A tradicional cerimônia de lavagem do Cais do Valongo, localizada na região da Pequena África, no Rio de Janeiro, foi realizada na manhã deste sábado, 26 de julho. Reaberto ao público em novembro de 2023, o sítio arqueológico representa um marco da resistência e celebração das tradições africanas, em memória aos mais de um milhão de negros escravizados desembarcados no local ao longo de três séculos.

O Cais do Valongo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2013 e, em 2017, recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. A 14ª edição da lavagem foi conduzida por Mãe Edelzuita, Iyalorixá Edelzuita de Oxaguian, reafirmando a importância espiritual e histórica da cerimônia.

Presente na ocasião, o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Marcio Tavares, ressaltou a relevância do espaço para a memória nacional. “Esse é um patrimônio central para a reparação histórica do povo negro, que sofreu tanto no nosso país, que doou tanto e ainda doa pelo nosso país. E que tem papel central na nossa cultura”, declarou. Tavares ainda afirmou que “é preciso que todos os duzentos e três milhões de brasileiros saibam a importância desse lugar para a nossa história, para o nosso presente e para o nosso futuro. Porque se o Brasil quer ser uma democracia, que tem espaço para todos, que supera as desigualdades, a cultura negra precisa ser valorizada e a história e a memória do povo negro precisam ser preservadas. Isso é tarefa do Estado, do Ministério, num trabalho conjunto e federativo”.

Construído pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro, o cais foi o principal ponto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas. Hoje, o local é símbolo de resistência e ponto de encontro de diferentes manifestações culturais afro-brasileiras.

A diretora do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afrobrasileiro da Fundação Cultural Palmares (FCP), Fernanda Thomas, também destacou o caráter multifacetado do espaço. “Aqui, junto com a Pequena África também, é um lugar de multiplicidade de culturas negras”, disse. Ela relembrou ainda a história do edifício Docas André Rebouças, construído por um engenheiro negro que garantiu que a obra não utilizasse mão de obra escravizada.

Estiveram presentes na cerimônia a secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura, Roberta Martins; Pai Ivanir dos Santos; e os secretários municipais Adilson Pires (Direitos Humanos e Igualdade Racial), Lucas Padilha (Cultura) e Édson Menezes (Coordenação Governamental).

O Governo Federal assegurou, para o ano de 2025, recursos destinados à reforma do edifício Docas André Rebouças. O investimento, da ordem de oitenta e seis milhões e duzentos mil reais, será financiado pelo Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD), ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. A articulação do projeto contou com o envolvimento do Ministério da Cultura, Iphan e Fundação Cultural Palmares.

Durante a cerimônia, Patrícia Wanzeller, superintendente do Iphan no Estado do Rio de Janeiro, destacou o novo momento vivido pela região. “Esse ano é um ano de revolução na Pequena África, ela passa a ter cara, passa a ter identidade. E o Iphan, junto ao Ministério da Cultura, toca toda essa ação. Por isso essa lavagem tem um perfume especial, um perfume de renovação”, afirmou.

A região da Pequena África abrange os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, na zona portuária do Rio. Foi o sambista Heitor dos Prazeres quem nomeou essa área, hoje considerada um centro de referência da herança africana na cidade, com forte ligação à história do samba, à diáspora e ao passado escravagista do país.

Foto: Geovanne Ferreira


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