escolhida para vice do meu pai seria o Moraes.” O deputado ainda destacou que o momento serviu para reforçar a intenção do ex-presidente de disputar as eleições de 2026.

Paulo Figueiredo respondeu à justificativa de Eduardo durante a live. Para ele, a piada foi feita em um momento errado e sem qualquer graça, ressaltando que Moraes teria “destruído” sua vida pessoal e o estaria impedindo de retornar ao Brasil.

Outros usuários das redes sociais também se manifestaram contra o tom adotado por Bolsonaro. “Sinceramente, Eduardo, todos estamos vendo os absurdos deste circo, mas qual a imagem que isso passa para o mundo com uma tradução simultânea desse tipo de ‘brincadeira’?”, escreveu um internauta. “Não era hora de piada, muito menos essa aí,” comentou outro. “Ele tem maturidade política, mas, a meu ver, não honrou o sacrifício de todos que sofrem com o desmando do STF, inclusive o seu,” acrescentou uma apoiadora.

Em contrapartida, o blogueiro Allan dos Santos, também considerado foragido da Justiça brasileira, defendeu o comportamento do ex-presidente. Em sua live após a audiência, Allan afirmou que Bolsonaro agiu conforme seu perfil pessoal: “Quem conhece o Bolsonaro sabe que ele é assim mesmo. Não é do tipo que, em situações difíceis, posa de vítima. Ele prefere rir da situação.”

O episódio evidenciou o desgaste e as divisões dentro do bolsonarismo. Enquanto parte da base vê no tom mais conciliador de Bolsonaro um sinal de fraqueza ou rendição, aliados mais próximos buscam reforçar que a ironia foi uma tática do próprio estilo do ex-presidente.

A repercussão nas redes demonstra que o episódio do “convite” ampliou fissuras já existentes entre diferentes grupos que compõem o bolsonarismo. O depoimento de Bolsonaro, que poderia ter servido para reafirmar uma postura firme diante do STF, terminou alimentando controvérsias entre seus apoiadores e oferecendo munição para seus críticos.

Foto: Fellipe Sampaio/STF

 


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