Ter o cabelo cacheado comparado a “bombril” ou ser chamada de “pessoa louca que saiu do hospício”. Ser julgada por escolher se fantasiar de “Branca de Neve”. Estas são situações reais de racismo contra crianças negras em escolas de Minas Gerais que ocorreram neste ano.
De janeiro a julho de 2022, foram registrados 27 casos de injúria racial, com causa presumida racismo, em instituições de ensino das redes pública e particular do Estado. A média é de um caso a cada oito dias. O número representa um crescimento de 237,5% em relação ao mesmo período de 2019, quando foram contabilizadas oito situações.
Vale lembrar que, em 2020 e em 2021, a pandemia de Covid-19 afetou a realização de aulas presenciais. Os dados, da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), evidenciam a importância de falar sobre o assunto.
Segundo especialistas ouvidos por O Tempo, os casos de injúria racial alertam sobre o papel-chave que pais e professores têm na conscientização, o que pode evitar, inclusive, traumas que afetam o psicológico e o desenvolvimento infantil. Entre os casos estão discriminações cometidas por professores e pelos próprios alunos.
Na avaliação de Ellen de Lima Souza, doutora em educação pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), “é importante que a criança aprenda que a diferença não é sinônimo de desigualdade” e “reconheça a diferença com naturalidade”.
Segundo Ellen, nem sempre os alunos que cometem atos racistas vivem em um ambiente discriminatório. “Por mais que a família e a escola tenham comprometimento, as crianças são extremamente inteligentes. Elas vão expressar, significativamente, o que elas sentem em relação a perceber a ausência de negros nos espaços de poder”, afirma.
‘Branca de Neve’
“Desafios diários”, assim a jornalista Iaçanã Woyames, de 38 anos, descreve a missão de ensinar a filha, de 6 anos, sobre equidade racial. “São preocupações que a mãe de uma criança branca não tem”, pontua. Um dos exemplos é a escolha da fantasia para evento na escola. A filha dela decidiu se vestir como a princesa da Disney Branca de Neve. A escolha foi criticada pelos próprios colegas da pequena.
“Alguns amiguinhos dela falaram: ‘Por que você é a Branca de Neve? Você não é branca’. Ela escolheu a fantasia porque se apaixonou pela roupa”, contou Iaçanã. Ela opina que o caso expõe “falta de referência” para crianças negras e faz uma reflexão para outros pais: “O que posso fazer para trazer outras referências? De livros, na televisão. Façam isso”.
A falta de representatividade de negros é algo que tem sido levado para produções audiovisuais. Prova disso é que o novo filme live-action “Pequena Sereia” terá como protagonista, no papel de Ariel, Halle Bailey, atriz negra. Outra produção recente da Disney, “Pinóquio”, conta com a artista negra Cynthia Erivo interpretando a Fada Azul.
‘Parece uma louca’
A comerciante Rosângela Aparecida de Figueiredo, de 45 anos, não se escondeu após a filha dela, de 11 anos, ser comparada a uma “louca” apenas por estar com os cabelos soltos. A discriminação teria sido cometida por um professor na Escola Estadual Odilon Behrens. Na última sexta-feira (16), ela tornou o caso público, exigindo providências.
“Ela foi discriminada pelo cabelo. O professor perguntou se ela não tinha uma xuxinha e falou que ela parecia uma louca do hospício. Depois que minha filha chorou, ele ainda teria dito que daria uma sapatada nela”, contou.
Rosângela afirma ter ficado satisfeita com a repercussão do caso, devido ao potencial de conscientizar outras pessoas. “Racismo é crime. Preconceito também. Isso sem falar no abuso de poder do professor com os alunos. Por isso registrei um boletim de ocorrência na Polícia Civil”, afirmou.
Em nota, a Secretaria de Estado de Educação (SEE-MG) lamentou o caso e disse que a situação é apurada. “Além disso, uma equipe multidisciplinar, com apoio dos Núcleos de Acolhimento Educacional (NAE), acompanha o caso para proceder com os encaminhamentos necessários, desde o acolhimento à estudante e à sua família, reorientação à equipe da escola e ainda adoção das medidas administrativas cabíveis”, diz a pasta.

