O Supremo Tribunal Federal atravessa um dos momentos mais delicados de sua imagem pública desde o início da série histórica do instituto Datafolha. Nova pesquisa divulgada nesta semana aponta que 40% dos brasileiros avaliam o desempenho da Corte como ruim ou péssimo, índice que mantém o tribunal no pior patamar de reprovação já registrado desde 2019. Outros 34% classificam a atuação dos ministros como regular, enquanto apenas 22% consideram o trabalho do STF ótimo ou bom.
Os números permaneceram praticamente estáveis em relação ao levantamento realizado em março, quando a reprovação era de 39%, a avaliação regular também somava 34% e a aprovação positiva alcançava 23%. A pesquisa ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 139 municípios brasileiros nos dias 12 e 13 de maio. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00290/2026.
O desgaste da Corte ocorre em meio ao agravamento da crise envolvendo o Banco Master, às críticas relacionadas aos chamados penduricalhos salariais do Judiciário e às disputas internas entre ministros do próprio tribunal. Nos bastidores do STF, integrantes da Corte reconhecem que o ambiente atual é um dos mais tensos dos últimos anos e passou a comprometer diretamente a imagem institucional do Supremo perante a sociedade.
O escândalo envolvendo o Banco Master atingiu diretamente os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Toffoli deixou a relatoria do inquérito relacionado ao caso após a Polícia Federal identificar que fundos ligados ao banco adquiriram participação em empresa da família do ministro associada a um resort de luxo. Já Moraes passou a enfrentar desgaste político depois da divulgação de mensagens trocadas com o banqueiro Daniel Vorcaro pouco antes da prisão do ex-controlador do Banco Master, além da repercussão envolvendo contratos do escritório de advocacia de sua esposa com o banco.
Apesar da forte repercussão negativa atual, não é a primeira vez que o Supremo enfrenta elevado desgaste popular. Em 2019, o índice de reprovação também alcançou 39%, impulsionado principalmente pelas críticas relacionadas às decisões envolvendo a Operação Lava Jato. Naquele período, decisões como a que retirou do senador Flávio Bolsonaro a investigação das rachadinhas e a criminalização da homofobia e transfobia provocaram forte reação de setores conservadores e ampliaram ataques ao tribunal.
Já em dezembro de 2023, a rejeição ao STF chegou a 38% durante o auge dos confrontos entre ministros da Corte e grupos bolsonaristas após os julgamentos relacionados aos atos golpistas de 8 de janeiro. Ainda assim, integrantes do tribunal avaliam que o ambiente interno atual é mais delicado do que o vivido nos episódios anteriores, principalmente por causa das divisões abertas entre ministros.
Hoje, o Supremo enfrenta um racha interno que opõe dois grupos principais. De um lado estão Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. Do outro aparecem o presidente da Corte, Edson Fachin, e a ministra Cármen Lúcia.
O grupo liderado por Moraes e Gilmar Mendes pressiona Fachin para adotar postura mais enfática na defesa pública do tribunal e acelerar pautas consideradas prioritárias, entre elas propostas de restrição aos penduricalhos salariais. Já Fachin defende medidas voltadas à criação de um código de conduta para disciplinar a atuação de ministros fora da Corte, especialmente em eventos privados, palestras e encontros com empresários, advogados e representantes políticos.
Apesar da deterioração da imagem institucional do STF, a pesquisa mostra que a percepção sobre o tribunal varia fortemente conforme o posicionamento político do eleitorado. Entre os entrevistados que avaliam positivamente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, metade considera o desempenho da Corte ótimo ou bom, enquanto apenas 12% classificam a atuação dos ministros como ruim ou péssima.
Já entre os brasileiros que desaprovam o governo Lula, o cenário se inverte completamente. Apenas 5% avaliam positivamente o Supremo, enquanto 71% classificam o trabalho dos ministros de maneira negativa. O levantamento também mostra diferenças relevantes entre os eleitores de Lula e os apoiadores do senador Flávio Bolsonaro.
Entre os eleitores que afirmam votar em Lula, 40% avaliam o STF positivamente e 16% enxergam o tribunal de maneira negativa. Entre os simpatizantes de Flávio Bolsonaro, apenas 8% consideram o desempenho da Corte ótimo ou bom, enquanto 64% classificam o trabalho dos ministros como ruim ou péssimo.
O desgaste do Supremo também aparece associado ao fortalecimento do discurso bolsonarista em defesa do impeachment de ministros da Corte. Um dos principais objetivos da direita nas eleições deste ano é ampliar sua bancada no Senado Federal para pressionar pela abertura de processos contra integrantes do STF, especialmente após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
No recorte sociodemográfico, a reprovação ao Supremo é maior entre homens, eleitores com maior escolaridade e brasileiros de renda mais elevada. Entre os homens, 45% avaliam negativamente a Corte, contra 36% das mulheres. Entre entrevistados com ensino superior completo, a rejeição alcança 48%, enquanto entre pessoas com ensino fundamental fica em 34%.
A diferença também aparece na renda familiar. Entre brasileiros com renda de até dois salários mínimos, 33% avaliam negativamente o STF. Já entre os que recebem mais de dez salários mínimos mensais, a reprovação chega a 63%, reforçando a percepção dentro do próprio tribunal de que o desgaste institucional ultrapassou os limites do debate político tradicional e passou a atingir diferentes segmentos sociais do país.
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

