O fechamento recente de duas fábricas em Cubatão, na Baixada Santista, levou a prefeitura do município a buscar apoio direto do governo federal para tentar conter o processo de desindustrialização que atinge a cidade há mais de uma década. Em menos de um ano, unidades industriais operadas pela petroquímica Unigel e pela Yara Brasil Fertilizantes encerraram suas atividades, afetando empregos, arrecadação e a própria identidade econômica de um dos mais tradicionais polos industriais do país.
Diante do cenário, o prefeito de Cubatão, César Nascimento, decidiu articular uma ofensiva política e institucional em Brasília. A intenção é viajar à capital federal acompanhado por representantes políticos, empresariais e sindicais da região, com o objetivo de sensibilizar o governo sobre a necessidade de rever políticas que impactam diretamente a competitividade do setor petroquímico e da indústria de fertilizantes instalada no Brasil.
“Vamos solicitar uma reunião com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, para tratar dos reflexos do fechamento de fábricas instaladas na cidade, problema que o município vem enfrentando há mais de uma década”, afirmou o prefeito, em entrevista à Agência Brasil. Segundo ele, Cubatão defende a adoção de medidas de defesa comercial e melhores condições de financiamento para a atividade produtiva nacional.
Para Nascimento, o problema extrapola os limites municipais. “A perda de protagonismo de um polo industrial da relevância de Cubatão não é um problema local, mas um fator de enfraquecimento da indústria nacional como um todo”, declarou. O prefeito avalia que a redução da atividade industrial compromete cadeias produtivas, empregos qualificados e a arrecadação em diferentes níveis da federação.
Além do pedido de revisão de políticas tarifárias, especialmente no que diz respeito à importação de fertilizantes e produtos petroquímicos, o prefeito também pretende solicitar celeridade em processos administrativos em andamento no governo federal. Um deles é a investigação conduzida pela Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, para apurar a existência de dumping nas exportações chinesas de produtos laminados de ferro ou aço para o Brasil.
O dumping ocorre quando empresas ou países exportam produtos a preços inferiores ao custo de produção, prática que pode eliminar concorrentes locais e distorcer o mercado. Em 26 de dezembro de 2025, a secretaria divulgou parecer preliminar no qual informou ter identificado indícios dessa prática nas exportações chinesas, mas decidiu prorrogar o prazo para a conclusão da investigação e a avaliação dos prejuízos causados à indústria siderúrgica brasileira.
O fechamento da unidade da Unigel em Cubatão ganhou ainda mais repercussão por se tratar de uma fábrica com quase sete décadas de operação na cidade. No último dia 8, a empresa anunciou a paralisação das atividades da planta de estireno, utilizado na produção de poliestireno, empregado na fabricação de eletrodomésticos, embalagens e diversos produtos industriais, além da unidade de tolueno, solvente amplamente usado em tintas, resinas e borrachas.
Em nota, a Unigel afirmou que a decisão foi tomada em um “contexto de baixa sem precedentes na indústria química global, marcado por forte sobreoferta de commodities petroquímicas, intensificada pela expansão da capacidade produtiva internacional” a partir de 2023. A empresa não descartou uma eventual retomada das atividades, mas destacou a ausência de perspectivas de reversão no curto prazo.
Como parte da reorganização, a companhia informou que concentrará a produção de poliestireno na unidade de Guarujá, também na Baixada Santista. Para o mesmo local será transferida a produção da fábrica de São José dos Campos, no interior paulista, cujo encerramento foi anunciado nesta terça-feira, dia 13. A estratégia busca reduzir custos operacionais e concentrar a produção em unidades consideradas mais viáveis.
Considerada uma das principais companhias petroquímicas do país, com fábricas em São Paulo e na Bahia, a Unigel está em recuperação judicial desde outubro de 2025. O pedido foi apresentado à Justiça como forma de renegociar dívidas que superam R$ 5 bilhões, com o objetivo de readequar a estrutura de capital e preservar parte das atividades industriais.
Antes do fechamento, a unidade da Unigel em São José dos Campos empregava cerca de quarenta trabalhadores. Em Cubatão, a planta operava com aproximadamente setenta funcionários diretos e outros trinta indiretos, números que agora se somam às estatísticas de perda de postos de trabalho no setor industrial da região.
Dias antes do anúncio oficial, o prefeito César Nascimento chegou a manifestar aos executivos da Unigel a disposição da prefeitura em conceder isenções fiscais como forma de tentar evitar o encerramento das atividades. A proposta visava preservar empregos e a arrecadação municipal, mas não foi suficiente para reverter a decisão empresarial.
Durante a última reunião do Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista, o prefeito também defendeu uma ação conjunta dos gestores das nove cidades da Região Metropolitana, que inclui Bertioga, Cubatão, Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande, Santos e São Vicente. A ideia é unificar demandas e pressionar órgãos federais e estaduais por medidas de estímulo à indústria.
O fechamento da fábrica da Unigel também foi lamentado por representantes sindicais. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e de Fertilizantes da Baixada Santista, Herbert Passos Filho, destacou o simbolismo da unidade para a história industrial da cidade. “Cubatão já foi o principal polo produtor de fertilizantes do Brasil. A Unigel é um símbolo da nossa história industrial”, afirmou.
Segundo Passos, o próprio sindicato teve origem dentro da antiga Companhia Brasileira de Estireno, que deu origem à Unigel. Para ele, o encerramento da fábrica aprofunda o esvaziamento de um polo que já foi referência nacional nos setores de siderurgia, química, petroquímica e insumos industriais de base.
Na década de 1980, a intensa atividade industrial levou a Organização das Nações Unidas a classificar Cubatão como o município mais poluído do mundo. Desde então, a cidade passou por um amplo processo de recuperação ambiental, mas, paralelamente, iniciou uma trajetória de perda de protagonismo industrial.
“Desde então, houve a privatização da antiga Companhia Siderúrgica Paulista, adquirida pela Usiminas, e o fechamento de várias fábricas”, lembrou Passos. Segundo a prefeitura, quando a Usiminas paralisou as atividades primárias da siderúrgica em 2016, o impacto foi profundo, com a eliminação de cerca de quinze mil postos de trabalho diretos e indiretos.
O sindicalista destacou que, no auge, apenas as indústrias petroquímicas de Cubatão chegaram a empregar aproximadamente doze mil trabalhadores. Atualmente, esse número caiu para cerca de três mil, com perspectiva de novas reduções. “A expectativa é que esse número continue caindo”, lamentou.
Passos afirmou que tem acompanhado o fechamento de unidades industriais em diferentes regiões do país, especialmente no setor de fertilizantes. “Estou virando especialista no encerramento de unidades industriais, principalmente na área de fertilizantes”, disse.
De acordo com ele, empresas produtoras de insumos agrícolas, como a norueguesa Yara, enfrentam uma crise conjuntural que levou à paralisação de fábricas em Cubatão e Paulínia em fevereiro de 2025. O resultado foi o aumento da dependência brasileira de fertilizantes importados, que por décadas contaram com isenção ou redução de carga tributária.
“Com isso, muitas empresas reduziram ou interromperam a produção e passaram a importar fertilizantes”, explicou Passos. Ele ressaltou que, desde 2008, a produção nacional caiu de cerca de onze milhões de toneladas por ano para aproximadamente seis milhões, enquanto o consumo subiu de vinte e quatro milhões para mais de quarenta e um milhões de toneladas anuais.
Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, a vulnerabilidade brasileira ficou ainda mais evidente, impulsionando a adoção de políticas públicas para estimular a indústria química nacional. Em 2021, o Confaz atualizou regras que permitiam a concessão de isenção ou redução do ICMS sobre fertilizantes, estabelecendo aumento gradual da carga tributária até alcançar alíquota de 4% em dezembro de 2025.
Segundo Passos, o agronegócio resiste a mudanças na tributação. “É óbvio que o setor agrícola não quer mexer na isenção, pois isso reduz margens de lucro”, afirmou. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil calcula que, entre 2021 e 2024, o convênio do Confaz elevou os custos do setor em R$ 11,74 bilhões.
Para o sindicalista, porém, é preciso fazer escolhas estratégicas. “No mundo todo, a indústria química é protegida pelos governos nacionais. Ao estimular a indústria, estimulamos empregos qualificados e melhor remunerados”, argumentou.
No fim do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.294, que instituiu o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química, prevendo incentivos fiscais superiores a R$ 10 bilhões entre 2027 e 2031. Antes disso, em agosto de 2023, o governo havia retomado o Regime Especial da Indústria Química.
Ao comentar a situação de Cubatão, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o setor enfrenta forte concorrência internacional. “O polo petroquímico brasileiro sofre dificuldades de competitividade. Por isso, criamos instrumentos para reduzir impostos sobre insumos e aumentar a competitividade”, disse.
Segundo Alckmin, o governo defende o livre comércio, mas com regras. “Não promovemos guerra comercial, mas precisamos de defesa comercial, respeitando os ditames da Organização Mundial do Comércio”, concluiu.
Em nota, o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo lamentou o fechamento de fábricas em Cubatão e defendeu medidas adicionais para conter a desindustrialização. Para a entidade, é necessário intensificar o diálogo entre governos e setor produtivo para garantir competitividade, sustentabilidade e preservação dos empregos industriais no país.
Foto: Prefeitura de Cubatão/Divulgação

