Durante dois dias de intensas discussões em Brasília, representantes de 67 países participaram da Pré-COP, evento preparatório para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em Belém a partir de 10 de novembro. O encontro não resultou em acordos formais ou novas metas, mas foi considerado fundamental para construir entendimentos prévios e alinhar posições entre os países antes da conferência na Amazônia.
O embaixador André Corrêa do Lago, presidente designado da COP30, avaliou positivamente o resultado das conversas. “O que houve aqui, e que foi extremamente útil, é que nós já temos agora muito melhor mapeados os pontos de convergência e de impasse. Os países foram muito claros sobre os limites do que podem ou não aceitar nas negociações”, afirmou durante coletiva de imprensa. Segundo ele, entre os 140 temas oficiais da conferência, a maioria é de ordem administrativa, mas cerca de 25 possuem peso decisivo. “Tem uns seis ou sete temas muito importantes e uns 20 realmente relevantes. Já temos um mapa claro, e o avanço foi significativo”, explicou.
O diplomata ressaltou que a Pré-COP permitiu alcançar o que chamou de “pré-consensos”, isto é, entendimentos preliminares que ainda precisarão de confirmação nas negociações formais. “As COPs têm uma dinâmica de suspense, que eu gostaria que não fosse necessária, mas acredito que conseguimos alguns pré-consensos importantes, ainda que não definitivos”, declarou.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, compartilhou da avaliação. Para ela, os limites estabelecidos na mesa de negociação criam espaço para conversas mais objetivas e produtivas durante a COP30. “Mesmo com sinalizações claras sobre os limites, há ganchos para que esses limites conversem, se interpelem e aprofundem as diferenças em busca de caminhos comuns”, disse.
Marina destacou especialmente as sessões sobre clima e natureza, que discutiram o financiamento para preservação de florestas e conservação dos oceanos. “Os extremos climáticos já exigem que governos e todos nós atuemos local e globalmente, com recursos, tecnologia e solidariedade. A mudança do clima não tem fronteiras; as chuvas torrenciais e os incêndios também não”, afirmou.
Entre os temas debatidos, ganharam destaque a transição energética — com a proposta brasileira de quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2030 — e a adaptação climática, considerada prioridade. A diretora-executiva da COP30, Ana Toni, ressaltou a convergência entre as delegações. “Na sessão sobre clima e natureza ficou muito claro que há consenso sobre a necessidade de novos instrumentos econômicos para valorizar a natureza. Esta deve ser uma COP de implementação e soluções”, enfatizou.
No campo das metas globais, o cenário continua desafiador. Até o momento, apenas 62 dos 195 países apresentaram suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), representando 31% das emissões globais. Blocos como a União Europeia e a Índia, embora presentes na Pré-COP, ainda não atualizaram seus compromissos assumidos no Acordo de Paris. Corrêa do Lago, contudo, destacou avanços nas conversas bilaterais. “A União Europeia demonstrou forte comprometimento com suas NDCs e deseja assegurar um papel de liderança. O grupo dos 77 e outros blocos também foram claros sobre suas intenções para Belém”, observou.
Entidades da sociedade civil reconheceram o ambiente positivo para o multilateralismo, mas cobraram maior centralidade para o tema das florestas. “Onde estão as florestas nas negociações da COP30? O diferencial da conferência é justamente ocorrer na maior floresta do planeta, essencial para combater e adaptar-se à crise climática, mas que também está à beira do colapso. Na Pré-COP, não vimos engajamento suficiente sobre a urgente proteção das florestas”, declarou Camila Jardim, especialista em política internacional do Greenpeace Brasil.
Entre as iniciativas brasileiras apresentadas está o “Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF)”, que será oficialmente lançado em Belém. O fundo pretende mobilizar US$ 125 bilhões (cerca de R$ 680 bilhões) para financiar a conservação de biomas florestais em cerca de 70 países. Idealizado pelo Brasil em parceria com Colômbia, Noruega, Reino Unido, França e Emirados Árabes Unidos, o TFFF também recebe apoio de nações como Gana, Malásia, Indonésia e República Democrática do Congo.
O fundo prevê o repasse direto de 20% dos recursos para comunidades indígenas e tradicionais que vivem e protegem as florestas, valorizando seu papel na manutenção desses ecossistemas. Cada hectare preservado será remunerado em US$ 4. “As soluções baseadas na natureza podem gerar até 30% das reduções necessárias de emissões até 2030, mas recebem menos de 3% do financiamento climático global”, explicou Gustavo Souza, diretor sênior de Políticas Públicas da Conservação Internacional.
Ele também defendeu que a “rota Baku-Belém” — que une as duas últimas sedes da conferência — seja usada para fortalecer mecanismos financeiros e ampliar os resultados do Artigo 6.4 do Acordo de Paris, que trata dos mercados de carbono. “É essencial que o TFFF receba adesões concretas e recursos para cumprir seu papel. Isso não é apenas possível, é indispensável para que as metas climáticas sejam alcançadas”, acrescentou.
O presidente da COP30 encerrou o encontro reforçando o caráter histórico da conferência. “Belém será o primeiro grande palco de negociação climática sediado dentro da Amazônia. É uma oportunidade única para que o mundo veja de perto a importância das florestas e da biodiversidade na estabilidade do clima global. Saímos da Pré-COP com um sentimento de realismo, mas também de esperança”, declarou Corrêa do Lago.
A COP30 reunirá mais de 190 delegações nacionais, organizações multilaterais e representantes da sociedade civil entre 10 e 21 de novembro. O governo brasileiro pretende aproveitar o evento para consolidar compromissos em três eixos prioritários: financiamento climático, transição energética justa e preservação dos ecossistemas. “Esta é a COP da implementação, da esperança e da cooperação”, disse Marina Silva.
Com as discussões prévias encerradas, a expectativa é que os temas mais complexos — como metas de financiamento, mercado global de carbono e proteção das florestas — avancem nas mesas de negociação em Belém. “As conversas mostraram que o mundo está pronto para dialogar e encontrar soluções conjuntas. Agora, o desafio é transformar esse diálogo em resultados concretos”, concluiu Corrêa do Lago.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

