Faltando pouco mais de um ano para o início do período eleitoral, partidos que compõem a base do governo Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso Nacional têm sinalizado um movimento de afastamento. As recentes articulações do Progressistas (PP), União Brasil e PSD indicam que o presidente enfrentará dificuldades crescentes para ampliar sua base de apoio além do que obteve no pleito de 2022. Essa fragmentação precoce ameaça comprometer os planos de coalizão do governo federal para as eleições presidenciais de 2026.

Um dos principais fatores que evidenciam essa tendência é a federação recém-anunciada entre União Brasil e PP, que adotará o nome União Progressista. A nova estrutura já manifesta publicamente intenção de apoiar um nome da centro-direita na próxima disputa presidencial. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e presidente da federação, tem defendido abertamente a saída dos quatro ministros do bloco que ainda integram a Esplanada dos Ministérios.

“Impossível o União Progressista caminhar com Lula em 2026. Nem com mágica. Nas nossas bases, 90% dos prefeitos, vereadores e deputados não têm identificação com o PT”, declarou o senador, expressando uma posição consolidada entre os quadros médios das legendas.

No mesmo tom, o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, criticou o governo Lula em entrevista recente, afirmando que o Executivo adotou uma estratégia de isolamento ao se fechar no próprio partido. Segundo ele, a maioria da sigla já se inclina por um projeto de centro-direita. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), inclusive, lançou sua pré-candidatura à Presidência, buscando se consolidar como alternativa ao atual mandatário.

Mesmo ocupando três ministérios no governo e contando com setores alinhados ao Planalto, o PSD também começa a explorar a possibilidade de uma candidatura própria. O presidente da legenda, Gilberto Kassab, indicou publicamente os nomes dos governadores Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ratinho Júnior (Paraná) como potenciais presidenciáveis. Kassab, que também ocupa cargo no governo estadual de São Paulo, aliado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem sinalizado que a sigla pode seguir outro caminho em 2026.

No caso do Republicanos, a tendência é repetir o que ocorreu em pleitos anteriores: apoiar um nome da direita nacional, mantendo autonomia em alguns estados. Em Pernambuco, por exemplo, o diretório do partido, comandado pelo ministro Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos), pode continuar aliado ao PT, enquanto o restante da legenda deve seguir outro rumo.

As movimentações na direita também têm ganhado impulso a partir de articulações promovidas pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), que tenta organizar uma frente de governadores opositores ao governo federal. Fazem parte da iniciativa os governadores Tarcísio (SP), Ratinho (PR), Caiado (GO), Leite (RS) e Romeu Zema (MG), do Novo. A intenção é construir um projeto conjunto que resulte no apoio a um nome único, representando uma terceira via com viés conservador.

Mesmo que tal aliança não se concretize, o esforço demonstra disposição de atores influentes em consolidar uma alternativa ao projeto petista. Dentro do MDB, as divergências também são evidentes. O grupo liderado por Temer em São Paulo trabalha contra a reedição da aliança com Lula. Esse mesmo grupo conseguiu, em 2022, viabilizar a candidatura própria de Simone Tebet, atual ministra do Planejamento, que hoje se declara parte da base de Lula.

Apesar do histórico de resistência, o MDB conta com líderes pró-governo em posições estratégicas, como as famílias Calheiros, em Alagoas, e Barbalho, no Pará. Esses grupos possuem representantes no primeiro escalão da Esplanada e têm capacidade de influenciar o caminho da legenda nas eleições futuras.

Outro desafio no radar do Palácio do Planalto é a instabilidade na relação com o PDT. Até pouco tempo dado como aliado certo, o partido enfrenta turbulências após a Polícia Federal desbaratar um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, escândalo que envolveu diretamente o então ministro da Previdência, Carlos Lupi, presidente da sigla. Pressionado, Lupi deixou o cargo e passou a considerar alternativas para o partido em 2026, o que pode incluir distanciamento do PT.

No governo, a avaliação interna é de que o cenário atual é desfavorável, mas não irreversível. Assessores do presidente apontam duas frentes estratégicas para tentar reverter a tendência de isolamento. A primeira é o uso da estrutura do Estado: novas nomeações e distribuição de cargos devem continuar sendo utilizadas como moeda de negociação com os partidos indecisos. A segunda aposta é a melhoria da imagem do governo por meio de ações de impacto social e econômico.

Entre as medidas em estudo, estão a isenção do imposto de renda para quem ganha até R\$ 5 mil e a gratuidade da conta de luz para consumidores de baixa renda. A expectativa é que, com o aumento da popularidade do presidente, partidos hoje vacilantes possam reconsiderar a aliança com o PT diante de um cenário eleitoral mais favorável.

Além disso, o núcleo político do Planalto pretende explorar as divisões internas dos partidos do Centrão. A ideia é costurar apoios nos estados e minar decisões impostas pelas cúpulas nacionais, sobretudo em legendas com históricos de pragmatismo eleitoral. Lula, experiente em negociações políticas, conta com o tempo para reverter parte do cenário adverso, mas terá que enfrentar uma conjuntura mais fragmentada e com menos margem para acomodação do que em campanhas anteriores.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 

 


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