Por Gabriel Rodrigues e Nubya Oliveira

Os números da aviação brasileira são grandiosos: 831 mil voos por ano, que carregam quase 98 mil passageiros e são responsáveis pela emissão de 13,5 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, segundo os dados mais recentes da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Tamanha grandiosidade é uma preocupação global em meio às mudanças climáticas. Neste cenário, a ambição do setor é reduzir em 5% as emissões até 2030. Uma das ferramentas para alcançar esse objetivo são os combustíveis sustentáveis, alternativa ao atual querosene de aviação, um dos principais poluentes do setor. A mudança esbarra em obstáculos técnicos e financeiros, contudo, e, enquanto ela não se torna uma opção viável, resta às companhias aéreas correrem contra o tempo e investir em outras frentes. Uma das soluções no curto prazo é o incentivo às reduções de emissões por meio da compra de crédito de carbono.

O voo mais frequente da Gol partindo do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, por exemplo, decola até dez vezes por dia rumo ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Cada viagem utiliza, em média 3,4 mil litros de querosene, que emitem 8,5 toneladas de CO2. Uma década atrás, a companhia chegou a operar cerca de 360 voos movidos a querosene, contudo não retomou as viagens com SAF desde então. “O custo de produção [de SAF] ainda é muito elevado, mas existe uma expectativa grande de que, na medida em que ganhemos escala e a melhoria tecnológica comece a se apresentar cada vez mais, tenhamos redução expressiva desse custo de produção, o que será super importante para alavancar o processo de descarbonização”, pontua o diretor do Centro de Controle Operacional (CCO) e Engenharia da Gol, Eduardo Calderon.

O Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês para Sustainable Aviation Fuel) é produzido a partir de fontes renováveis de energia, como óleos vegetais, diferentemente do querosene, à base de petróleo. Mesmo com um gradual aumento de produção ano a ano, a perspectiva é que a produção global de SAF chegue a 1,8 bilhão de litros em 2024, o que equivale a 0,53% da demanda por combustível na aviação em todo o mundo. Uma adoção massiva de SAF poderia reduzir em até 80% as emissões de CO2 da aviação.

Trocar o combustível de um avião não é como alterar o de um carro, que pode simplesmente ser levado à oficina caso apresente defeitos no meio do caminho. Na aviação, essa troca deve ser perfeita, de forma que a turbina praticamente não perceba a diferença entre os combustíveis. “Todas as turbinas foram feitas para querosene de aviação, a troca não vai ser simples. Há uma solução drop in, que significa tirar o querosene e colocar o bioquerosene sem mexer na turbina, mas isso é caro”, introduz o professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luís Cortez, que já pesquisou biocombustíveis de aviação com a Embraer. Ele explica que o biocombustível precisa ser homologado pela ASTM International, organização internacional que avalia dezenas de parâmetros até aprovar o uso.

Os caminhos até esse ponto são longos — e tortuosos. Todos esbarram em tecnologia e dinheiro. Não há perspectiva para adoção massiva da opção no curto prazo. A Latam, por exemplo, projeta que ele esteja em 5% de suas operações até 2030. Seu primeiro voo utilizando SAF ocorreu em 2023, em parceria com a Airbus e o Massachusetts Institute of Technology (MIT) para um estudo sobre os efeitos socioeconômicos do combustível na América Latina.

Brasil desenvolve alternativas

Há iniciativas brasileiras para desenvolver opções de SAF. Em 2023, a Raízen tornou-se a primeira empresa do mundo a obter uma certificação oficial de produção de etanol para SAF. O etanol é produzido no parque de bioenergia Costa Pinto, em Piracicaba (SP). Em Natal (RN), foi inaugurada, também no último ano, a primeira planta-piloto do Brasil para produção de SAF à base de glicerina.

O professor Luís Cortez argumenta que uma verdadeira revolução energética do uso de SAF passaria por mais do que o desenvolvimento de uma opção aceita pelas atuais turbinas, mas sim a criação de turbinas compatíveis com combustíveis mais baratos. “Substituir o querosene é uma alternativa cara. Então, as companhias deveriam sentar, colocar uma ordem e ir fazendo outras compensações. Nos próximos 20 anos, se fizerem reflorestamento, que é mais barato, enquanto desenvolvem novas turbinas, resolvem o assunto”, defende.

Em duas décadas, zero pegada de carbono

Enquanto o SAF não é adotado em massa, outras opções são colocadas em prática, inclusive no solo. Há cerca de nove anos no comando de um dos aeroportos mais movimentados do Brasil, a BH Airport tem uma meta ambiental: zerar, em 20 anos, a emissão direta de carbono no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins. Desde a sua concessão, em 2014, o terminal aéreo afirma ter reduzido em mais de 6,5 mil toneladas de dióxido de carbono lançadas na atmosfera, o que representa quase 70% de suas emissões.

“Atualmente, emitimos algo em torno de duas mil toneladas. Mas já conseguimos fazer a compensação desses 30% residuais, no ano de 2023, por meio de créditos de carbono de um projeto de reflorestamento e conservação de floresta, o que nos tornou o primeiro aeroporto neutro do Brasil. Nossa meta, no entanto, é reduzir esse indicador em 100% até o ano de 2044. Ou seja, temos uma jornada ainda importante pela frente,” destaca o diretor-presidente da BH Airport, Daniel Miranda.

Dentre os desafios para alcançar esse objetivo, o diretor cita dois fatores que mais contribuem para o volume de poluentes: o processo de climatização na estrutura aeroportuária e a frota de veículos a combustão. “Estamos buscando algumas tecnologias para reduzir essas emissões causadas pelo sistema climatizador, que é muito importante, uma vez que está diretamente relacionado ao conforto e a experiência do usuário. Já sobre a frota, estamos trabalhando na substituição dos veículos que utilizem energia elétrica ou outro combustível mais renovável”.

Selo verde

Por três anos consecutivos, o aeroporto de Confins foi reconhecido como aeroporto verde pelo Programa “Green Airport Recognition” do Conselho Internacional de Aeroportos (ACI). A implantação do projeto 400Hz, em 2023, aparece como um agente contribuidor para manutenção desse selo. Em 20 pontes de embarque, foram acoplados equipamentos para fornecimento de energia elétrica renovável e ar condicionado às aeronaves durante os serviços de solo. Até então, eram utilizados o querosene de aviação e os geradores a diesel nesse processo.

“Por meio dessa iniciativa, evitamos a emissão de quase 600 toneladas de carbono na atmosfera no ano passado. Para se ter uma ideia, as companhias tiveram uma redução de cerca de 30% dos custos que envolvem essa operação, com a utilização dos novos equipamentos. Investimos mais de R$ 30 milhões nesse projeto ambiental, o que representa um resultado extraordinário,” aponta Daniel.

Outra ação focada em sustentabilidade foi adotada no Terminal de Cargas, onde se passou a utilizar empilhadeiras elétricas, em substituição aos equipamentos convencionais movidos a Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) e diesel. Com essa iniciativa, foram reduzidas mais de quatro mil toneladas de carbono, o que representa 57% das emissões que o aeroporto registrava em 2017.

Para além do carbono

Outras ações são destacadas pela BH Airport nessa missão de mitigar os impactos causados ao meio ambiente. Toda a publicidade externa do aeroporto atualmente é abastecida com energia solar. Há ainda a utilização de uma tecnologia para o baixo consumo hídrico em banheiros, além da implementação de estações de tratamento de “água cinza”, oriunda de atividades domésticas, que é reutilizada para irrigação e abastecimento dos sanitários.

O Aterro Zero é outra iniciativa que objetiva fazer com que 100% dos resíduos produzidos pelas operações aeroportuárias não sejam sejam direcionados para a terra. Por meio da coleta seletiva, todo o material é encaminhado para a Associação de Catadores de Material Reciclável (Ascamare), de Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte. Além da destinação correta desses resíduos, o processo gera emprego e renda diretamente para mais de 27 famílias.

A importância do SAF para as metas ambientais

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirmou que o Brasil aderiu ao Objetivo Aspiracional de Longo Prazo (Long Term Aspirational Goal – LTAG) de tornar a emissão de carbono da aviação civil internacional definitivamente neutra até 2050, zerando completamente as emissões do setor. Segundo a agência, isso será alcançado, principalmente, pela utilização de combustíveis sustentáveis da aviação (Sustainable Aviation Fuels – SAF).

Com o intuito de motivar a adoção desses combustíveis menos poluente, a Anac assumiu mais um compromisso relacionado à descarbonização do setor: a adesão à Visão Aspiracional Global, pactuada na Terceira Conferência sobre Combustíveis Alternativos e Aviação (Conference on Aviation and Alternative Fuels – CAAF/3) da OACI, em 24 de novembro de 2023. A meta é reduzir em 5% as emissões de carbono até 2030 pelo uso de SAF e de outras energias limpas.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aguarda a aprovação do Projeto de Lei nº 4516/2023, o Projeto Combustíveis do Futuro, que traz medidas para estimular o uso de combustíveis sustentáveis no setor de transportes, como o diesel verde e o aumento do teor de etanol na gasolina. Pela nova política, as companhias aéreas devem reduzir escalonadamente em 1% as emissões de gases de efeito estufa a partir de 2027, alcançando 10% em 2037.

A aprovação do projeto também é aguardada por outras entidades aeroportuárias, como a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). Para a associação, ela é essencial para se alcançar as metas sustentáveis do setor a longo prazo. “É fundamental que se desenvolva um mercado de biocombustíveis no país, e o Brasil tem capacidade de liderar essa produção no mundo. Esse projeto precisa ser votado para garantir o marco regulatório desse tema e estabelecer as condições para que possamos ter investimentos em biorrefinarias no Brasil,” enfatiza a presidente da Abear, Jurema Monteiro.


Avatar