A agenda econômica e financeira do Brics sob a presidência brasileira ganhou novo impulso com a defesa de uma atuação mais propositiva do bloco na transformação da ordem econômica global. Em entrevista exclusiva, a embaixadora Tatiana Rosito, secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, destacou o papel estratégico do Brics como plataforma de cooperação entre países do Sul Global, tratando de temas como inteligência artificial, financiamento climático, uso de moedas locais e ampliação do diálogo com a sociedade civil.
Rosito considera o Brics uma força transformadora. Segundo ela, o uso de inteligência artificial, uma das prioridades da presidência brasileira, será debatido a partir de seus impactos na estabilidade financeira internacional. A proposta é explorar como essas tecnologias podem contribuir para a criação de sistemas de pagamento mais integrados, com menos custos e barreiras, facilitando o comércio entre os países membros.
Outro tema central é o financiamento da transição energética. A presidência brasileira propôs ao Brics a criação de instrumentos para ampliar o financiamento climático e promover a convergência entre os países em relação às negociações da COP30, que será realizada no Brasil, em novembro.
“A estimativa global é de que trilhões de dólares precisarão ser investidos até 2050 para atingir as metas de descarbonização. Boa parte desses recursos deve ser destinada aos países em desenvolvimento, onde a transição energética é essencial para manter o crescimento econômico”. Para isso, Rosito defende a mobilização de fontes diversas, o chamado “blended finance”, combinando recursos públicos, privados, filantrópicos e multilaterais.
Entre as propostas em discussão está a criação de um instrumento de garantia multilateral do Brics para viabilizar investimentos de longo prazo em transição energética e transformação ecológica. O Banco Central também lidera discussões sobre os impactos dos riscos climáticos nos sistemas financeiros nacionais e globais.
Uma das entregas esperadas para a COP30 é o roteiro Baku-Belém, que visa mobilizar US$ 1,3 trilhão em apoio aos países em desenvolvimento. O Brasil busca construir convergências no Brics para fortalecer esse esforço.
O comércio em moedas locais também integra a pauta do Brics. Já existem operações desse tipo entre Brasil e China, e a tendência é que se expandam. “Não há barreira do lado brasileiro”, disse Rosito, observando que a principal dificuldade está nos custos. O objetivo é ampliar o uso das moedas locais quando isso for benéfico para importadores e exportadores.
O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do Brics, tem como meta realizar até 30% de seus financiamentos em moedas locais. A prática já vem sendo adotada e cresce de forma gradual. Rosito destacou que, na presidência brasileira de 2014, o país liderou a criação de um dos instrumentos mais concretos do bloco: o Acordo de Reserva Contingente (ARC), mecanismo complementar ao FMI voltado a apoiar países do Brics com dificuldades no balanço de pagamentos.
Apesar de ainda não ter sido acionado, o ARC está em revisão desde o ano passado, e espera-se que sua reformulação seja concluída durante a presidência brasileira. O objetivo é torná-lo mais efetivo e acessível em situações emergenciais, fortalecendo a autonomia dos países-membros.
O Banco do Brics é apontado como um dos resultados mais tangíveis da cooperação entre os países. Criado com base em demandas reais dos membros, ele se diferencia de instituições tradicionais por respeitar as legislações locais — especialmente as normas sociais e ambientais. Em vez de impor regras externas, adota uma abordagem *demand driven*, guiada pelas prioridades dos próprios países.
Por isso, afirma Rosito, “O banco é um agente transformador do desenvolvimento nos países do Sul Global. Sendo os próprios acionistas os principais beneficiários, o NDB é capaz de considerar melhor os contextos específicos de cada nação em seus financiamentos”.
Outro pilar da presidência brasileira no Brics é o fortalecimento do diálogo com a sociedade civil. O Ministério da Fazenda e o Banco Central promoverão encontros virtuais com representantes da sociedade para ouvir contribuições e aumentar a transparência das iniciativas. “Não basta informar, é necessário dialogar ativamente”, reforçou a embaixadora.
Segundo ela, isso fortalece tanto o Brics quanto a agenda da presidência brasileira, sobretudo num momento em que o multilateralismo global enfrenta desafios. “O Brics ocorre num contexto de ampliação do grupo, com novos membros participando de todas as reuniões técnicas pela primeira vez. Isso amplia sua legitimidade como plataforma de diálogo, cooperação e concertação internacional.”
A diplomata enfatiza que o Brics não é uma coalizão antagônica a outros blocos ou fóruns multilaterais. Ao contrário, busca se firmar como uma alternativa construtiva e propositiva para enfrentar os desafios globais contemporâneos.
A atual presidência brasileira promove uma agenda ambiciosa e conectada com os grandes temas do momento: segurança digital, transição energética, justiça social e climática, e reforma da governança global. Ao tratar desses assuntos com profundidade e realismo, o Brics se posiciona como ator relevante na construção de uma nova ordem mundial mais equilibrada e inclusiva.
A perspectiva do governo brasileiro é que a atuação do Brics, em especial por meio do NDB e do aprofundamento da integração entre seus membros, ajude a ampliar o espaço de autonomia e soberania dos países emergentes. Ao mesmo tempo, a agenda reflete o compromisso do Brasil com um desenvolvimento sustentável, voltado tanto à inovação quanto à redução das desigualdades.
Com a presidência do Brics em 2024, o Brasil assume a responsabilidade de liderar esse processo de transformação. As ações propostas por Rosito e sua equipe indicam que o país está disposto a usar sua posição para articular consensos, propor soluções concretas e mostrar que é possível combinar crescimento econômico com responsabilidade social e ambiental.
O Brics ampliado, agora com novos integrantes, tem a oportunidade de consolidar-se como um motor de mudanças globais e uma referência de cooperação entre países que compartilham desafios comuns. A visão defendida pela diplomata é clara: o futuro da governança global deve incluir mais vozes, mais diversidade e mais diálogo, e o Brics pode ser o espaço onde isso se torna realidade.
Foto: Thayara Martins / Brics Brasil

