Uma pesquisa internacional realizada pelo Global Wellness Institute em parceria com a Roche Diagnóstica revelou que a maior parte dos brasileiros com diabetes convive diariamente com impactos emocionais provocados pela doença e defende o uso de tecnologias inteligentes para melhorar o tratamento e o controle da glicose. Segundo o levantamento, sete em cada dez brasileiros diagnosticados com diabetes afirmam que a doença afeta significativamente o bem-estar emocional. Além disso, 78% relatam ansiedade ou preocupação constante com o futuro, enquanto dois em cada cinco pacientes dizem sentir solidão ou isolamento em razão da condição.
O estudo foi realizado em setembro de 2025 com 4.326 pessoas diagnosticadas com diabetes em 22 países. Entre os participantes, cerca de 20% eram brasileiros. Também foram incluídos pacientes da Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, Croácia, República Tcheca, Dinamarca, Alemanha, Hong Kong, Índia, Japão, Kuwait, Países Baixos, Polônia, Portugal, Romênia, Arábia Saudita, África do Sul, Espanha, Turquia e Reino Unido.
Entre os pacientes brasileiros com diabetes tipo 1, os impactos emocionais aparecem de forma ainda mais intensa. Segundo a pesquisa, 77% afirmam que a doença interfere diretamente no equilíbrio emocional e na qualidade de vida. O diabetes é caracterizado pela produção insuficiente ou pela má absorção de insulina, hormônio responsável por regular a glicose no sangue e fornecer energia ao organismo. Quando não controlada adequadamente, a doença pode provocar complicações cardiovasculares, problemas renais, danos aos olhos, comprometimento dos nervos e, em casos graves, levar à morte.
No caso do diabetes melito tipo 1, considerado uma doença crônica hereditária, ocorre a destruição das células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Isso faz com que o organismo deixe de produzir o hormônio necessário para o controle adequado da glicemia. De acordo com o Atlas Global do Diabetes 2025, divulgado pela International Diabetes Federation, o Brasil ocupa atualmente a sexta posição mundial em número de casos da doença, com aproximadamente 16,6 milhões de adultos diagnosticados.
O levantamento também aponta dificuldades enfrentadas pelos pacientes na rotina diária. Cerca de 56% dos entrevistados brasileiros disseram que o diabetes limita a capacidade de permanecer o dia inteiro fora de casa. Outros 46% afirmaram enfrentar dificuldades em situações comuns, como congestionamentos de trânsito, reuniões prolongadas e atividades que dificultam o monitoramento constante da glicose. Além disso, 55% relataram não acordar totalmente descansados devido às oscilações glicêmicas ocorridas durante a noite.
Mesmo com os avanços no tratamento, grande parte dos pacientes não se considera plenamente atendida pelo modelo atual de cuidado. Apenas 35% afirmaram ter muita confiança na própria capacidade de controlar a doença. A pesquisa também revelou forte apoio ao uso de tecnologias mais modernas no tratamento. Cerca de 44% dos brasileiros entrevistados defendem a priorização de ferramentas inteligentes capazes de prever alterações nos níveis de glicose e reduzir riscos de complicações futuras.
Entre os pacientes que ainda utilizam medidores tradicionais de glicemia, como os testes de ponta de dedo, 46% afirmaram que sensores de monitoramento contínuo da glicose deveriam ser adotados em larga escala devido à capacidade de emitir alertas preventivos sobre alterações glicêmicas. Já 53% dos entrevistados apontaram que a principal funcionalidade desejada em sensores equipados com inteligência artificial é justamente a possibilidade de prever tendências futuras dos níveis de glicose. Entre os pacientes com diabetes tipo 1, esse percentual sobe para 68%.
A pesquisa mostra ainda que 56% dos brasileiros acreditam que o conhecimento antecipado das variações glicêmicas aumentaria a sensação de controle sobre a doença. Outros 48% afirmaram que a redução de episódios inesperados de hipoglicemia ou hiperglicemia melhoraria significativamente a qualidade de vida. Entre os pacientes com diabetes tipo 1, 95% consideram fundamentais ferramentas capazes de prever crises glicêmicas antes que elas aconteçam.
Segundo o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, André Vianna, o diagnóstico precoce e o acompanhamento médico contínuo continuam sendo essenciais para evitar complicações decorrentes da doença. O especialista afirmou que as tecnologias de monitoramento contínuo representam um avanço importante, principalmente para pacientes com diabetes tipo 1, cuja glicemia costuma oscilar rapidamente.
De acordo com o endocrinologista, os sensores contínuos permitem que o paciente saiba previamente se a glicose estará alta ou baixa nas próximas horas, possibilitando medidas preventivas antes que o problema se agrave. Vianna destacou ainda que o uso dessas tecnologias reduz internações hospitalares, diminui visitas ao pronto-socorro e reduz gastos do sistema público de saúde com complicações relacionadas ao diabetes.
Apesar dos benefícios, o acesso aos sensores contínuos ainda é limitado no Brasil. Atualmente, os aparelhos são mais comuns entre pessoas de maior poder aquisitivo e não foram incorporados em larga escala pelo Sistema Único de Saúde. Em janeiro de 2025, o Ministério da Saúde decidiu não incorporar ao SUS o monitoramento contínuo da glicose por escaneamento intermitente para pacientes com diabetes tipos 1 e 2. Mesmo assim, o tema continua em debate no Congresso Nacional. Em dezembro do ano passado, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que obriga o SUS a fornecer gratuitamente dispositivos de monitoramento contínuo da glicose para pacientes diagnosticados com diabetes mellitus. A proposta ainda será analisada pelas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça antes de seguir para votação definitiva na Câmara e no Senado Federal.
Foto: Marcello Casal jr /Agência Brasil

