A relação entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Congresso Nacional é percebida pela maioria dos brasileiros como marcada por confrontos e dificuldades de articulação política, segundo nova pesquisa Datafolha divulgada nesta semana. O levantamento aponta que 70% da população avaliam que Executivo e Legislativo mantêm uma relação mais de embate do que de colaboração, enquanto apenas 20% enxergam predominância de cooperação entre os dois Poderes. Outros 2% afirmam não perceber nem confronto nem parceria, enquanto 8% disseram não saber responder.
A pesquisa ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios brasileiros entre terça-feira e quarta-feira e possui margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00290/2026. A maior parte das entrevistas foi realizada antes da divulgação das conversas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, episódio que aprofundou ainda mais o clima de desgaste político em Brasília.
O resultado da pesquisa reflete uma sequência de derrotas e disputas enfrentadas pelo governo federal desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Um dos episódios mais marcantes ocorreu no fim de abril, quando o Senado rejeitou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. A derrota foi considerada histórica por integrantes do Palácio do Planalto e ampliou a tensão entre o governo federal e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Os confrontos entre Executivo e Legislativo vêm se acumulando desde 2023. Naquele ano, o Congresso Nacional retirou competências dos ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas, impondo importante derrota política ao governo. Em 2024, deputados e senadores derrubaram vetos presidenciais relacionados às chamadas saidinhas de presos e ao chamado “PL do Veneno”, voltado à regulamentação dos agrotóxicos. Já em 2025, o Congresso impediu alterações nas alíquotas do IOF e também rejeitou medida provisória que previa aumento de impostos, movimentos que provocaram forte reação do PT nas redes sociais com a campanha “Congresso inimigo do povo”.
Neste ano, além da rejeição de Jorge Messias ao STF, o Senado também derrubou o veto presidencial à lei que reduziu penas de condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. O episódio ampliou a crise política entre o Palácio do Planalto e setores do Centrão, principalmente diante da percepção de que o governo perdeu capacidade de articulação junto às lideranças parlamentares.
Apesar dos reveses, o governo conseguiu aprovar pautas consideradas estratégicas. Entre elas estão a reforma tributária e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais. Além disso, o Palácio do Planalto fechou acordo com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para avançar na tramitação da proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6×1, considerada prioridade eleitoral pelo PT para a campanha presidencial de 2026.
Entre os entrevistados que avaliam existir mais confronto do que colaboração entre governo e Congresso, 89% consideram esse cenário negativo para o Brasil, enquanto apenas 10% afirmam enxergar aspectos positivos nesse ambiente de disputa. Já entre os que percebem maior
cooperação entre os Poderes, 58% avaliam a relação como benéfica ao país, enquanto 38% consideram a aproximação negativa.
Nos bastidores do governo, a estratégia atual é preservar a boa relação construída com Hugo Motta e tentar reduzir o desgaste político com Davi Alcolumbre após a derrota envolvendo a indicação de Messias ao Supremo. Auxiliares presidenciais avaliam que o avanço de projetos considerados prioritários dependerá diretamente da reconstrução dessa articulação política.
Entre as propostas consideradas estratégicas pelo governo estão justamente o fim da escala 6×1, cuja votação pode ocorrer ainda neste mês na Câmara dos Deputados, e a PEC da Segurança Pública, parada atualmente no Senado Federal. O Palácio do Planalto aposta nessas pautas para recuperar apoio popular em áreas consideradas sensíveis ao eleitorado.
O levantamento do Datafolha também mostrou piora na avaliação do Congresso Nacional perante a população brasileira. O desempenho de deputados federais e senadores é considerado ruim ou péssimo por 37% dos entrevistados, enquanto apenas 15% classificam a atuação parlamentar como ótima ou boa. Outros 43% avaliam o Congresso como regular.
Os números representam deterioração em relação ao fim do ano passado. Em dezembro, 39% avaliavam o Legislativo negativamente, 14% tinham percepção positiva e 42% classificavam a atuação parlamentar como regular. Apesar da estabilidade estatística nos últimos meses, pesquisadores identificam manutenção do forte desgaste institucional envolvendo Câmara e Senado.
A insatisfação com o Congresso aparece de forma relativamente semelhante entre eleitores bolsonaristas e petistas. Entre os apoiadores da direita, 15% consideram o Legislativo ótimo ou bom, 43% classificam como regular e 37% avaliam como ruim ou péssimo. Entre eleitores alinhados ao PT, os índices registrados foram de 17%, 40% e 37%, respectivamente.
A pesquisa também indica diferenças de percepção conforme faixa social e nível de escolaridade. Brasileiros com renda intermediária e maior grau de instrução demonstram níveis mais elevados de insatisfação com deputados e senadores. A avaliação positiva do Congresso chega a 21% entre empresários e pessoas com ensino
fundamental completo, enquanto a rejeição alcança 47% entre servidores públicos e 43% entre brasileiros com mais de 60 anos.
O ambiente de desgaste do Legislativo ganhou novos contornos com o agravamento da crise envolvendo o Banco Master. As investigações relacionadas ao banco atingiram diretamente o senador Flávio Bolsonaro e o presidente nacional do PP, Ciro Nogueira. Flávio admitiu ter mantido contatos com Daniel Vorcaro para discutir financiamento do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto Ciro é suspeito de receber pagamentos mensais atribuídos ao grupo ligado ao Banco Master, acusação negada pelo parlamentar.
Apesar da dimensão do escândalo político, Davi Alcolumbre enterrou no mês passado a proposta de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar o Banco Master. O movimento ocorreu após acordo político envolvendo setores da oposição e a pauta da derrubada do veto presidencial relacionado à redução de penas de condenados pelos atos golpistas.
Mesmo sem apoio institucional no Senado, a criação da CPI continua sendo defendida por parlamentares petistas e bolsonaristas nas redes sociais. O tema passou a ser explorado por diferentes grupos políticos como instrumento de pressão sobre adversários em meio ao acirramento da disputa eleitoral de 2026.
A pesquisa também mostrou piora na avaliação do governo federal. Após três anos e quatro meses de mandato, 39% dos brasileiros classificam a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva como ruim ou péssima. Outros 30% avaliam o governo como ótimo ou bom, enquanto 29% consideram a administração regular. O cenário reforça a percepção dentro do Palácio do Planalto de que o desgaste nas relações com o Congresso Nacional passou a produzir impactos diretos sobre a imagem política do governo perante a população brasileira.
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

