“O processo de desindustrialização que o Brasil enfrenta desde os anos 1980 está sendo revertido”, afirma Ricardo Cappelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Segundo ele, a recuperação da indústria nacional tem sido impulsionada por políticas estruturantes implementadas pelo governo federal, como o programa “Nova Indústria Brasil”, lançado em janeiro de 2024.

“A partir do lançamento do programa “Nova Indústria Brasil”, pelo presidente Lula e pelo nosso vice-presidente, ministro Geraldo Alckmin, a gente começou a ter uma reversão nesse processo, com o anúncio, inclusive, de investimentos históricos liderados pela indústria brasileira”, destaca Cappelli. O programa prevê ações até 2033 e investimentos de aproximadamente R$ 300 bilhões até 2026, combinando financiamento, incentivos regulatórios e novas estratégias para transformar a base industrial do país.

O impacto das medidas já pode ser percebido em diversos setores. “A indústria automotiva viveu, no ano de 2024, o melhor ano de vendas dos últimos dez anos, com um crescimento de 15% no ano, que foi o maior crescimento da indústria automotiva no planeta. Estão anunciados, pela indústria automotiva, R$ 180 bilhões em novos investimentos até 2028”, afirma Cappelli.

Além disso, outros segmentos também demonstram forte recuperação. “A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos anunciou que fará investimentos da ordem de R$ 130 bilhões até 2026. O Brasil, que era considerado o celeiro do mundo, passou a ser considerado o supermercado do mundo. Somos o maior produtor e exportador de alimentos processados e industrializados do planeta hoje.”

A indústria siderúrgica e a de celulose também registram novos investimentos expressivos. “A siderurgia anunciou novos investimentos da ordem de R$ 120 bilhões, enquanto a indústria de celulose superou R$ 100 bilhões em aportes.” Somando todos os investimentos já anunciados, a expectativa é que a indústria nacional receba mais de meio trilhão de reais nos próximos anos.

Além de investimentos diretos, Cappelli destaca medidas do governo para impulsionar a modernização industrial e facilitar o acesso ao crédito. “O “Plano Mais Produção”, que envolve uma série de bancos públicos, disponibiliza crédito para a indústria na ordem de mais de R$ 504 bilhões.”

O programa Brasil Mais Produtivo, também tem sido fundamental para a inclusão de pequenas e médias indústrias no processo de modernização. “Até 2026, pretendemos atender 200 mil pequenas e médias empresas, sendo 93 mil atendimentos presenciais, com foco em aumento da produtividade e transformação digital.”

Outra iniciativa relevante é o mecanismo de “Depreciação Acelerada”, que destina R$ 3,9 bilhões para a modernização de máquinas e equipamentos. “A indústria pode abater esse investimento do imposto de renda devido, incentivando a atualização do parque industrial brasileiro.”

Apesar dos avanços, Cappelli reconhece que desafios persistem, principalmente no custo de capital. “Talvez o nosso maior desafio seja reduzir o custo de capital no Brasil, reduzir a taxa de juros. É muito difícil manter investimentos na indústria com uma taxa de juros de dois dígitos.”

Ele acredita que a nova gestão do Banco Central pode contribuir para melhorar esse cenário. “Tenho muita expectativa de que o novo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, consiga trazer a taxa de juros a níveis civilizatórios. Com juros a 12,25% ao ano, o capital migra da produção para a especulação, o que prejudica a geração de empregos.”

O presidente da ABDI também enfatiza a importância da reforma tributária e do controle fiscal. “O ministro Fernando Haddad vem fazendo um grande trabalho garantindo o cumprimento das metas fiscais. O Brasil aprovou, depois de mais de 30 anos, uma reforma tributária histórica. Não há justificativa para termos a segunda maior taxa de juros do planeta.”

Outro ponto crítico para o setor produtivo é a burocracia regulatória. “Precisamos reduzir o custo Brasil. Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelas empresas é o tempo excessivo para a análise de processos por órgãos reguladores. Não é aceitável que uma empresa que quer investir no país tenha que esperar anos por uma resposta.”

Para enfrentar esse problema, a ABDI lançou o programa “Destrava Brasil”. “Firmamos acordos com o Ibama, a Anvisa e a Agência Nacional de Mineração (ANM) para modernizar a gestão e reduzir prazos de análise. A ANM, por exemplo, tem mais de 200 mil processos na fila. Estamos implementando inteligência artificial para agilizar esses procedimentos e pretendemos zerar 40 mil processos até outubro deste ano.”

A ABDI também firmou parceria com a Fundação Dom Cabral para reformular a gestão da ANM. “Vamos revisar fluxos, processos e modelagem regulatória para reduzir gargalos e destravar investimentos.”

Cappelli destaca ainda a importância da inovação e da conexão entre universidades e o setor produtivo. “No mundo todo, as economias mais dinâmicas têm um forte vínculo entre indústria e academia. No Brasil, precisamos avançar mais nesse sentido.”

Ele aponta o Senai Cimatec, na Bahia, como um exemplo bem-sucedido de integração entre indústria e educação. “O Senai Cimatec, criou um ecossistema que une qualificação profissional, pesquisa e inovação, com um parque industrial onde grandes empresas, como Petrobras e Shell, estão instaladas. Essa experiência deveria ser replicada em todo o Brasil.”

A busca por um novo modelo de industrialização para o país passa pelo fortalecimento da base produtiva, incentivos à inovação e criação de um ambiente mais favorável aos investimentos. “Temos um grande caminho pela frente, mas os primeiros passos já foram dados. O que precisamos agora é garantir que essas políticas sejam contínuas, para que a indústria brasileira volte a ocupar um papel central no desenvolvimento econômico e social do país.”

Foto: Lula Lopes/ABDI


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