Houve um período em que realizar uma cirurgia eletiva pela rede pública, especialmente no interior de Minas Gerais, significava enfrentar longas filas, meses de espera e, muitas vezes, deslocamentos para cidades distantes. Esse cenário vem sendo alterado de forma progressiva nos últimos anos, a partir de uma política de fortalecimento da rede hospitalar regional, que ampliou a capacidade de atendimento e aproximou os serviços de saúde da população.
Essa mudança é percebida diretamente por pacientes como a doméstica Aclenizia Tiago, moradora de Taiobeiras, no Norte de Minas. Após episódios recorrentes de dor abdominal, ela foi diagnosticada com cálculo na vesícula e precisou passar por uma cirurgia. “Fui parar no hospital, recebi o encaminhamento e, em quinze dias, já fui chamada para a cirurgia”, contou. Atualmente, ela se recupera bem e destaca a rapidez do atendimento como algo que antes parecia improvável.
Casos como o de Aclenizia refletem um processo mais amplo de reorganização do sistema público de saúde no estado, baseado na descentralização do atendimento e no fortalecimento de hospitais de médio porte em diferentes regiões. A estratégia tem permitido que exames, consultas especializadas e cirurgias eletivas sejam realizados mais perto da residência dos pacientes, reduzindo o tempo de espera e os custos emocionais e físicos associados a longos deslocamentos.
Para o secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti, a política de ampliação das cirurgias eletivas representa um marco na gestão da saúde pública mineira. “O programa conseguiu reduzir de forma rápida o tempo de espera e reorganizar a rede hospitalar em todo o estado. Cirurgias que antes levavam anos para serem realizadas, hoje acontecem em poucos meses e, em muitos casos, em poucos dias”, afirmou.
A reorganização da rede assistencial trouxe ganhos significativos também na relação entre diagnóstico e tratamento. Embora não sejam consideradas urgentes, as cirurgias eletivas têm impacto direto na qualidade de vida dos pacientes, ajudam a evitar o agravamento de quadros clínicos e reduzem o risco de sequelas permanentes. Ao acelerar esse tipo de atendimento, o sistema público consegue atuar de forma mais preventiva e resolutiva.
Criado em dois mil e vinte e um, o programa estadual voltado à ampliação das cirurgias eletivas surgiu como resposta ao represamento de procedimentos ocorrido durante a pandemia de covid-19. Com o passar do tempo, a iniciativa se consolidou como uma política estruturante, ampliando o acesso à saúde em todas as regiões de Minas Gerais e reorganizando fluxos de atendimento que antes eram excessivamente concentrados em grandes centros urbanos.
Um dos pilares dessa estratégia é a regionalização. Ao fortalecer hospitais locais e estimular a produção cirúrgica em municípios de pequeno e médio porte, o estado conseguiu reduzir a sobrecarga de unidades de referência e ampliar a resolutividade da rede. Hospitais que antes realizavam apenas atendimentos ambulatoriais passaram a executar cirurgias com internação, atendendo não apenas a população local, mas também pacientes de cidades vizinhas.
Segundo Baccheretti, essa lógica de descentralização foi essencial para mudar o perfil da assistência. “A descentralização permitiu levar cirurgias para municípios pequenos, que tinham hospitais pouco utilizados, mas que hoje atendem toda uma região e ganharam importância dentro da rede pública de saúde”, destacou.
No Norte de Minas, a mudança é considerada expressiva. Municípios que antes dependiam quase exclusivamente de Montes Claros para a realização de cirurgias eletivas passaram a contar com estrutura local mais robusta. Taiobeiras é um exemplo desse processo. Antes, muitos pacientes precisavam viajar centenas de quilômetros para realizar procedimentos relativamente simples, o que aumentava o tempo de espera e dificultava o acompanhamento pós-operatório.
Com o fortalecimento da estrutura hospitalar local, essa realidade foi transformada. O município passou a realizar um volume significativo de cirurgias eletivas, atendendo não apenas sua população, mas também moradores de cidades do Alto Rio Pardo e de parte do Vale do Jequitinhonha. A ampliação da oferta contribuiu para reduzir filas e distribuir melhor a demanda na região.
De acordo com o secretário municipal de Saúde de Taiobeiras, Marlon Cardoso Ramos, os efeitos são visíveis no dia a dia do sistema de saúde. “O tempo médio de espera caiu de cerca de seis meses para aproximadamente sessenta dias. Além disso, o município passou a ofertar novas especialidades, como urologia e otorrinolaringologia, o que ampliou significativamente a capacidade de atendimento local”, afirmou.
Apesar desse avanço, Montes Claros segue como referência para procedimentos de alta complexidade. No entanto, com a consolidação da rede regional, a maior parte das cirurgias eletivas passou a ser realizada mais próxima dos pacientes. O resultado é um sistema mais equilibrado, com menos filas, maior agilidade no atendimento e acesso ampliado à saúde pública de qualidade em todas as regiões de Minas Gerais.
Foto: Fabio Marchetto

