O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou que o sistema internacional vive um período de profunda instabilidade, marcado pelo enfraquecimento das normas multilaterais e pela retomada do uso da força como elemento central das relações entre os Estados. A avaliação foi apresentada em artigo publicado na revista The Economist e divulgado nesta segunda-feira, no qual o diplomata analisa os impactos recentes sobre a ordem global.
Segundo Amorim, a previsibilidade que orientou as relações internacionais ao longo de décadas vem sendo substituída por uma lógica de imprevisibilidade deliberada, utilizada como instrumento de poder e intimidação. Para ele, esse movimento mina compromissos históricos construídos ao longo do século XX e compromete pilares fundamentais como a segurança coletiva, o comércio internacional e a promoção dos direitos humanos, criando um cenário de difícil reversão.
O ponto central da análise é a operação conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela, em três de janeiro, que resultou na captura do então presidente Nicolás Maduro. Amorim considera o episódio um marco simbólico, por romper com a percepção de que a América do Sul permaneceria imune a intervenções militares externas diretas.
Na avaliação do assessor, a presença de aeronaves militares sobre uma capital sul-americana teve um caráter “tragicamente surreal” e provocou questionamentos sobre a própria vigência das regras internacionais. Ele observa que a ação não se assemelha aos golpes militares latino-americanos do passado nem aos episódios clássicos da Guerra Fria, configurando um novo tipo de ruptura institucional.
Amorim compara o impacto visual da captura de um chefe de Estado em exercício a imagens emblemáticas, como a prisão de Saddam Hussein no Iraque. A diferença, segundo ele, está no fato de que, no caso venezuelano, não houve qualquer tentativa de construir uma narrativa de legitimidade política ou institucional para a ação, o que agrava o precedente aberto.
O diplomata lembra que, após a consolidação de instrumentos como a Carta das Nações Unidas, baseados na soberania dos Estados e na proibição do uso da força, intervenções desse tipo eram consideradas superadas. Essa confiança, porém, teria se dissipado diante de um cenário internacional em que decisões unilaterais voltam a ganhar espaço e relevância.
Para explicar esse contexto, Amorim recorre a uma analogia com o princípio da incerteza da física quântica. Assim como não é possível determinar simultaneamente posição e velocidade de uma partícula, o comportamento dos Estados tornou-se imprevisível, criando um ambiente em que a capacidade militar tende a definir o grau real de autonomia nacional.
Diante desse quadro, Celso Amorim defende que o Brasil amplie parcerias internacionais e preserve o compromisso com o multilateralismo. Para ele, princípios como soberania, não intervenção e solução pacífica de controvérsias devem ser mantidos, mesmo em cenários de crise extrema, pois a intervenção militar estrangeira não oferece respostas duradouras nem estabilidade real.
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

