A operação de repatriação de brasileiros no Líbano, conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB), pode se tornar a maior da história do país, com mais de 1.100 pessoas já resgatadas. Desde o agravamento do conflito entre Israel e Hezbollah, a equipe da FAB enfrenta dificuldades técnicas e de segurança para aterrissar em Beirute, cidade que frequentemente sofre bombardeios em áreas próximas ao aeroporto.
Em um dos voos realizados no domingo (13), a aeronave KC30 perdeu o sinal de GPS enquanto se aproximava do aeroporto, um efeito das medidas israelenses para bloquear sinais de localização, a fim de impedir ataques do Hezbollah. O piloto major Willian Matos e o copiloto capitão Lucas Braga tiveram que seguir as orientações da torre de controle e navegar com métodos alternativos. Para minimizar o risco, a aeronave viajava com luzes apagadas e carregava combustível extra, caso precisasse mudar a rota para pousar em locais mais seguros, como Turquia ou Itália.
Até segunda-feira (14), cinco voos da FAB já haviam trazido 1.105 brasileiros de volta ao país. A operação, chamada Cedro do Líbano, pode ultrapassar o número de resgatados da maior missão anterior, ocorrida em 2022, quando 1.555 brasileiros foram repatriados de Israel e Gaza. O número de brasileiros registrados inicialmente para repatriação era de 3.000, mas com a intensificação do conflito, a demanda pode dobrar, totalizando até 6 mil pessoas.
O Líbano, antes do conflito, abrigava cerca de 22 mil brasileiros, mas muitos deixaram o país por meios próprios. Entretanto, muitos não têm condições financeiras para custear uma passagem de volta ao Brasil, que pode custar até R$ 15 mil, ou realizar a travessia por barco até o Chipre, uma alternativa que envolve altos custos.
A equipe da FAB, além dos pilotos, inclui médicos, enfermeiros e psicólogos para dar suporte aos passageiros, que enfrentam não só o medo do conflito, mas também condições médicas delicadas. Entre os passageiros, estão bebês, idosos, pessoas com doenças graves, e muitos apresentam crises de pânico durante o voo. A médica Kelly Gomes, parte da equipe de resgate, afirma que a tripulação está preparada para adaptar o avião em casos de emergência, incluindo a montagem de leitos de UTI a bordo.
A operação também depende de intensas negociações diplomáticas. O embaixador brasileiro no Líbano, Tarcísio Costa, tem feito contatos com autoridades libanesas para garantir a segurança da missão, e diplomatas estão trabalhando em horários prolongados para processar documentos de viagem. Nawali Orra, uma brasileira que morava no Vale do Bekaa, uma das áreas mais atingidas pelos ataques, foi uma das resgatadas com sua família, conseguindo embarcar para o Brasil com poucos pertences.
A missão, que tem sido acompanhada de perto pelos familiares dos oficiais, pode se estender nos próximos dias, com mais voos previstos para evacuar brasileiros que ainda permanecem no Líbano.

