Depois de adotar um discurso mais ameno durante seu interrogatório no Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito do inquérito sobre tentativa de golpe, o ex-presidente Jair Bolsonaro se prepara para retomar o tom agressivo contra o Judiciário. Aliados próximos afirmam que a postura moderada foi pontual e que Bolsonaro voltará à retórica combativa que marca sua relação com o Supremo, especialmente com o ministro Alexandre de Moraes.
A mudança de tom já começou nos últimos dias, com críticas à condução dos processos e acusações de perseguição política. A expectativa é de que o tom suba ainda mais no próximo dia 29, quando Bolsonaro será a principal figura em um ato organizado pelo pastor Silas Malafaia na Avenida Paulista. O evento, intitulado “Justiça Já”, terá como foco a defesa da anistia para acusados de participação em atos golpistas.
“Escolhemos esse mote porque todo esse processo contra Bolsonaro é um abuso. Uma vergonha”, afirmou Malafaia. Segundo ele, a mobilização dos apoiadores é essencial para pressionar por um “julgamento justo”, que, na sua visão, signifique a absolvição do ex-presidente.
Durante o interrogatório, Bolsonaro surpreendeu ao manter um comportamento contido, chegando até a brincar com Alexandre de Moraes, sugerindo-o como vice em uma chapa presidencial em 2026. Mas, segundo um parlamentar próximo, “aquele modelito já está aposentado”. A avaliação no entorno de Bolsonaro é que a base mais fiel não aprovou a postura branda.
Apesar de estar inelegível até 2030, após duas decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro publicou nas redes que saiu do STF “tranquilo e mais confiante” para voltar à Presidência. “Serei o próximo presidente da República para tirar o país dessa bagunça”, escreveu.
Entre aliados, no entanto, o otimismo é visto como retórico. Para manter sua relevância política, Bolsonaro voltou imediatamente a viajar pelo país, criticar o Judiciário e insistir na narrativa de que é vítima de perseguição. Nos eventos, ele tem reforçado a ideia de que a delação de Mauro Cid foi baseada em “mentiras fabricadas”, principalmente após virem à tona conversas atribuídas a Cid e ao advogado de Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro.
Além disso, manter-se moderado não condiz com o estilo do ex-presidente nem agrada sua militância mais radical. Uma pesquisa da AP Exata mostrou que, após o interrogatório, a base bolsonarista reagiu mal à postura contida, levando até Eduardo Bolsonaro a alegar que o pai apenas estava sendo “irônico”.
Aliados reconhecem que, mesmo inelegível, Bolsonaro precisa manter a lealdade de sua base. “Ele pode perder em muitos campos, mas não pode abrir mão de quem ainda o sustenta”, disse uma fonte ligada ao PL. Esses apoiadores, mesmo sem poder votar nele em 2026, mantêm sua influência viva no debate público.
Essa estratégia tem surtido efeito. Segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta semana, pela primeira vez desde 2022, a porcentagem de brasileiros que se identificam como bolsonaristas (35%) empatou com a dos que se dizem petistas (também 35%). Em abril, os apoiadores de Lula somavam 39% e os de Bolsonaro, 31%.
O cenário mostra que, mesmo fora da disputa, Bolsonaro segue como peça central na polarização política brasileira.
Foto: Antônio Augusto/STF

