O subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro, Daniel Ferreira de Souza, reconheceu nesta quarta-feira que a megaoperação policial realizada no Rio foi importante no “campo simbólico”, mas teve um resultado “ínfimo” em relação à desestruturação do poder do Comando Vermelho no estado. A declaração foi dada durante reunião na Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), no Senado Federal, perante membros do Congresso Nacional.

“Aquela grande operação teve um resultado impressionante à vista dos números, mas que ainda assim foi algo ínfimo dentro do poder do Comando Vermelho e das outras facções na estrutura do Rio de Janeiro. Então, isso não resolveu”, afirmou o subsecretário, que representou o governo do Rio de Janeiro no colegiado.

Apesar da ressalva sobre o impacto estrutural, o oficial destacou a relevância simbólica da ação: “Foi importante a nível simbólico para o Estado mostrar que ele é capaz de entrar em qualquer local, porque uma das bandeiras que era vendida, muito por conta da ADPF das favelas, é que havia locais onde não era possível o Estado entrar”.

Ele acrescentou que a narrativa de áreas “proibidas” era utilizada pelo Comando Vermelho para atrair lideranças criminosas de outros estados, o que reforça o caráter interestadual da facção. Entre os alvos da operação, havia criminosos do Pará, Bahia, Ceará e Amazonas.

A megaoperação, que envolveu as polícias Civil e Militar do Rio, resultou em mais de 121 mortos e 113 presos nos Complexos da Penha e do Alemão, sendo classificada como a ação mais letal da história do estado. Em contraste com a avaliação do oficial de inteligência, o governador Cláudio Castro (PL) considerou a operação um “sucesso” e um duro golpe contra o Comando Vermelho.

Diante dos parlamentares da CCAI, o subsecretário afirmou que a ação tinha como um de seus objetivos minar a “retórica do Comando Vermelho” disseminada no país. “Se essa operação não vai resolver o problema — e sabemos que não vai — ao menos mostrou que a retórica usada para atrair lideranças foi subvertida, e o Estado entra em qualquer lugar de fato”, argumentou.

Ele concluiu defendendo maior coordenação federativa: “Precisamos do apoio federal, e nós o temos, mas é necessário ampliar essa integração. Se o Brasil não se enxergar como um país que possui países e Estados dentro do próprio Estado, estaremos fadados a muitos problemas e talvez mortes de brasileiros”.

Na mesma sessão, o delegado da Polícia Federal Leandro Almada, atual chefe da Diretoria de Inteligência Policial (DIP) e ex-superintendente da PF no Rio, fez críticas ao “custo imenso” da operação em relação à perda de vidas entre agentes de segurança pública.

O problema é que o Estado não precisa entrar, mas estar. Eu não consigo tachar como sucesso uma operação em que você teve quatro enterros no dia seguinte. Uma ação dessa, com um custo imenso para as famílias dos policiais, teria que ter um resultado efetivo. E não entrar lá e, dois meses depois, fazer a mesma coisa. O que mudou efetivamente para o cidadão que mora lá?”, questionou Almada.

Foto: Carlos Moura/Agência Senado


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